Depois de sete anos a trabalhar, em Portugal, na mesma empresa, Andreia Rocha sentiu que estaria na altura de mudar. Diz não ter sido motivada pela crise ou instabilidade económica do país, mas mais pela procura de um novo desafio. Mais sete anos passaram e a Austrália é o destino há muito desejado.

 

A vontade de «descobrir o mundo», de sair de Portugal em busca de uma nova experiência de vida, foi desde cedo um objetivo para esta portuguesa que já descobriu o Reino Unido e agora vive a experiência de viver nas antípodas de Portugal. Andreia Rocha é arquiteta e vive na Austrália.

«A Austrália apareceu há alguns anos, mais precisamente no final da minha formação académica. É um país com elevados índices de qualidade de vida, sol, praias e por estar talvez nos antípodas do mundo… acho que faz parte do imaginário de qualquer um», conta Andreia.

Na altura em que a ideia australiana começou a ter forma, Andreia Rocha tomou também consciência da complexidade do processo de emigração. «Era complexo e precisaria de comprovar, no mínimo, três anos de experiência profissional. Algo que, naquele momento da minha vida, era impossível.»

No entanto, sete anos passaram e voltou o bichinho da Austrália. Andreia voltou a pesquisar sobre os requisitos necessários para avançar com o processo de emigração e assim deu início à «saga». «Foi um processo desgastante, burocrático, extremamente dispendioso e lento. Ao fim de quase dois anos obtive o Skilled Visa.»

 

Antes da Austrália, a Inglaterra

«Na Inglaterra, tive a minha experiência fora da zona de conforto. Também melhorei o inglês e posso dizer que foi uma experiência extremamente gratificante.»

 

O sonho dos antípodas

A viver há alguns meses na Austrália, Andreia Rocha ainda sente dificuldades, principalmente burocráticas. «A dificuldade maior é mesmo a inserção no mercado de trabalho australiano. Por me ter sido atribuído um Skilled Visa, obtido apenas porque a minha profissão estava em demanda no país, achei que seria relativamente fácil inserir-me no mercado de trabalho.»  A falta de experiência local, de networking na sua área profissional e também algumas dificuldades de entendimento relativamente aos parâmetros utilizados pelos recursos humanos australianos, levantam as maiores dificuldades a Andreia. «A realidade portuguesa é muita distinta da australiana. Aqui, temos de aprender a vender-nos como produto, explicar porque somos o melhor dos melhores e convencer as empresas.»

 

O bom e o menos bom

Para Andreia, uma das coisas mais positivas da Austrália é a facilidade com que se faz amigos no distante continente. «É incrível como se consegue fazer amigos por aqui. O clima, a vida social, a multiculturalidade são, sem dúvida, fatores preponderantes. Conheço muitas pessoas com diferentes backgrounds e talvez por todos termos a necessidade de criar raízes, a amizade é algo que fluí de uma forma muito natural. Sou capaz de conhecer pessoas no autocarro ou numa fila de supermercado. É isso que adoro na Austrália.» Já o menos positivo é a falta de evolução tecnológica. «Os ATMs [caixas Multibanco] são péssimos, o netbanking está a anos-luz de Portugal e a internet parece não ter ouvido falar em século XXI. Será o preço de viver numa ilha?»

Porém, de um modo geral, Andreia Rocha considera que a Austrália corresponde às suas expectativas iniciais. No entanto, assume algumas desilusões, como a rede de transportes públicos e o sistema de saúde público, que pensava serem mais eficazes. Contudo, o balanço até agora é muito positivo. «Os aspetos negativos são quase apagados quando me sento na Opera House e aprecio a Harbour Bridge… ainda não encontrei no mundo enquadramento tão belo.»

 

Portugal e as saudades

«Resposta cliché, mas extremamente verdadeira: a minha família e os meus amigos! Se pudesse, fretava um avião e enfiava-os lá dentro com destino a Sydney… Aí sim, a Austrália seria perfeita!»

