Depois de ter estado oito meses a viver na Hungria como voluntário, integrado no Serviço de Voluntariado Europeu, Afonso Bértolo chegou a Lisboa sem muita vontade de voltar à rotina. E foi aí que teve a oportunidade de ir numa viagem até à Guiné-Bissau com mais sete pessoas numa furgoneta. A viagem até Bissau começou em Casablanca, Marrocos, e passou pelo Sahara Ocidental, Mauritânia, Gâmbia e Senegal. Entre transportes e boleias. Dois anos depois da aventura, Afonso vive na Guiné.

 

África estava «no fim da lista dos continentes a visitar», confessa Afonso. Para este psicólogo de 28 anos, o continente africano era demasiado abrangente. Por outro lado, a imagem que tinha de África não era de todo positiva, «quer pela sua vastidão, quer pela imagem negativa que a maioria dos média insiste em transmitir, e até pelo meu imaginário onde uma panóplia de bichos esquisitos e doenças invulgares tinham um forte lugar» refere. A Guiné-Bissau era, assim, um longe destino que se veio a revelar uma certeza e uma vontade de ficar. Hoje, dois anos depois de chegar, Afonso prepara-se para deixar aquela que já considera a sua segunda casa.

Afonso considera que a sua experiência é muito diferente daquilo que imaginara. «A realidade mostrou-me um país que, apesar de pequeno, era grande na sua humanidade; onde a miséria e a guerra trágica que os principais média, de mão dada com Hollywood, tanto gostam de vender, mais não é que uma história de terror de má qualidade, um pesadelo longínquo. Claro que há pobreza e o acesso à educação e à saúde, entre outras coisas, é para lá de precário, mas não se vê crianças de barriga dilatada nem conflitos intermináveis, longe disso.»

«A Guiné-Bissau é a prova de que toda e qualquer generalização sobre África é um facilitismo. A Guiné é um pequeno paraíso, e para quem ainda tenha dúvidas pergunto-lhes então qual pensam ser a razão para que quem já lá esteve queira e acabe sempre por voltar. Talvez sejam as paisagens, mas desconfio que sejam principalmente as pessoas», adianta Afonso.

Vamos deixá-lo falar.

 

Trabalhar na Guiné

«A minha ideia era simples, embora algo difícil: ficar pela Guiné-Bissau e tentar arranjar trabalho em contexto ONG. Ficar, porque como disse antes não queria voltar. Admito, neste sentido, que foi mais uma fuga e um capricho. A ONG entra aqui por causa da minha experiência na Hungria. Era difícil, porque tinha estudado Psicologia e a minha única experiência neste contexto tinha sido na Hungria, portanto, era consideravelmente pouca. Três meses depois de entregar currículos e viajar à volta enquanto esperava uma resposta, consegui o meu primeiro trabalho, embora de curta duração, somente um par de semanas. Depois consegui o meu primeiro trabalho de longa duração, e que me permitiu descobrir uma outra Guiné. Durante nove meses, no Sul do país, ajudei a implementar um projecto de reforço de capacidades num centro multifuncional – possui rádio, biblioteca e sala de computadores – gerido por jovens. Foi uma experiência que me permitiu aprender mais do que somente o lado profissional. Foi, de facto, dar os meus primeiros grandes passos em direcção à cultura guineense.»

 

De quartel em quartel

«Este era projecto itinerante, de quartel em quartel pela Guiné. Através de uma “rota” de dinâmicas onde as equipas mistas tinham de solucionar situações e problemáticas contendo um significado por detrás, sendo fundamental que se escutassem, isto é, que ouvissem o outro, validassem o seu ponto de vista e assim, reconhecê-lo como um igual porém com as necessárias diferenças. Deste trabalho guardei dois momentos. O militar que no último dia – onde era feito um mini-festival – me disse, enquanto ficava ao sol e me mantinha à sombra: “Como querem que não peguemos em armas, se eu passo todo o dia ao sol, durmo no chão, sofro para que os meus filhos possam comer e vocês (apontando para mim, mas referindo-se a quem estava de fora) estão todos os dias aí à sombra, a comer bem e a mandar os vossos filhos a estudar para fora” (não é ipsis verbis, mas quase). O outro foi umaparticipante, em Mansoa (uma zona marcada pela guerra civil de 98-99 e pelo facto de ter um dos principais quartéis a nível nacional), uma civil, dizer-me que esta iniciativa tinha sido das melhores coisas da sua vida, porque pela primeira vez sentia que podia passar na rua junto dos militares e falar com eles (algo culturalmente bastante importante por este lado do mundo). Não quero que isto pareça o típico “conto de fadas” ao estilo cooperante/trabalhador de ONG, mas foi algo que me ficou, e agora na sequência do recente golpe de Estado me voltou à memória, até porque quem ordena os golpes militares não são propriamente aqueles que passam o dia ao sol.»

