Apaixonei-me pelo acordeão ainda antes de me lembrar de ser gente. Tinha uma amiga, a Lena Mendes, que tocava, e eu queria ser como ela. Contam os meus pais que aos três anos já me mostrava ansiosa em querer tocar, e que ficava fascinada com as montras das lojas de instrumentos. Aos cinco comecei a ter aulas com a Lena, e acompanhámo-nos como professora-aluna até eu terminar o curso do Conservatório.

 

Ser artista em Portugal, por Celina da Piedade

«Vejo que somos um todo, todos com dificuldades e não consigo defender os direitos dos artistas sem defender os direitos dos outros cidadãos. Angustia-me encontrar todos os dias pessoas que até há pouco tempo viviam bem, e agora estão a ir ao fundo. E, muito pior, percebo que são os que já estavam antes mais fragilizados que agora estão em piores lençóis. Sinto uma urgência interior em fazer algo contra isso, mas penso que como a maioria dos que me rodeiam, a sensação de impotência é muito forte.»

«Acho que o povo português respeita a sua cultura. O facto de sermos muito abertos e permeáveis a culturas exteriores não faz de nós menos portugueses, aliás, essa é uma das características mais constantes na nossa identidade ao longo da história. Sempre nos deixámos seduzir pelo maravilhoso que há no “outro”. Somos um caldeirão onde há lugar para tudo, isso torna-nos mais adaptáveis e resistentes. Existe, claro, um outro lado nisso: por vezes esquecemo-nos de dar um pouco mais de atenção ao nosso quintal, isto é, esquecemo-nos de ouvir a nossa música, ler os nossos poetas e escritores, consumir os produtos locais. Temos muito potencial desperdiçado, temos produtos e artes únicas.  Uma boa contrarreacção a esse lado da nossa atitude é o projeto liderado pelo realizador Tiago Pereira, “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria”, que pretende criar um grande e orgulhoso arquivo online da música que se faz atualmente em Portugal, de todos os géneros, em vídeos de grande qualidade realizados pelo próprio projeto.»

«A cultura é a identidade do país. Poderá ser também uma fonte de riqueza se for bem valorizada e divulgada. Ainda recentemente viajei com o Rodrigo Leão até à Coreia do Sul e vi exemplos excelentes de como o património cultural (material e o imaterial também) pode ser o melhor cartão de visita que um país pode ter.»

 

Celina da Piedade

© celinadapiedade.com

Rodrigo Leão, Mayra Andrade, Fernando Alvim, António Chainho, Donna Maria ou Ludovico Einaudi são artistas por quem o talento de Celina da Piedade já foi reconhecido. Esta artista pisou o palco com todos eles e muitas mais participações já constam no seu pequeno grande curriculum na música portuguesa.

Celina da Piedade é licenciada em História – Património Cultural pela Universidade de Évora e, se não fosse acordeonista, provavelmente trabalharia em algo relacionado com a sua formação académica. «Se a música não tivesse desde sempre teimado em revolucionar a minha vida, é provável que acabasse a trabalhar em algo relacionado com o meu curso, algures entre a história da arte e a etnografia. Ao fim e ao cabo, de uma forma ou de outra, penso que a arte e a tradição fariam sempre parte da minha vida.»

 

A tradição e a cultura portuguesa, uma inspiração

A vida, as pessoas, a tradição e a cultura portuguesa são as principais fontes de inspiração da acordeonista. «O património musical português é um tesouro sem fim. E não só. Se encararmos a cultura tradicional como um todo, sem fronteiras nem barreiras geográficas, ainda mais temos onde ir buscar. Inspira-me a própria forma como outros povos se relacionam com as suas tradições. Mas o meu universo musical vive de muito mais do que isso. A vida inspira-me, todos com quem toco, tudo o que experiencio, leio, as pessoas que me rodeiam, os que amo. A minha inspiração é muito mais emocional que intelectual.»