 

Uma nova visão de Portugal

Diz Andreia que Portugal ainda tem que se desenvolver em muitas áreas, sendo que, a mais preocupante é também «a mais difícil de contornar: a educação». «O crescimento de um país é responsabilidade de cada um de nós e enquanto houver pessoas que não votam porque é melhor ir para a praia, não pagam os seus impostos, porque “se ninguém paga, porque é que eu vou ser diferente?”, ou contornam sistematicamente as regras, dificilmente iremos progredir. A raiz do problema está na base e a base tem de mudar. Temos um país fantástico, cheio de talento, pessoas especiais, mas há questões – arriscar-me-ia até a dizer “geracionais” – que dificilmente serão resolvidas a curto/médio prazo.»

 

Uma frase para definir esta sua experiência

«A vida é um desafio diário… só precisamos de encontrar as armas certas para o superar.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Serei sempre um coração luso! Ainda assim, e tendo eu um grande coração, guardo um espacinho para o resto do mundo… que no fim das contas, não é assim tão grande.

Quase dois meses depois de termos contado a história da Andreia, sabemos hoje que conseguiu o emprego que tanto desejava. É arquiteta numa empresa australiana. Boa sorte, Andreia!
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Mara Alves
É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

7 COMENTÁRIOS

  1. …=>
    A unica desvantagem que existe em Sydney, em comparacao a qualquer cidade em Portugal, e’ o elevado custo de vida, principalmente em relacao a imobiliaria (tanto em compras como alugueres). E’ a 2* cidade mais cara do mundo a seguir a Tokyo. Mas compreende-se devido `a competicao da grande % de habitantes provenientes de todas as partes do globo, …e como em qualquer mercado: “o preco sobe com a grande procura”, e “tudo que e’ bom custa mais”!
    Para confirmar alguns factos acerca de Sydney (e outras cidades Australianas) seria bom ler as seguintes paginas: http://www.news.com.au/money/cost-of-living/sydney-worlds-second-most-expensive-city-in-the-world/story-fnagkbpv-1226495524501 ; http://www.smh.com.au/nsw/sydney-liveable-but-pricey-20121014-27km5.html ; http://www.smh.com.au/national/australian-women-most-empowered-globally-20121016-27p34.html ; http://www.smh.com.au/travel/travel-news/melbourne-back-on-top-as-most-liveable-20120814-2461m.html ; http://www.smh.com.au/travel/travel-news/sydney-ranked-as-the-fifth-most-liveable-city-in-the-world-20120705-21itz.html ; http://zincip.biz/2012/10/12/sydney-on-top-of-the-property-rich-list/

    E sempre dificil fazer uma mudanca de pais, e espero que esteja tudo a correr pelo melhor. Mas sem duvida que a Australia e’ um pais para o qual vale a pena ter as inconveniencias iniciais p/ fazer essa mudanca… para melhor!
    Com a experiencia de 25 anos a viver em Sydney, continuo a recomendar (apesar do elevado custo de vida,…mas os ordenados tb sao mais elevados).
    Boa sorte nesta terra de sorte!
    Margarida Sa’-Sawyer (em Sydney)

    • Margarida, fala de Portugal dp do 25 de Abril tal como a minha familia 🙂 Feliz por saber que encontrou “um lar” na Austrália.
      Estive um ano e meio a estudar e dp vim para a Holanda ganhar mais experiencia profissional e poupar dinheiro. Conheci o meu namorado (Holandes) na faculdade Australiana e agora vamos tentar mais uma vez voltar (desta vez para ficar). Infelizmente eu nao posso aplicar para SkillSelect.. 🙁 Designers Graficos há demasiados. Talvez o meu namorado consiga, senao vamos à mesma. Temos enviado Cv’s e já fizemos alguns contactos. Qd se sente que se encontrou onde se quer viver deve-se lutar, certo?
      Boa sorte, Andreia e parabéns. Tal como a Andreia tb sai de Portugal não pela crise mas pq não me identifico com a profissionalidade do Portugueses. Vivi em Barcelona, Gold Coast e Amsterdam. Sei que a Austrália é “lar” 🙂