Quando trabalhou no Sul da Guiné, Afonso conheceu um outro país. «Passei a viver parte do tempo fora de Bissau – que como todas as capitais que tenho conhecido é uma realidade distinta em relação ao resto do país – e porque o Sul na sua paisagem parece outro país, literalmente! De repente, torna-se tudo verde, o cheiro é outro e tudo parece remoto, como se uma bolha em tons de verde e de um azul de um céu que parece mais alto e infinito envolvesse a região e o tempo se tornasse algo espessamente líquido, como lava.»

 

A chegada a Catió

«O momento da chegada a Catió foi, sem dúvida, qualquer coisa. A viagem foi o contacto com uma nova paisagem, e bem cansativa. Cheguei de noite, ainda meio desorientado… No dia seguinte deparei-me com uma paisagem repleta de palmeiras, baobabs e poilons (uma árvore sagrada, lindíssima), nem queria acreditar… Isso e ter que me reunir com uma equipa de 12 jovens (que entretanto foi crescendo) e arranhando o kriol(crioulo). De pessoas guardo uma amálgama de momentos… Era andar pela rua e ir falando mantenhas (saudar) às pessoas, ouvir o meu nome não sei bem de onde (porque gravaram alguns separadores com a minha voz quando participei nalguns debates e sessões de conta-contos em que fui o narrador), a facilidade no trato e a curiosidade em conhecer-me, a familiaridade que logo ali se ganha… O bom lado do reverso da medalha que é a falta de privacidade… Recordo as reuniões nada protocolares com as autoridades locais, em que bastava bater à porta; o Ussumail, o vendedor de café e pão com ovo ou manteiga, onde ia tomar o pequeno-almoço e lanchar e entretanto me ia falando da sua família na vizinha Guiné-Conakry ou me explicava algumas coisas sobre o Islão (finalmente consegui perceber como é que os muçulmanos sabem sempre qual é a direcção de Meca); e, mais do que todos, os jovens da rádio que aceitaram o “alienígena” entre eles e me fizeram sentir cada vez mais em casa.»

“Em Catió, trabalhei no centro multifuncional, mas não vivia bem lá, porque repartia o tempo entre Catió e Bissau. Se tivesse de escolher o projecto que, de longe, me seria mais difícil de envolver em Portugal seria este. Em primeiro lugar, por implicar viver, ainda que parcialmente, longe (a viagem de transportes era uma aventura de pelo menos seis horas, por vezes chegando a 12, entre pessoas ao molho, animais e o omnipresente calor, mas sempre animada pelas constantes conversas entre os passageiros) e por partilhar o quotidiano com os jovens: dormia onde eles dormiam (até cheguei a dividir a cama, ou melhor a espuma, com alguns formadores envolvidos do projecto), comia o que eles comiam, trabalhávamos juntos. Claro que água de beber não era a mesma, mas… também não sou o super-homem. Uma vez mais lembro que “não é o conto de fadas cooperante em África”. Tive de partilhar esta realidade quotidiana, porque era condição sine qua non para poder trabalhar, mas no fundo não deixo de ser um urbanita, como se diz em espanhol. O meu contexto de referência é outro e por vezes esta adaptação não era propriamente grata e sentia-me, em certos dias, a bater com a cabeça na parede – entre outras coisas não tinha privacidade nenhuma –, ou, por exemplo, mal chegava a Bissau, o que mais queria era uma pizza. Mas ainda bem que assim foi. Permitiu-me sair bastante da minha “bolha” e aceder a uma outra realidade, dando-me a perfeita consciência de que cresci num contexto e que essas são as minhas referências, e que ter limites de adaptabilidade é algo bastante positivo.»

