Aos 45 anos, Clarisse, no tom açucarado da voz, no fluir dos gestos, é toda ela um pulsar de juventude que parece querer provar que a idade é aquela que vem de dentro e não a que se estampa por fora. O tamanho das façanhas que traz consigo não permitiria outro tipo de reflexos.

Mas não é só de um bravo sorriso que conta esta estória, é de uma família inteira. Lado-a-lado com Clarisse estão: Jorge, o companheiro, e Sara, Gonçalo, Simone, mais Marta, as crias.

Natural de Pombal, esta ‘Mãe Coragem’ herda da família de origem um legado de andanças: da antiga Rodésia para a “Metrópole” com uma Revolução pelo meio. Crescer, casar, ter filhos… Portugal Continental, França, Açores e entre 1993 e 1995 acontece a primeira incursão em ‘terras tupiniquins’: concretamente, Florianópolis e Curitiba. Novo retorno à ‘Terrinha’, passam-se quase 20 anos, e fruto de trabalho e dedicação um autêntico império é criado. Foi através de uma empresa de venda directa, no ramo da Cosmética e Suplementos Alimentares.

Decorria o ano de 2007, Clarisse confessa que “tinham tudo: a casa, os carros, o salário alto, o topo da carreira”, enfim, “a vida que toda a gente inveja”. Dava grande valor à parte material, mas começou a “sentir um vazio, que“tinha que crescer a outros níveis”, que “só o dinheiro não chega”. O ambiente na empresa também se deteriorava, “ciúme, mesquinhez”, “viver das aparências”, algo que só fazia aumentar “a sensação de não se sentir realizada”.

Em 2008 esse chamamento para a mudança intensificou-se e em Junho Clarisse e Jorge acabam por conhecer em Leiria, “através de amigos de amigos”, um casal de Curitiba. Conversa puxa conversa. Se já lhes ocorria sair do país, esse burburinho só cresceu. Ainda propôs levar a empresa para o Brasil, mas não houve aceitação, praticamente a gota de água: “O desejo de voltar ao Brasil foi maior que tudo… “Não consigo fingir! Sou o que sou e não consigo ser aquilo que não sou!”. A decisão final vem da situação mais improvável: a gravidez de Clarisse. O que poderia parecer um pretexto para adiar tamanho salto, acabou por ser o derradeiro impulso, “decidiu-se que Marta iria nascer no Brasil”. Passaram à acção. Dos bens que possuíam venderam tudo o que conseguiram, “carros, o recheio da casa, joias…“ Curiosamente ficou até hoje um piano para vender”, diz Clarisse num sorriso que se indaga.

No dia 17 de Setembro de 2008 as malas deslizavam em direcção ao porão de cargas depois de um chek-in feito ao impulso de uma longa inspiração-expiração.

Depois das horas que são necessárias para atravessar o Atlântico a bordo de um avião, “com uma barriguinha de 7 meses e Simone de 11 anos pela mão”, Clarisse andava pelo aeroporto de Guarulhos em São Paulo “super-carregada”: “fiz tudo sozinha, o Jorge teve que ficar em Portugal, com a Sara e o Gonçalo, para acabar de resolver o que ainda ficou pendente”. “Foi uma loucura”, sorri com os olhos postos num passado que a parece dourar, “só às costas trazia uma mochila de 15 quilos, a Simone carregava um saco com a guitarra que se encheu de livros”.

A aterragem em Curitiba implicava começar tudo do zero. A intenção era continuar no ramo, abrir um negócio de importação, mas no fundo “não sabia o que vinha fazer, apenas que queria mudar”, acabou por ser um passo consumado “numa de aventura” ao estilo “seja o que Deus quiser”.

Os contactos da década de 90 estavam perdidos, o casal que tinha conhecido, Sónia e António, era quem podia ajudar. Pediu-lhes que tratassem de um hotel para a chegada, mas acabou por ser acolhida em sua casa durante dez dias, o tempo que durou até… um apartamento no mesmo prédio ficar desocupado: “é a casa onde estamos até hoje”. “Tudo se desenvolveu naturalmente”, explica Clarisse, “acho que há um grande sentido nas coisas”.

