O sonho em ter uma família numerosa, empurrou Cátia para a emigração. Hoje, depois de oito anos é mãe de quatro filhos e espera um quinto, o sonho cumpriu-se. O preço, estar longe de Portugal. 

Cátia era enfermeira num centro de saúde em Lisboa, como tantos outros, tinha um contrato de trabalho precário anual. O final de cada ano era sempre envolto de alguma apreensão, pois nunca se sabia se o contrato de trabalho ia ser renovado. Naquela época, já com um filho de dois anos, a vida era levada numa incerteza constante. A juntar a isso, Cátia era também uma das vítimas do não reconhecimento da licenciatura em enfermagem, logo isso revia-se num vencimento baixo e desajustado às suas funções como enfermeira licenciada.

Pensar numa progressão de carreira era utópico. Pensar num salário melhor era irrealista. Pensar ter mais filhos era uma ilusão. 

A decisão de emigrar

Cátia foi a grande impulsionadora para sair de Portugal. Na altura, casada e já com um filho, durante um ano, convenceu o marido que seria melhor emigrar. Por sua vez, Sérgio, o marido, tinha um emprego estável, emigrar não era algo que desejava. Mas, Cátia não desistiu e começou a fazer o caminho aos poucos. 

A preocupação principal dele era que se corresse mal ele já era “velho” para voltar a encontrar um bom trabalho em Portugal.


Suíça, um destino

Antes de se decidir pela Suíça, Cátia equacionou emigrar para Inglaterra, mas depois um amigo viria a ditar a decisão. O marido acabou por ceder, estava decidido embarcar nessa aventura e mudar-se para a Suíça.

Um grande amigo nosso (que mais tarde viria a ser padrinho da nossa filha) deu o salto para a Suíça. A sua namorada, minha grande amiga e colega de curso estava renitente, e formou-se ali uma espécie de clã, em que decidimos que então daríamos o salto juntas. 

A saída do país, a barreira da língua

O grande desafio para Cátia, era conseguir passar na entrevista, sem dominar a língua francesa, isso obrigo-a a mergulhar por completo numa língua que pouco mais sabia duas ou três palavras. Foram muitas horas de dedicação, para aprender uma nova língua que não dominava, entre as muitas horas de estudo e um curso de francês para profissionais.

Estudava, à noite, na Internet, quando os meus homens dormiam. Num grupo de entre-ajuda entre nativos, onde também eu ajudava pessoas a aprender português, dei os primeiros passos na língua francesa. 

A par dessa aprendizagem, passou a ver cinema e a ouvir música francesa.

passei a ver filmes em francês, a ouvir músicas em francês, mergulhei completamente naquele desafio com a consciência de que era para vencer. 

Emigrar, uma vontade antiga

Cátia, recorda, no entanto que, desde muito cedo teve vontade de emigrar.Um desejo travado pelo casamento e nascimento do primeiro filho mas que viria a concretizar-se anos depois.

queria partir à aventura, conhecer outras realidades, outras culturas.(…) acabou por ficar em stand by até ao dia em que não foi possível negar mais que a emigração seria uma evidência na nossa realidade. 

No entanto, quando a ideia de emigrar se tornou uma realidade, havia uma condição incontornável: ou iriam os três juntos, ou não iria nenhum.

Para nós nunca foi opção separarmo-nos, nem por uns meses.

As dificuldades iniciais

A língua que não dominava foi ao início o grande obstáculo.

Lembro-me de fazer um esforço enorme para tudo o que fosse “trabalho”, mas sempre que havia uma pausa, por exemplo na hora de almoço, eu fazia “off” e não ouvia mais nada. A dor de cabeça ao final do dia era inevitável e inexplicável. Ao fim de poucos meses estava perfeitamente adaptada à língua, e um ano depois fui capaz de elaborar um projeto escrito em francês.

Além da língua, a adaptação da família não foi fácil no primeiro ano. Durante nove meses moraram os três num pequeno estúdio de 27m2. Um estúdio colocado à disposição pelo hospital em que a renda era descontada diretamente do vencimento.  Em Portugal, tinham todas as comodidades ali, tinham apenas com o essencial.

