Exclusivo Coração Luso

Portugueses resistentes ao regresso

Nino Costa e Ana de Castro são dois dos cerca de 300 mil portugueses que vivem na Venezuela. A seguir ao Brasil, a Venezuela é o segundo país da América Latina com maior número de portugueses, calculando-se que já tenham sido meio milhão. Hoje, segundo os dados oficiais do “Observatório da Emigração” não chegarão aos 300 mil. Estima-se que 75 por cento dessa população ée natural da Região Autónoma da Madeira. Há, no entanto, uma parte vinda de regiões como o Porto, Coimbra e Aveiro. Considera-se que a emigração portuguesa teve o seu início na época dos descobrimentos, a Venezuela é um desses exemplos, já que há registos de portugueses no território desde 1492.

Nino e Ana, com quem o Coração Luso falou, são dois resistentes que teimam em ficar naquele país e, apesar da atual crise económica não pretendem regressar, pelo menos, para já. Nino vive em Caracas há precisamente 46 anos e Ana há 28, histórias de vida diferentes mas com um amor em comum, a Venezuela.

 

“O meu coração está amarrado a duas bandeiras”

Nino emigrou para aquele país tinha 17 anos, “naquela época ou se ia para a Guerra ou para o bacalhau ou emigrava-se para qualquer país”. Nino pagou 30 contos e escolheu a terceira opção, emigrou para a Venezuela. Nestes 46 anos de emigração muitos foram os ofícios, desde padeiro, empregado de mesa, empregado de discoteca. A música é a sua paixão e foi através da música que se sagrou. Fundou a primeira editora de música portuguesa naquele país, os artistas portugueses que vão à Venezuela, na sua maioria, vão pela mão deste homem que tem dedicado toda a vida à divulgação do país que o viu nascer. Enquanto emigrante, chegou a viver nos Estados Unidos mas voltou à Venezuela. O seu coração está dividido, ama Portugal, mas também ama a Venezuela e como ele próprio diz “o meu coração está amarrado em duas bandeiras”. Não pensa em regressar para Portugal, apenas nas férias “eu vou quase todos os anos, mas não para viver. O que é que eu vou fazer lá no meu povo, talvez quando eu morrer. Amo muito a minha terra a que me viu nascer, onde corri quando era menino, onde eu sonhava, sobre o que havia mais para além dos montes e dos mares”.

Foi num telefonema emocionado que Nino falou ao Coração Luso, restam poucas palavras de uma português já esquecido, dando lugar ao espanhol falado há uma vida na Venezuela. Nino diz estar otimista, apesar de o entristecer ver o que está acontecer “há muita preocupação pela comida, há pouca comida, não chega, nós estamos passando muito. É triste, é triste nunca vi isto na minha querida Venezuela”.

 

Longas filas de espera para conseguir medicamentos e alimentos

Entre os anos 50 e 70 ocorreu um grande fluxo migratório. Desde finais de 40, a economia da Venezuela estava em ascensão e os portugueses desembarcaram em força entre 1948 e 1983. Muitos tinham trabalhado nas petrolíferas da ilha do Curazao, a norte da Venezuela, e tinham algum dinheiro que investiram na criação de pequenos negócios, principalmente na capital do país, Caracas que ganhou vida com a emigração, sobretudo, no que toca à variedade de comércios, supermercados, talhos, frutarias, padarias, peixarias, adegas e cafetarias. Com o tempo, a comunidade portuguesa tornou-se numa das mais prósperas e respeitadas na sociedade.

Ana de Castro, natural de Murtosa, vive há 38 anos na Venezuela. Quando emigrou o objetivo era ficar apenas dois anos até ter o dinheiro suficiente para construir uma casa e regressar a Portugal. Porém, ao chegar, as dificuldades foram muitas e só passados 18 anos é que voltou a Portugal numa curta visita, através do Rancho folclórico que frequentara, na altura. Depois de uma vida de muito trabalho naquele país, hoje é com apreensão que olha para realidade. “A minha vida aqui na Venezuela tem sido de luta e trabalho. Trabalhei todo o tempo para dar uma boa educação às minhas duas filhas. Estamos a passar uma grande crise, tanto económica, política-social e de valores. Neste momento, não há respeito por ninguém, já há muita gente a passar fome, pois a classe mais pobre não ganha para comprar o essencial e o pouco que se consegue são largas filas de cinco a seis horas, para no final venderem 1kg de farinha”, conta.

Ana refere que esta crise também está a afectar os negócios dos portugueses e muitos tem de fechar portas por não conseguirem abastecer os seus armazéns. “A maior parte dos portugueses que têm os seus negócios estão a ponto de fechar, já que não conseguem comprar nada ou onde comprar o que necessitam para manter os restaurantes, padarias e casas de frangos.  O governo diz que o negócio que não esteja aberto é expropriado. Mas, se não se consegue o que se necessita para vender…não têm vergonha nenhuma esta gente”.