Tinha um fundo de maneio para os primeiros tempos. Com isso alugou-se a casa, mas teve que dar cinco meses de caução por não ter conta bancária, ficando como fiador esse casal amigo que mal a conhecia. Comprou algum recheio e passou à etapa seguinte: “preparar o nascimento de Marta”. “A prioridade era encontrar um médico, a melhor assistência possível”, “foi de boca em boca que se conseguiu isso”, relembra Clarisse entoando melodiosa.

Passou-se o que faltava de Setembro, Outubro, Novembro, crescia o receio que Marta nascesse sem que o pai chegasse. Contudo, no dia 19 de Novembro de 2009 Jorge pisa o chão de Curitiba e três semanas depois Marta, entre choros e soluços, experimenta pela primeira vez o ar dessa nova terra, quem sabe auspiciando o passo de gigante dado pela família.

Juntos tentaram encontrar trabalho. Sem sucesso. Já no limite das possibilidades, foi em Março de 2009 que lhes foi proposto trabalharem como corretores de imóveis. Aceitaram por necessidade, “era preciso sobreviver”. Jorge acatou. Clarisse continuou procurando outras vias, “sempre quis mais criatividade” no que fazia. Queria trabalhar com comida tipicamente portuguesa, aproveitando o facto de ter observado que os restaurantes portugueses em Curitiba estavam “muito abrasileirados”. Fez um curso de novos empreendedores, pediu dinheiro emprestado, tentou abrir um restaurante mas não foi viável, criou então uma empresa e dedicou-se ao take-away e promoção de eventos em cozinha tradicional portuguesa, com algum sucesso. Apareceu-lhe então uma proposta de sociedade que se concretizou, porém veio a revelar-se uma grande e árdua aprendizagem: “acredito muito nas pessoas… fui enganada e perdi tudo o que tinha e o que não tinha porque pedi dinheiro emprestado que fiquei de repor, isso abalou-nos muito.

Mas esta ‘Incansável Batalhadora’ diz-se “incapaz de cruzar os braços”, arrepiou novo caminho e calhou conhecer um pasteleiro de Alcobaça. Começaram a trabalhar juntos “nos pastéis de nata” e correu bem.

Para Clarisse foram dois anos e meio na imobiliária, a sociedade desastrosa, e o renascer das cinzas, enfim, todas as peripécias já contadas até ao presente em que tudo volta a equilibrar-se. “Continuei sempre a dar o meu melhor e ainda hoje pago parte das dívidas”, os olhos começam a marejar, a voz treme, as lágrimas não se contém, abre o livro: “Foi muito duro durante alguns meses”, “não se comprava leite, comia-se um ou dois ovitos, depois só bananas, andávamos a pé para não gastar dinheiro em transportes públicos… o Jorge teve também algum tempo sem fazer negócios… cheguei a ter de vender o meu acordeão para pode pagar a renda da casa”.

Foi assim de Outubro de 2011 a Fevereiro de 2012: “São coisas que ainda mexem comigo, com a família”. Entretanto um novo alento: em Junho de 2012 encetou contactos com “velhos amigos portugueses” e a possibilidade de trazer a sua empresa de cosméticos está cada vez mais próxima de se tornar real.

E os filhos? A ‘Imensa Mãe’ começa a relatar com o tal jeito afectuoso: “uma coisa é emigrares sozinha, outra é levar os filhos atrás!” Sara teve que ficar em Lisboa mais um ano, por causa da faculdade. Assim que pode, veio de férias reencontrar pais e irmãos, saber de transferências. Voltou a Portugal por um semestre e rumou em definitivo a Curitiba onde continuou o curso superior em Gestão e Marketing. Com o Gonçalo não foi tão fácil, “chegou contrariado, acabado de fazer 18 anos”, deixara o mundo que conhecia, os amigos, “andou um ano meio fechado”, mas entretanto fez um curso de Chefe de Cozinha e mais tarde de Confeitaria. Simone conseguiu entrar na escola pública Federal, passando com distinção nos exames de admissão.