Não tínhamos televisão, não tínhamos carro. Tínhamos uma mesa, três cadeiras e duas camas de solteiro na divisão principal.

Nunca esquecerei, quando entrámos pela primeira vez no estúdio, o Duarte que teria três anos dali a dois meses, exclama –  “UAU! é tão gira esta casa! Mas… Onde está a sala?” . Como viu as camas na divisão principal, assumiu que era o quarto. “É aqui” dizemos nós. “ah… E o quarto?”. “É aqui também” concluímos. E ele lá ficou, satisfeito com aquela casa pequena e acolhedora de vista para o lago.

Os primeiros tempos foram difíceis de gerir sobretudo devido as horários noturnos.

Quando eu trabalhava de noite, o meu marido tinha de sair durante o dia para eu poder dormir. Quando eu trabalhava cedo, ele por vezes agarrava no computador e ia ver televisão para a casa de banho.” O marido, teve muitas dificuldades de adaptação à língua e foram precisos nove meses para conseguir o seu primeiro trabalho, e quase dois anos para finalmente encontrar “O” trabalho. 

 A Realização além fronteiras

A emigração trouxe a Cátia, além da realização profissional, a realização do seu grande sonho, ter uma família grande. Hoje é mãe de quatro filhos e espera o quinto.

A nível pessoal, a minha casa, a minha família grande com que sempre sonhei, não acho que teria sido possível se tivesse continuado em Portugal.

A nível profissional, logo no final de 2011, pouco mais de um ano depois de ter chegado à Suíça, elaborou um projeto sobre a gestão dos maus tratos infantis no serviço de urgência, que apresentou no hospital e lhe valeu um posto de enfermeira de referência na equipa de gestão dos casos de maus tratos naquele hospital, o CanTeam (child abuse and neglect team). Graças a esse projeto, pôde negociar as condições salariais quando decidiu sair do hospital universitário e ir para a maternidade de um hospital periférico.

Isto em Portugal seria impensável, pelo menos para mim, que era “pequenina” e sem perspectivas de poder crescer.

Atualmente, trabalha novamente no hospital universitário, com um posto de trabalho sob chamada, onde faço todos os serviços de pediatria e maternidade exceto cuidados intensivos e neonatalogia. Trabalha de acordo com a sua disponibilidade e as necessidades do hospital. Devido, a toda a experiência profissional que tem e também pessoal, mãe de quatro crianças, emigrada, tudo isso deu-lhe as ferramentas necessárias para desenvolver o projeto pessoal e profissional “A nossa mãe é enfermeira”, onde dá apoio on-line a muitas mães portuguesas emigradas e não só.

Apoiar as mães portuguesas

Levar o projeto cada vez mais longe e apoiar cada vez mais mães, mães de língua portuguesa em Portugal e no estrangeiro é um dos objetivos de Cátia.

poder dedicar-me exclusivamente a este projeto e à minha família, é o meu maior sonho neste momento. 

As saudades

Estar longe das pessoas de quem gostamos é de longe a parte mais dolorosa. Cada reencontro é vivido intensamente, mas sempre com a sombra da partida no ar, e cada partida é vivida a pensar no próximo reencontro. As saudades vão se combatendo com a proximidade criada pelas novas tecnologias, mas nada substitui um abraço de quem se ama.

O outro lado da emigração

Adelaide Castanheira, mãe de Cátia apoiou desde sempre a emigração da filha, “recordo-me e não foi fácil saber que ia para um país estranho com uma língua que não era a dela, sem família nem amigos. Mas foi a escolha dela, e eu tive de respeitar e apoiar”. Falar de emigração é falar de saudade para esta mãe as novas tecnologias dão uma ajuda, “as saudades vão-se matando por telefone e vídeo chamada, e nas visitas que fazemos, às vezes mesmo rápidas de dois ou três dias, mas que nos aquecem o coração.”

(sobre a filha) É uma grande mulher. Desde muito nova sempre foi muito responsável. Além de sermos mãe e filha sempre fomos muito amigas e sempre tivemos uma relação muito próxima. Luta pelos seus objetivos, é uma grande profissional e adora o que faz. E, claro, é uma grande mãe.

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