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Nos últimos anos, a acordeonista também se tem dedicado ao canto, uma atividade que Celina da Piedade diz gostar cada vez mais. Mas o acordeão é o instrumento de eleição e a sua «grande companhia desde sempre». «A música sempre me encheu o coração, sempre foi uma presença inquestionável na minha vida», conta. «Acho que o acordeão é um instrumento que está muito bem representado em Portugal, temos excelentes tocadores, nas mais variadas áreas musicais, e vejo que o público gosta muito de ouvir e conhecer.  Não sinto qualquer tipo de desvalorização. É um instrumento presente nos conservatórios e cursos superiores de música, por outro lado muito querido no folclore e na música popular, e tem uma sonoridade que lhe dá espaço nos mais diferentes géneros musicais. Se ficarmos atentos percebemos que ouvimos constantemente acordeão na rádio e na televisão.»

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Celina da Piedade tem participado em centenas de bailes e oficinas de música folk. Dedica-se ao estudo e divulgação do património musical alentejano, é membro do Grupo Violas Campaniças, de Castro Verde, e é também coautora do livro I Caderno de Dança do Alentejo, editado pela Associação PédeXumbo.

Quando questionada sobre que tipo de ambição tem para si, Celina da Piedade apenas refere: «muito sinceramente, a minha principal ambição com este trabalho tem sido sobretudo conhecer músicas e pessoas. É algo muito natural, muito direto e próximo. Gosto muito de conhecer repertórios, de aprender músicas novas, de as pôr em prática e gosto ainda mais de conhecer pessoas, de cantar e tocar com elas. Gosto da sensação mágica de ressuscitar músicas antigas, músicas guardadas nas memórias que por vezes são bonitas demais para serem esquecidas para sempre.»

© celinadapiedade.com

Celina da Piedade já participou em cerca de 50 discos diferentes e já tocou em mais de mil concertos, mas há um projeto que pela qual tem um carinho especial. «Tenho, claro, um sentir especial pelo projeto do Rodrigo Leão (já o acompanho desde 2000), porque tocar com ele continua a emocionar-me muito. Tem sido uma linda aventura, que me tem levado a viajar pelo mundo e proporcionado momentos únicos. Gostei também muito dos meus anos com os Uxu Kalhus, diverti-me imenso e aprendi muito com eles, sinto que foram a melhor escola para este meu trabalho a solo. Sinto-me ainda uma deles, apesar de já não fazer parte do grupo.»

Em Casa é o primeiro disco de Celina da Piedade, disco duplo que conta com mais de trinta convidados. «Todos meus amigos, todos músicos que admiro, como o Rodrigo Leão, o Samuel Úria, a Uxia, o Kepa Junkera, a Kelly Thoma, o Efren Lopez, os Naragonia, os Omiri, entre muitos outros», explica Celina.
Celina da Piedade quis que este disco fosse assim, porque se trata de uma celebração do que tem sido para si fazer música ao longo dos anos. «Sempre acompanhada de gente excelente, sempre inspirada por eles. Na minha forma de ver, este disco não é um novo início, mas sim uma continuação do trabalho que tenho feito, mas agora também em nome próprio.»

O repertório inclui alguns temas tradicionais, sobretudo do Baixo Alentejo, arranjados à sua maneira e outras tantas composições originais e de alguns dos convidados. Uns são temas cantados, outros instrumentais. «É uma viagem cheia de cores, cheiros e sabores diferentes, porque só assim é que sei viver a vida. Espero que chegue a muita gente, e que as pessoas se emocionem e entusiasmem tanto quanto a mim que o sonhei.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Sou um coração luso, sem dúvida. Daqueles de filigrana muito trabalhada, mas robusta. Uma lamechas sem cura, um pouco melancólica, mas por outro lado muito feliz quando pode partilhar e fazer festa com os que estão à sua volta! Um abraço aos leitores do Coração Luso.

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É a mentora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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