Estamos perante a pior crise económica que a Venezuela atravessa há vários anos, sobretudo fomentada pela queda dos preços do petróleo, que está a levar a uma enorme escassez de bens essenciais. Faltam alimentos e medicamentos, falha a electricidade. A toda a hora, nos meios de comunicação social internacionais repetem-se as notícias sobre os problemas de abastecimento, num país que exporta petróleo e importa quase todas as outras matérias-primas. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a inflação atingiu 720% este ano.

Ana fala da tristeza que tomou conta de um país conhecido por ser alegre, mas que agora vive uma situação de desespero. “O povo da Venezuela, que sempre foi muito alegre, agora é um povo triste, pois não tem tempo nem para descansar, já que passam o tempo nas filas para ver o que conseguem. Não há remédios, nós ainda, por algum familiar, pedimos aos que vão a Portugal, para que nos tragam remédios e vamos dando a algumas pessoas que necessitam. Mas, o que é mais triste é que uma criança chore, porque a mãe não tem leite para lhe dar no biberon, isto entre tantas outras coisas que vemos no dia-a-dia”, relata.

 

“Afinal não somos de um lado, nem de outro. Somos estrangeiros na nossa própria terra”

Ana é cozinheira, mas há 17 anos que ensina os mais pequenos a cantar, principalmente, Fado. Os seus alunos são venezuelanos e luso venezuelanos que formam o grupo “Estrellas Lusitanas”, cantam e aprendem a falar português. Houve tempos em que a língua portuguesa era motivo de sarcasmo por parte dos venezuelanos, “havia muita vergonha por falar a nossa língua, pois faziam muita troça de nós, principalmente, num programa de televisão e nos colégios. Foi uma maneira para que os nossos pequenos falassem português sem ter vergonha”, conta.

Viúva e com duas filhas, é com tristeza que olha para esta crise. Contudo, regressar a Portugal não está, para já, nos seus planos, “a mim dói-me o que se está a passar, pois as minhas filhas vão ter que emigrar para outro País e voltar a passar pelo mesmo que os pais passaram ao sair para um País estrangeiro. É que afinal não somos de um lado, nem de outro. Somos estrangeiros na nossa própria terra.

 

O apoio dado por Portugal

O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, visitou o país no passado mês de maio e, numa entrevista ao Coração Luso, refere que nesse encontro foram feitas as diligências necessárias para que fosse garantido o apoio à comunidade portuguesa, falou ainda do contacto que teve com vários membros da comunidade. “Os portugueses com quem contactei manifestaram preocupações relacionadas com o futuro do país, mas também fizeram votos de esperança”.

As preocupações reveladas pela comunidade nessa visita relacionaram-se com o difícil acesso a bens e serviços essenciais, como alimentos, pão, leite e com os cortes de energia e de fornecimento de água, informa. José Luís Carneiro referiu ainda que existe um sentimento de insegurança “por via da proliferação de casos de assaltos, roubos, sequestros, homicídios. E uma expectativa em relação à situação social, atendendo ao crescente descontentamento da população”.No entanto, deparou-se com alguma confiança no futuro “encontrei muita esperança de que a Venezuela consiga resolver os seus problemas institucionais, garantindo condições de vida aceitáveis para os muitos portugueses que lá escolheram viver”.

O Secretário de Estado garante que está atento, “nós temos acompanhado a situação na Venezuela através do trabalho das nossas representações Diplomáticas e Consulares, através do diálogo com os representantes portugueses das instituições associativas, desportivas, sociais e culturais, através dos contactos com grupos de empresários e comerciantes”. E, mais adianta, que são vários os níveis de apoio que o governo está a prestar à comunidade portuguesa na Venezuela, também ao nível das questões sociais. “Desde 21 de junho a Embaixada de Caracas conta com uma Conselheira Social para apoiar a comunidade portuguesa e os Consulados de Caracas e Valência.” A outro nível, segundo José Luís Carneiro, estão a ser desenvolvidos esforços de coordenação com o Ministério da Saúde para encontrar formas de minimizar algumas das carências essenciais da comunidade portuguesa.

Por sua vez, a contrariar estas declarações, Ana e Nino falam de um fraco apoio prestado pela embaixada portuguesa em Caracas. “A verdade, não tenho a mais minima ideia de como nos pode ajudar a embaixada portuguesa aqui na Venezuela. Não temos tanta informação como deviamos, a única maneira de ver algum Cônsul ou Embaixador são em certos actos protoculares e sempre com pressa de irem embora”, explica Ana. Também Nino refere que “não têm feito muito”.

 

Esperança

Apesar da dura realidade vivida na Venezuela, Nino e Ana ainda tem esperança num futuro para o país que ambos escolheram como segunda pátria. Nino fala em fé “o estado de espirito é muita fé e muito otimismo para todos os nossos portugueses. Nós queremos reconciliação, nos queremos paz, nós queremos trabalho, nós queremos progresso, queremos o bem estar”. Já Ana fala na esperança numa mudança de governo, “todos temos a esperança de que o governo mude e quem venha tenha vontade de trabalhar a sério pela Venezuela”.

Artigo anteriorCoração Luso e Além Fronteiras criam parceria
Próximo artigoMauro Félix
Mara Alves
É a mentora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.