  2. …=>
    Em relacao `a Australia e depois de ter vivido aqui durante 25 anos, eu gostaria de acentuar que e’ uma maravilha em varios aspectos, nao so’ em beleza natural. E comparando com Portugal e’ dificil encontrar aspectos negativos (a nao ser o custo de vida que e’ muito elevado na Australia, principalmente em Sydney ).
    Em relacao a comentarios negativos que encontrei aqui acerca da Australia, gostaria de dizer que nao concordo com o seguinte:
    a)”o negativismo acerca dos servicos de saude na Australia”_e’ incorrecto.
    b)”os transportes publicos” _(existem muitas variaveis).
    c)”existe uma falta de evolução tecnológica que se faz sentir”_e’ incorrecto.
    d)“os ATM´s são péssimos”_e’ incorrecto.
    e)”netbanking está a anos-luz de Portugal”_e’ incorrecto.
    f)”a internet parece não ter ouvido falar em século XXI”_e’ incorrecto.
    g)”Será o preço de viver numa ilha?”_ Sim, e’ uma ilha, mas nao e’ pequena, e’ considerada como um continente e e’ quase 83 vezes maior que Portugal. E em relacao a area e’ o 6*maior pais no mundo. E em relacao a varios aspectos a Australia continua a ‘distanciar-se’ de Portugal a varios niveis: ao nivel de vida, economia, sustentabilidade, educacao em geral, reconhecimento de universidades, tecnologia, oportunidades de trabalho, investimentos, valorizacao da moeda, servicos de saude, etc.
    A Australia tem um dos melhores niveis em relacao a qualidade de vida no mundo, basta notar que se encontra no topo de varias listas globais (desenvolvimento, demograficos, nivel de vida, atraccao p/ viver, tecnologia, maiores economias, mais influencial, sustentabilidade, factores economicos, qualidade de vida, saude, seguranca, etc).
    A generosidade do sistema de saude publica na Australia (para residentes) e’ admirada por varios paises desenvolvidos, entre eles os Estados Unidos.
    Em relacao ao sistema de transportes publicos, eu gostaria de mencionar que Sydney e’ uma cidade de quase 5 milhoes de habitantes e de proporcoes enormes que nao se pode comparar c/ as areas de uma cidade em Portugal, como o Porto ou Lisboa. Desde “Palm Beach” no norte, ate’ “Campbelltown” no sul, sao `a volta de 100 kms de distancia, e como e’ de esperar c/ essas distancias e quantidade de habitantes existem algumas dificuldades nos transportes publicos. Depende muito das zonas em que se vive e em que se trabalha. Aqui existem variadissimos meios de transporte e c/ precos variados: autocarros do governo estatal; autocarros do governo local; autocarros de companhias privadas; comboios; “ferries”(barcos) c/ rotas p/ varias partes da baia; “monorail”; “light-rail”; taxis em ruas e taxis da agua p/ varias partes da baia. Claro que Sydney nao tem a eficiencia dos transportes publicos de paises pequenos como presenciei na Suica e em Singapura. Mas tb posso dizer que o servico de transportes publicos em Sydney e’ superior a Los Angeles, Joanesburgo e Sao Paulo.
    =>…

  3. Ola’ “coracao luso”!
    Encontrei esta pagina “coracao luso” por acaso. E realmente como Portuguesa a viver fora de Portugal `a imensos anos, entao compreendo estas historias muito bem, devido `as minhas proprias experiencias de viver em varios paises.
    Nasci em Portugal, mas aos 18 meses a minha familia foi viver em Angola, onde permanecemos ate’ aos finais da historia colonial Portuguesa em Africa. Nos ultimos meses da nossa experiencia Africana vivemos sob as condicoes de guerrilhas entre as varias milicias partidarias e guerra civil. Depois de observarmos imensas situacoes desagradaveis, as escolas tiveram que encerrar, assistimos ao tiroteio diario, assaltos a casas, mortos nas ruas, e entao nos ultimos dias ate’ ficamos alojados dentro do Hospital Militar de Luanda com a proteccao da policia militar Portuguesa. Quando chegou a nossa vez de escaparmos `a guerra entao fomos de manha cedo p/ o aeroporto e partimos de Luanda 4 meses antes da Independencia em Nov’1975 com rumo a Portugal (Lisboa).