 

O projeto em Bissau

O último projecto em que Afonso participou foi o de capacitar uma equipa de um centro de despiste, apoio e tratamento em VIH/SIDA, em Bissau. «Não que em Portugal não pudesse ter sido formador, mas aqui implicou sê-lo noutro contexto cultural, onde as formas de aprendizagem são bastante diferentes. Aí, apercebi-me de quão formatado eu estava pelo meu percurso académico e como teria que sair disso… Desistir do powerpoint e dos conceitos “bonitos” que são memorizáveis e passar a ser facilitador de um processo de aprendizagem. Ou melhor, tentar – que como se costuma dizer “ainda tenho muita sopa para comer”. Tentei tornar a minha formação num espaço dinâmico, onde os formandos pudessem ser agentes no processo. Pondo de lado o palavreado: deixar de me esconder atrás do previamente planeado, adaptar-me à realidade de quem tinha diante de mim e aceitar a responsabilidade que é conseguir que, de facto, haja uma aprendizagem e não debitar conteúdos. Claro que toda esta intuição não partiu somente de mim. Tive bastante ajuda de três amigas – a Maria, a Marta e a Maria João – que entre puxão de orelhas e ideias me possibilitaram lá chegar… E também fazer-me perceber que ainda me falta muito para chegar a uma maturidade a este nível.»

 

O que fica por realizar na Guiné

«Poder continuar este trabalho de capacitação que fiz durante oito meses, mas que, na prática, precisaria de dois anos para que ficasse minimamente bem feito. Na realidade, é um contínuo, dadas as implicações vastíssimas do trabalho na área do VIH/SIDA, na qual a mudança de mentalidades e de quadro conceptual – aqui muito ligado ao sobrenatural – são o principal desafio… Porque, por muita informação e medicamentos que se possam trazer, isto é o mesmo que, de repente, chegar ao pé de nós uma nave espacial e dizer “façam estes rituais e cerimónias que vão acabar com as vossas doenças”… Fácil de aceitar, não? E se este é um ponto que em dias mais “negros” pode ser mais uma pedra para nos levar para o fundo, é também este desafio que faz valer a pena, porque há que saber olhar realmente para o outro para poder traduzir a nossa linguagem.»

 

Um dia, a Guiné em documentário

«Gostava ainda de fazer um projecto/documentário de recolha de contos tradicionais, dada a diversidade étnica da Guiné-Bissau e a riqueza cultural que daí provém. Há quem diga que existem 32 etnias na Guiné-Bissau, mas seguramente são pelo menos 14. Até porque, na Guiné, a tradição é oral e não escrita e a linguagem, e os contos como uma versão mais elaborada, actua como principal veículo. Não é por acaso que o kriolé uma linguagem rica em metáforas e ditados. A ideia para isto surgiu no projecto em que trabalhei no Sul, onde uma das actividades era exactamente sessões de conta-contos para crianças. Daí surgiu a ideia de se fazer a recolha dos contos tradicionais, o que infelizmente acabou por não ser feito.»

 

O lado menos bom

«O menos bom não é uma história, mas o impacto de uma vivência repetida: as viagens nos candongas, as furgonetas que fazem o transporte comunitário. Nestas furgonetas, as pessoas perdem o seu valor humano, tornam-se fonte de dinheiro. Onde, no máximo, caberiam quatro pessoas, têm de caber pelo menos seis, fora as mercadorias que ainda enchem mais as carrinhas. Como se as pessoas mais não fossem do que cabeças de gado numa carrinha a abarrotar, onde o condutor nunca vai a menos de 60 km/h em estradas que de estradas nada têm…»

 

O lado bom

«Uma história boa aconteceu exactamente hoje: no final da cerimónia de entrega dos diplomas da formação, os meus formandos ofereceram, a mim e à minha colega Ilda, roupas tradicionais feitas com tecidos locais. Fiquei sem palavras.»

