A miúda de 21 anos que meteu as malas às costas e o coração no bolso

Por: Catarina Correia

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Estou perto mas sinto-me longe, dois anos depois tenho em mim a certeza que não vim inteira. Se é possível ter a alma partida em pedaços, eu tenho pedaços de mim bem longe daqui, dois anos depois de chegar onde achei que pertencia tive a plena noção de que não pertenço apenas aqui. Sou inquieta de mais para permanecer presa a um só lugar, para pertencer a um só lugar, para ser feliz apenas aqui.
Aqui, eu sei que foi lá que percebi com o que contar,  lá eu sentia que precisava vir aqui para perceber que nem cá nem lá seria suficiente para mim. Nos últimos meses tenho duvidado de muitas coisas e tenho acreditado noutras tantas. Depois de cumprir, aqui, o objetivo que me levou a partir para lá, senti que o chão me fugiu e cai numa “espiral” de arrependimento que me fez ter vontade de fechar a porta e voltar a ser aquela “miúda de 21 anos que meteu as malas ás costas e o coração no bolso e foi.”!!! Mas porra! Aquela miúda não existe mais! Aguentei em dois anos aquilo que jamais aguentaria se não tivesse estado lá. Cresci em cinco anos aquilo que demoraria décadas a crescer se tivesse ficado aqui. Por vezes, sinto que tudo me puxa de volta ao sitio onde duas erupções vulcânicas me transtornaram menos do que 8 horas de trabalho me transtornam agora, depois tento parar e penso que a única coisa que tem de voltar é aquela miúda que teve coragem de ir contra tudo e contra todos. Faz-me falta a arrogância e irreverência de ter 21 anos. Faz-me falta aquela capacidade de transformar o medo em adrenalina. Andei dois anos a “matar” uma pessoa e depois percebi que essa pessoa sou eu!
E pronto, acredito que posso ser eu outra vez, aquela miúda sem medo e que não preciso de voltar à Islândia para ser eu. Só preciso de ir buscar “a miúda” que lá deixei e deixá-la voltar a viver em mim! Consegui ter a minha casa, passados três dias de lá viver a cozinha ardeu e o resto da casa ficou inundada, cai no fundo do poço, transformei-me num ser cheio de medo, raiva, duvidas e mariquice que nunca tinha sentido, depois disso demorei 15 dias a reerguer-me, voltei a pôr tudo de pé, a pôr-me de pé. Despedi-me, encontrei um trabalho novo e começa hoje a ultima semana daquilo que foram os meus últimos dois anos! A partir da semana que vem vou andar todos os dias com a miúda de 21 anos que tentei matar. E sabem que mais? se não der certo por aqui eu vou, vou lá, vou tirar tripas a peixe, vou apanhar 12 autocarros por dia, vou ter dois ou três trabalhos, vou deitar-me a chorar com saudades das minhas irmãs, vou ter medo de morrer, vou ter medo que os outros morram, vou fazer as malas para vir embora, vou ficar com as mãos em sangue de tanto frio, os pés gelados e cravados na neve, vou sentir o coração a bater no peito a cada merda que me aconteça! Se for preciso ir, vou! Porque não interessa onde tu estás. Só interessa que te sintas vivo,  que te sintas pelo menos! Quando voltei a casa, deixei que estas pessoas e este sistema me absorvessem ao ponto de me deixar de sentir, tornei-me passiva, medricas vivi nisto demasiado tempo! A última coisa que achei que precisava agora era perder um trabalho fixo e ir para o desconhecido, com uma casa para acabar de pagar, com as obras imprevistas e com mais meia dúzia de problemas que apareceram. Mas não, o que eu precisava mesmo era de sentir medo, sentir raiva, sentir qualquer coisa. Porque a dormir ninguém se levanta. Adormecido ninguém pensa, quase morto ninguém reage! Aqui estou eu, de pé. E apesar de o esquentador ter pegado fogo á cozinha, termos posto um cilindro para não nos arder a casa de novo e o cilindro ontem ter rebentado, 15 dias depois de ter sido colocado, aviso as forças da natureza que comprei outro passadas duas horas, e comprei de mais litros ainda porque a partir de agora vai ser sempre a contrariar. É medo que a vida me quer dar? Venha o medo que eu ainda tenho no bolso o diário da “miúda” que canalizou medo em adrenalina e viveu uma vida do caraças!!

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1 COMENTÁRIO

  1. Inquieta ou quietinha gente gosta de ti assim❤.. vida de emigrante não é fácil nunca foi, quantas vezes a gente pensa “ah, lá em Portugal é que é bom” mas não é só lá que é bom, cá também é bom.
    A gente habitua-se a viver longe. Um dia voltamos e continuamos longe das coisas que nos habituamos do outro lado de lá tambem.
    Das pessoas que deixamos pra trás..
    Vida de emigrante não é fácil é um tanto clichê mas é verdade, só nós vamos entender isso.
    Se quiseres ficar e lutar, fica.
    Se quiseres voltar e lutar, volta.
    Faz qual quiseres tens a vida toda pela tua frente.
    Em qualquer uma vai ser sempre um desafio, mas sabes que qualquer dos lados estarás sempre acompanhada.
    Xoxo coração.

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