Nos últimos sete anos, vivi uma história de amor e paixão com quatro países e dois continentes. Ter decidido sair de Portugal, interromper o curso de Psicologia e seguir a vontade de estudar cinema, foi a decisão mais acertada até hoje. Esse ato de libertação e determinação permitiu-me iniciar uma carreira, que ainda está no início, mas que já me deu um livro de memórias e histórias para contar que seria inimaginável para mim antes. Em 2011 começo um novo projeto, o mais decisivo até à data, localizado em Amesterdão.

Aos 20 anos, Catarina Ricci partiu para o Brasil. Em Portugal, estudava Psicologia, mas o curso não correspondia às suas expetativas. Nessa fase, a paixão pelo cinema ganhava outra força e acabou por mudar o rumo de Catarina. «Tudo começou em 2006, no Brasil, na ilha de Florianópolis, onde iniciei a licenciatura em Comunicação Social – variante Cinema e Vídeo», conta.

Quando chegou ao Brasil, Catarina Ricci enfrentou algumas dificuldades. A burocracia foi o principal entrave. «Foi bastante difícil, houve algumas peripécias com o meu passaporte, com o visto, foi bastante complicado, estive ilegal bastante tempo, tinha de ir pagar o dízimo à polícia todos os dias para poder continuar no Brasil.»

Anseio foi a primeira curta metragem que Catarina Ricci apresentou no Brasil. Mais tarde, foi convidada a apresentar o trabalho em Buenos Aires. Depois dessa visita à Argentina, Catarina Ricci sentiu que era lá que queria viver. «Mal pus os pés em Buenos Aires pensei “eu tenho de vir para aqui, este é o meu lugar, tenho de vir para aqui viver”.»

 

Viver na América do Sul

«A América do Sul é casa para mim. Significa paz, significa identidade, significa intensidade. Foi onde me encontrei, me revelei. É, foi e será o lugar mais intenso. A energia que as estradas, a terra e a gente do continente sul-americano me faz sentir é vibrante. Sinto-me imensamente realizada por ter escolhido viver no Brasil e na Argentina e muito orgulhosa das oportunidades, experiências e pessoas que hoje fazem parte do meu percurso e que representam esses anos da minha vida», diz a realizadora.

Depois de viver dois anos na Argentina, a «cidade do coração», como refere, Catarina Ricci regressou à Europa para desenvolver novas experiências profissionais. «A Europa é a concretização e a materialização da aprendizagem, do crescimento enquanto ser humano e enquanto estudante e profissional.»
Primeiro, uma estada de alguns meses em Madrid, onde trabalhou para a SIC. Depois, seguiu-se Barcelona, onde esteve um ano a trabalhar como assistente de realização.  Em 2011, Catarina Ricci inicia um novo projeto. «O mais decisivo até à data», como refere Catarina. Desta vez, o destino seria Amesterdão.

 

OF AMSTERDAM, um sonho realizado

OF AMSTERDAM era o seu projeto, um documentário que fala sobre a arte e a emigração. «É o retrato de seis artistas em Amesterdão, cada um de um país diferente. O documentário questiona o porquê de Amesterdão, no fundo é um retrato da cidade, de quando eles chegaram e de agora.»

Na fase inicial do projeto, Catarina Ricci dividia-se entre Barcelona e Amesterdão. «Fazia viagens quase todos os fins de semana de Barcelona para Amesterdão. Num só fim de semana, entrevistei 15 pessoas e escolhi seis.»

Quando começou a trabalhar no documentário, já tinha passado cerca de sete anos desde que Catarina Ricci estava fora do país. Sete anos a «sentir-se estrangeira». Pode dizer-se que OF AMSTERDAM é também fruto da sua saída de Portugal. E mais. É igualmente fruto de, desde muito cedo, a realizadora ter sido confrontada com temáticas como «imigração, racismo, xenofobia, riqueza excessiva, pobreza excessiva, respeito (ou não) dos mais básicos direitos humanos e absorver tudo isso vivendo sozinha num continente novo para mim», refere. Por outro lado, Catarina explica que tinha «uma sede imensa, e ter aprendido a digerir essas realidades muito díspares durante viagens e enquanto desenvolvia e trabalhava todo o lado criativo e de referências, enquanto lutava por inspiração constante e inputs cinematográficos, foi com certeza marcante e decisivo para o tipo de cinema que comecei a fazer e que é claramente muito natural e espontâneo para mim. Por isso, não o vejo como uma escolha, mas como uma consequência das minhas experiências e dos valores em que acredito.»

OF AMSTERDAM é tudo aquilo que a realizadora foi sentido e experienciando ao longo deste tempo. Por outro lado, este documentário é igualmente a indignação e a vontade de despertar consciências e provar que a cultura é necessária. «A rejeição contra preconceitos e estereótipos baseados em políticas absurdas e, acima de tudo, é o resultado do sonho de criar arte, de fazer um trabalho genuinamente artístico com uma mensagem urgente. É o desejo de falar e expor temáticas muito sérias, mas de forma poética, artística, com uma curadoria a nível estético altamente cuidada. Porque a cultura é necessidade de todos e pode ser acessível a todos.», diz Catarina Ricci.

Entre viagens, castings e gravações, Catarina Ricci acabou por se mudar de vez para Amesterdão. Viver na cidade holandesa revelou-se uma experiência diferente comparativamente à experiência de viver na América do Sul e Espanha. «Amesterdão é o sítio mais complicado onde eu estive em termos de solidão. Não é de todo uma cidade fácil de se viver, são extremamente retos, não há uma espontaneidade como nós temos.»

A crítica ao governo holandês é evidente no documentário de Catarina Ricci, que defende que «há uma política em relação ao emigrantes muito fechada, desde a subida da extrema direita, porque Amesterdão era uma cidade conhecida por apoiar as artes, por subsidiar artistas de todo o mundo e hoje, com o corte radical nos apoios, não existe quase nada e é escandaloso,»

OF AMSTERDAM teve alguns entraves à transmissão em determinados locais na cidade de Amesterdão. «Tive alguns problemas, o primeiro contacto que tive para vender o documentário a um canal holandês foi inviabilizado por causa do governo.» Numa outra situação, Catarina Ricci conta que «num cinema holandês também recusaram a exibição do documentário». Para Catarina, «há interesse que se viva a ideia que na Holanda são muito open mind, mas não é bem assim». Contudo, apesar de alguns entraves à sua transmissão, OF AMSTERDAM continua a ser exibido na Holanda e já tem proposta de compra por um canal de televisão holandês.

 

Uma nova visão de Portugal

«Eu adoro Lisboa, mas acho que há uma apatia generalizada. Não consigo estar muito tempo aqui, começo a ficar nervosa, este já não é o meu lugar. Está sempre tudo à espera que alguém faça, há uma mentalidade tacanha», diz a realizadora.

Catarina Ricci não acredita em fronteiras. «Há muito que sinto que deixei de ter uma identidade que é dada pela geografia. Aquilo que os livros, os clichés ou os média dizem que é o “ser português” não me toca minimamente, não me agrada, não me identifico, por isso prefiro dizer que sou do mundo, mas nascida em Lisboa. Lisboa é mágica, Lisboa é de uma beleza irrepetível. Lisboa é, e sempre será, o lugar onde volto.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Sou extremamente saudosista. Sou um coração muito luso, eu adoro fado e mostro muito fado, e falo muito de Portugal e ensino a toda a gente sobre Portugal. Eu ponho as pessoas a adorar Portugal.

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Mara Alves
É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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