 

O «ser» Guiné

 

A mulher guineense

«Não posso deixar de falar dessa figura louvável que é a mulher guineense. Ela lava, cozinha, vai ao mercado, educa os filhos, trabalha… Imparável e incansável, a mulher representa uma força única dentro do espírito guineense que se encontra muito subjugada por uma sociedade em si machista.»

 

A partilha

«Certa noite, caminhando pelo centro de Bissau, passei por um banco, e os guardas, que preparavam a guarga (chá), convidaram-me a sentar-me com eles, sem me conhecerem, apenas pelo prazer de partilhar. Outra vez, eu vinha de táxi – aqui os táxis são comunitários – e ao chegar ao destino, eu e o taxista começámos a discutir o preço, porque ele discordava. Nisto, junta-se outro cliente à discussão. Às tantas, o taxista saca a tabela de preços e monta-se uma amigável discussão, que já de si era algo invulgar. É então que reparo que o motor continuava ligado e o carro no meio da estrada em cima duma curva. Não pude senão rir-me para dentro dessa situação surreal. Acabei por sair do táxi e paguei, mas o taxista e o outro cliente continuaram a discutir o preço.»

 

A língua

«A linguagem kriol (crioulo) é plena de metáforas. Por exemplo, para saudar alguém pergunta-se “Kuma ki bu mansi?” (Como é que amanheceste?). Se chove diz-se “Tchuba na tchubi” (A chuva chove).»

 

Os Modos

«Quando se pergunta a alguém quando é que algo vai estar pronto, a resposta mais comum é: “amanhã”… Só que esse “amanhã” pode ser amanhã, daqui a uma semana, daqui a um mês ou até mais. O mesmo se passa nos restaurantes. Quando se pergunta se a comida vai demorar muito, a resposta é sempre a mesma: “I ka tarda” (Não demora) ou “Na bin” (Já vem).»

 

As saudades de Portugal

«Antes de mais, tenho saudades da família e dos amigos. Há tempos estava a ter uma conversa sobre o difícil que é trabalhar fora e neste contexto, porque as pessoas vão e vêm com alguma regularidade, e vais constantemente criando laços fortes para depois deles teres que te apartar, como se os fosses perdendo. Sinceramente, não o vejo assim: as pessoas que realmente valem a pena voltas a reencontrar, como se fosse seleção natural. O que realmente custa, e que me apercebi de que vou perdendo, são os amigos mais chegados e que ficaram em Portugal. Não é realmente perdê-los, mas perder vários momentos na sua vida que foram importantes, como não poder estar lá quando o pai dum amigo de infância morreu e ter que me limitar ao telefonema.»

«Sinto falta, claro está, da comida. Principalmente do cabrito assado no forno com batata a murro. E também da mudança de estações ao longo do ano. Da Arrábida e a Costa Alentejana. Da vida em Lisboa, entre coisas a acontecer e a noite non-stop.»

 

Afonso tem o seu lugar em Portugal

«Portugal, e acima de tudo Lisboa (sou um alfacinha de gema e apaixonado por Lisboa), hão de ser sempre um ponto de reencontro, de regresso, ainda que a distância ajude a romantizar, e que quanto maior a estada mais esse deslumbre se desgasta. Pois que talvez seja essa a origem da saudade: há quem diga que está ligada às mulheres dos marinheiros que, na altura dos Descobrimentos, partiam sem saber quando regressariam e elas os esperavam e os seguiam desejando e amando, apesar da incerteza. Pensando agora, talvez a saudade provenha desses mesmos marinheiros que quanto mais se ausentavam, sem saber quando poderiam voltar, neles crescia essa saudade de uma pátria distante, a que a distância emprestava uns contornos mais fantásticos, que já não era bem Lisboa, mas que contudo para eles não deixava de o ser… E que no regresso disso se apercebiam e novamente partiam em busca da pátria que haviam idealizado.»