Se Sara entretanto terminou o curso e ficou empregada na empresa onde estagiou, Gonçalo está hoje adaptado, trabalhando num restaurante. Simone escreve o seu caminho com tudo em aberto, Marta aprende o “Bê-À-Bá” no infantário, falando um português de inequívoca tonalidade brasileira. “Nenhum deles se vê regressar a Portugal ou a morar fora do Brasil”.

E sobre a cidade que os acolheu? Começa por dizer que “o primeiro ano foi de descoberta”. Não só a cultura, tudo é diferente começando pelo dia-a-dia: “as pessoas, as expressões, o trânsito, a parte fiscal”, detalhes que vão “das simples compras a encontrar um sapateiro”. “Curitiba é uma cidade com 1.5 milhões de habitantes, cresceu muito desde que aqui cheguei”, explica. “É muito verde, florida, as pessoas prezam muito a natureza”. Em alguns aspectos “é uma ilha dentro do Brasil”: “o sistema de saúde público funciona bem, tem excelentes infraestruturas, polos universitários de referência, uma rede de transportes que serviu de modelo a cidades japonesas, bastante comércio, sendo também muito orientada para a promoção da cultura”. “Existe alguma violência e a pobreza tem crescido, mas mesmo assim é diferente da realidade brasileira em geral, basta dizer que tem apenas dois bairros desfavorecidos que não chegam bem a ser favelas”. “O clima lembra o dos Açores, mas com uma amplitude térmica maior, num dia tanto se pode ter máxima de 30 como mínima de 17”.

Apesar do povo curitibano “ser muito fechado, talvez por descenderem de poloneses”, Clarisse enfatiza a “abertura dos brasileiros”, que considera “serem mais evoluídos, mais espirituais”.

As comunidades emigrantes mais representativas são a italiana, polaca e chinesa, contudo, recentemente têm chegado muitos portugueses, o que trouxe uma nova frescura a uma diáspora que já era mais brasileira: “Também é bom ver que há aqui um enorme carinho por Portugal e muito interesse em conhecer e saber mais”.

As saudades? Algumas no Verão quando se lembra das reuniões de família em Portugal com os tios que vinham de França, mas acima de tudo no… Natal! “É tudo tão diferente! Aqui celebra-se na praia, em ritmo de férias! Sinto falta do frio, daquele ambiente acolhedor, das comidas”.

Volvidos 3 anos e meio Jorge ainda trabalha no ramo imobiliário, “e as vendas até têm melhorado recentemente”, mas avizinha-se a concretização de uma grande aspiração: “neste momento está a terminar o curso de mecânico aéreo, falta o terceiro e último exame, abrindo a possibilidade de retomar algo que já tinha feito em Portugal durante oito anos como Sargento da Força Aérea”.

Em pleno processo de harmonização, Clarisse também encontra finalmente o espaço para se dedicar ao seu velho sonho, as terapias alternativas: “Aromoterapia, Fitoterapia, Ayurveda, Tui-Na, entre outras”. Juntando as formações que fez ao longo dos anos em Portugal e Brasil, tem agora trabalhado nessa área entre os eventos de culinária.

E se Clarisse pode até soar um nome mais ‘brasileiro’ que ‘português’, esta matriarca de Coração aparentemente maior que o peito lá rumou além mares com sua família. E se é preciso estofo para ter esta disposição ao risco com 41 anos de idade, o certo é que não se ter confinado à ‘zona de conforto’ valeu-lhe “todo este crescimento”. Para o melhor e para o pior, “as coisas acontecem por um motivo maior, temos que saber descobrir porquê”… “Não há coincidências”. De novo às lágrimas, despede-se com Esperança e a mesma juventude, talvez mais, com que disse “Olá”: “Este é um ano de Luz e Energia… boa Energia!”.

E assim se conta a estória da ‘Família mais bonita da Cidade’ na terra da ‘Banda Mais Bonita da Cidade’.

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Joel Machado
Licenciado em Psicologia Social e do Ambiente, Mestre em Ciências da Comunicação, Especializado em Filosofia Oriental. Repórter, Cronista, Poeta... Celebra a vida escrevendo pelo gosto de explorar, de "relatar" a ininterrupta viagem por planos imanentes e transcendentes.

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