    Como a minha familia era originaria da regiao do Porto, entao ‘retornamos’ a viver no Porto. Nunca me consegui adaptar muito bem a viver em Portugal, depois da experiencia de viver num clima tropical durante o ano inteiro, durante 12.5 anos a viver em Luanda. Portugal era completamente desconhecido para mim ate’ quase aos 14 anos. O retorno a Portugal nao foi facil, eu detestava o longo inverno e o verao nunca era suficiente. Nos ultimos anos em que vivi em Portugal, aproveitava as ferias de verao p/ viajar por varios paises Europeus.

    Acabei por so’ ficar a viver em Portugal 11 anos, logo apo’s ter feito 25 anos fui viver para a Suica. Eu estava a viver sozinha em Zurique `a uns meses quando recebi a visita de um amigo Australiano que andava a viajar pela Europa e Norte de Africa por 1 ano, e que eu tinha conhecido na Suecia durante uma viagem que eu tinha feito no verao anterior pela Escandinavia. Ficamos noivos em Zurique e depois fomos viajar pela Italia (Veneza, Pisa e Florence). Voltamos p/ a Suica e tratamos de toda a burocracia requerida pela embaixada Australiana em Berna p/ obter o meu visto. O meu noivo tinha um visto e passagem de aviao c/ validade p/ ficar na Europa so’ durante 1 ano. No final da validade desses documentos, ele voltou p/ a Australia e eu fiquei na Suica `a espera que a embaixada Australiana finalizasse o meu processo de visto, que demorou 4.5 meses a completar. Logo que o visto Australiano foi aprovado, entao parti da Suica c/ rumo a Portugal so’ p/ visitar a familia por uns dias, e comprar o bilhete de aviao (so’ de ida) da viagem p/ a Australia. E o resto e’ historia…!

    Estou a viver em Sydney ja’ fez 25 anos em Setembro, e tenho cidadania Australiana `a um pouco mais de 22 anos. No inicio da minha estadia em Sydney, fiz uns exames de aptitude e admissao na Universidade de Sydney, para puder ingressar no Servico Publico Federal da Australia. Onde trabalhei durante muitos anos em diferentes Departamentos Federais. Para trabalhar em qualquer departamento do governo Federal, e’ necessario ter a cidadania Australiana ou entao p/ recem-chegados era necessario assinar um contracto de promessa p/ pedir cidadania Australiana, logo que estivesse a residir na Australia durante o minimo de tempo requerido por lei p/ pedir a cidadania (era o tempo total de 2 anos retirando qualquer tempo de ferias passado fora da Australia).
    E nos ultimos anos tenho andado a investir em propriedades que compro e alugo privadamente.
    O meu marido continua a trabalhar como jornalista e temos 2 filhos que te^m quase 2 metros de altura cada um (e ambos tb te^m cidadania dupla) .
    Ao longo dos anos tambem tenho feito variadissimas actividades extras: trabalhos de traducoes e interpretacoes; entrevistas na estacao de Radiomulticultural (SBS) em Portugues; trabalhos de “voice-over” de Ingles para Portugues; ensinar Portugues; e estudos de pesquisa de mercado.
    =>…

  4. Ola Andreia li o artigo e gostei muito. Ja tive na Australia varias vezes mas de ferias e adorei, conheco toda a costa western Australia, era o meu sonho ir viver pra ai, mas a vida por vezes proporciona algumas surpresas que nao tamos a espera e acabei por ir viver em Inglaterra onde estou a 10 anos.
    Quanto ao que diz sobre os portugueses – nao pagam impostos porque os outros nao pagam, etc. – tb concordo, mas sempre foram assim e nao vao mudar.
    Desejo-lhe boa sorte e que tudo corra pelo melhor, somos muitos fora de Portugal e seremos cada vez mais.
    Maria Ribeiro

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