«Quanto mais tempo vou passando fora, mais sinto no regresso a Portugal como se houvesse uma máquina orgânica, da qual eu fui outrora uma peça e que agora, com a ausência, me tornei uma peça, não solta, mas “intermitente”, encaixando, mas não muito. A primeira vez que regressei ao país, depois de oito meses na Hungria, senti-me como um fantasma, caminhando pelas memórias vivas de alguém. Não diria que sinto que Portugal não tem lugar para mim, eu é que ainda não encontrei o meu lugar nele, pois sinto que ainda tenho bastante por aprender, por recolher de outras culturas e que num futuro, não sei se próximo ou longínquo, quero trazer para Portugal e a partir daí desenvolver algo.»

 

Uma nova visão de Portugal

«Portugal é um país com imenso potencial humano, dada a diversidade de povos que ali vivem, com uma riqueza histórica imensa, mas que infelizmente caiu numa apatia. Há por vezes demasiado pessimismo, quando de facto devíamos saber olhar para a frente. E que leva, por vezes, as pessoas a querer ir e não voltar. Não que actualmente a situação esteja fácil em Portugal, longe disso, mas tampouco me parece que seja algo terminal. E também, como alguém me dizia, é um país com mais imaginação que integração: onde há bastante imigração, mas falha por vezes a integração que realmente permite a criação de uma sociedade (mais) igualitária. Sem dúvida, essa é para mim uma das maiores riquezas de Portugal. Um país tão pequeno, porém com tanta diversidade, não só pelos que chegam, mas também pelos que vão e voltam.»

 

Esta experiência fez do Afonso uma pessoa diferente

«Esta experiência vem dum contínuo, não é algo isolado. Vim parar à Guiné como consequência de não querer permanecer em Portugal e por ter uma vontade enorme de conhecer o mundo. Viver aqui foi, acima de tudo, uma aprendizagem, um processo de crescimento… Tornou-me igualmente uma pessoa mais aberta – ainda que possa ser muito casmurro – e mais espontânea… E toda a generosidade que tive desde o momento da chegada – fui recebido por um amigo que durante três meses me deixou ficar em casa dele e quase me proibiu de pagar as contas – ensinou-me que toda a partilha que incondicionalmente parte de nós só preenche mais. Mas também que a capacidade de dar ao outro tem um limite e que nos pode desgastar. Uma das principais transformações que tive com esta experiência foi o saber desenrascar-me, em vez de me queixar de como as coisas não evoluem, tentar procurar soluções e saber aceitar quando de facto não se pode atingir o que esperávamos… Reconhecer que sou capaz de criar as minhas oportunidades e fazer mais coisas do que pensava que seria capaz – basta olhar para os diferentes trabalhos que tive nestes quase dois anos – mas também que é preciso saber parar e reflectir, admitir limitações e que pedir ajuda não é sinal de ignorância, de debilidade ou incompetência, mas sim de humildade e nos pode levar a chegar mais rapidamente à resposta que procurávamos ou descobrir uma outra direcção. Sim, estar três meses à procura de trabalho, a ir de ONG em ONG deixar CV tornaram-me mais paciente.»

 

De Portugal para a Guiné

«Sem dúvida, o que traria de Portugal para a Guiné seria o acesso à saúde e educação, duas carências tremendas que existem neste país e que a meu ver são prioritárias para que tudo o resto possa avançar. Levava ainda a capacidade de aceitar a crítica: aqui a crítica, ainda que seja construtiva, é quase sempre vista como um ataque pessoal e cria grandes bloqueios, especialmente a nível de equipas de trabalho, e uma certa falta de responsabilização em caso de erro.»

 

Da Guiné para Portugal

«Da Guiné levaria o espírito comunitário, a vivência em comunidade, este sentido humano onde o diálogo é algo prioritário e tem um ritmo próprio, indiferente a tudo resto. Numa palavra, levaria o djumbai: o encontro casual de pessoas que se sentam, umas falam outras escutam, e vão sempre chegando novas pessoas enquanto outras saem e se houver dinheiro, por pouco que seja, partilha-se o que se pode, seja bebida, comida. Levaria ainda a espontaneidade no contacto, a facilidade com que se inicia uma conversa, só porque sim. E também o conceito de tempo: enquanto em Portugal as pessoas correm dum lado para o outro, escravas do relógio, aqui o tempo molda-se ao ritmo das pessoas.»

«Se tivesse de levar uma coisa só de ambos os países seria um híbrido entre espírito comunitário guineense e o individualismo ocidental – no sentido do indivíduo responsável pelas suas acções e pela sua liberdade, sempre respeitando o próximo, não o egoísmo que corrompeu este conceito. Ou seja, uma mentalidade em que o indivíduo é agente, mas que o benefício que gera não é só para si, mas principalmente para o próximo e para a sua comunidade. Que assume a responsabilidade das suas falhas, mas que também sabe afirmar a sua liberdade e necessidade esporádica de afastamento da comunidade, sempre pautado por um ritmo mais natural que não o do relógio.»

 

A Guiné de Afonso

«Dentro de três semanas o meu ciclo na Guiné-Bissau termina e nem sei bem ainda defini-lo ou somente encontrar palavras para transpor todo o conjunto de emoções que fluem para o domínio do verbal… Ainda recentemente – num acontecimento organizado por pessoas com uma iniciativa admirável conjugada com uma qualidade única de trabalho – tive de responder à pergunta: “O que é para mim a Guiné?” E a resposta que logo me saiu foi: uma aprendizagem, um processo de crescimento… Entre um início difícil, onde me senti cheio de dúvidas e perdido, por vezes atingido por uma solidão nunca antes conhecida, a um final onde a dor parte exactamente de ter de abdicar das raízes que aqui tenho – ou menos negativamente de as transplantar para outro solo -, de olhar para esta transição de um sentimento em tonalidades por vezes obscuras para uma percepção de que aqui tenho uma casa e uma segunda família, percepção essa que surgiu subitamente, um clickemocional de que só mais tarde ganhei consciência e do qual resultou uma Guiné pintada a partir de uma palete completamente diferente. De tal modo, que penso voltar para a Guiné no futuro, investir num país que tanto me deu, ainda que me demorasse a aperceber-me de isso…»

 

Uma frase para definir esta experiência

«Foi uma travessia de uma caminhada que ao início me parecia um longo de deserto e que agora ao aproximar-me da sua etapa final percebo que todas as tempestades de areia que enfrentei mais não foram que o erodir de pensamentos mais fossilizados e que apesar de fisicamente não me ter movido, onde dantes existia este deserto existe agora não um oásis, mas sim um pequeno paraíso ao qual quero voltar para me emergir na sua profunda humanidade.»

 

 

Afonso Bértolo deixa a Guiné-Bissau no final do mês de maio. Aguarda agora a aprovação da sua candidatura a uma bolsa de um programa da União Europeia centrado na educação para adultos. Se for aceite, o próximo destino de Afonso será a Holanda.

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Antes de mais, sinto-me português pela língua que falo e escrevo desde que nasci. E isto é maior do que uma fronteira delineada. Cada linguagem acarreta o legado cultural e também emocional das várias gerações dos seus falantes bem como o que os moldou. É algo dinâmico e que na interacção com outras línguas vai crescendo. E isso acontece-me aqui na Guiné-Bissau: em casa falo espanhol, na rua falo principalmente kriol, dentro do meu grupo de amigos mais chegado falo português e inglês. Desta simultaneidade surge a minha própria versão do português, onde já “nacionalizei” algumas palavras de outras línguas por me fazerem todo o sentido e serem intraduzíveis. Claro que há aspectos culturais que posso dizer que são portugueses ou mesmo formas de estar, mas acima de tudo é com a língua que me identifico, com a sua riqueza e longa história.

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Mara Alves
É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

4 COMENTÁRIOS

  1. Grande Afonso!

    Gosto da “história” que foi contada. Sei bem que a escrita por vezes não reproduz as nossas intensas vivencias e emoções, mas acredito que te ajude a dar algum sentido ao que viveste nos ultimos 2 anos. Nao te consigo esconder que me identifiquei com o que escreveste pelo facto de me estar a sentir da mesma forma em Marrakech. Espero que a seleccao natural nos volte a juntar para uma boa conversa em Lisboa.

    Ate ja

    Antonio

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