Neste Coração Luso, tomamos a liberdade de lançar uma entrevista. Sabemos que contamos histórias, mas como não publicar uma entrevista que nos foi concedida com tanta gentileza? Convosco, a portuguesa que começou o seu fado na Holanda, a fadista Cristina Branco.

 

 

O fado no sentido

Cristina Branco nasceu em Almerim, em 1972. O fado entrou na sua vida pela mão do avô que, aos 18 anos, lhe ofereceu o disco Rara e Inédita, obra maior e menos conhecida de Amália Rodrigues. Nesse dia, a sua vida mudava para sempre. A primeira vez que Cristina Branco pisou o palco foi em Amesterdão, no ano de 1996, sem nunca imaginar a carreira que se seguiria. Cantora de poetas, os maiores de Portugal (Camões, Pessoa, David Mourão Ferreira, José Afonso…), e alguns do mundo (Paul Éluard, Leo Fèrre, Alfonsina Storni, Slauherhoff), Cristina Branco «fez do seu modo de entender o fado uma espécie de porta-voz da Poesia e da Literatura do cancioneiro nacional».

 

Começou a cantar por brincadeira. Em que altura da sua vida é que a música passou a ser uma coisa séria?

Quando gravei o meu segundo disco, Post Scriptum, e com ele entendi que não havia forma de recuar. Era já uma cantora e não uma jornalista, uma vez que tinha terminado os meus estudos em Comunicação Social.

 

Ao contrário de tantos fadistas que começaram em casas de fados, a história da Cristina não começa assim. Como se fez, então fadista?

Enquanto cantora, posso dizer-lhe que tudo começou com uma paixão pelo canto e a intensidade de Amália. Ouvi-la cantar remetia-me a um universo romântico e denso, era a Amália contadora de histórias que mais me comovia, até me levar ao meu canto, à descoberta da voz como interpretação de um texto, à apropriação da palavra sem ser só uma bela canção, mas também uma história que merecia ser contada. Dei assim os primeiros passos enquanto cantora. Fadista não posso afirmar sê-lo. Amo o Fado e todos os dias aprendo com ele, mas ser fadista é uma forma de estar, uma presença, quase um statement. Eu gosto também de cantar outros universos musicais e muitas vezes torná-los convidados e intrusos no «meu» fado!

 

Sendo portuguesa, por que é que pisou o palco pela primeira vez em Amesterdão?

Portuguesa, a residir desde sempre (para que não restem dúvidas), em Portugal. Foi um talk show português que deu o impulso ao concerto (o primeiro) em Amesterdão. Foi um acaso. A pessoa que me convidou a ir até à Holanda viu essa minha breve passagem pela TV, gostou e dias depois telefonou-me perguntando se gostaria de fazer um concerto para celebração do 25 de Abril, numa sala nessa cidade. Ora, eu, estreante, sem experiência nenhuma, nem de vida, nem profissional… aceitei e rapidamente preparei um repertório que ia de fado tradicional a Zeca e Sérgio Godinho.

 

Como recorda esse momento? Lembra-se do que cantou?

Claro que me lembro! Tremia de pânico e responsabilidade. O que cantei foi como disse a cima, fado tradicional (dois ou três, não mais), Zeca e Sérgio Godinho. E muita coisa preparada exclusivamente para mim, escolhido por mim. A minha escolha poética foi, desde a partida, o que o meu instinto foi ditando.

 

Se não fosse a música a sua profissão, o que teria sido?

Jornalista, suponho…

 

Se lhe pedíssemos para descrever a sua música, o que diria?

Não encontrei um termo para definir, categorizar a minha música, nem creio que seja importante. A sociedade impõe essa «arrumação» a tudo o que aparece de ligeira ou acentuadamente diferente. A mim não me rouba o sono, esse tema!

 

E a alma, é de fadista?

A alma é livre e voa desalmadamente por aí. Não me agradam grilhões, bastam aqueles que nos impomos socialmente, ou os cânones que seguimos porque sim, porque tem que ser, aqui deixem-me ser livre. E se ser livre é ser fadista, so be it!

 

De tantos poetas que interpreta, quem é o que lhe dá mais prazer?

Todos! Se não, para quê cantá-los?

 

Qual o seu papel na música?

Sou a cantora, a que conta a história, a que faz passar a mensagem, o «jogral» que faz passar a boa nova.

 

Concorda com a opinião de que Cristina Branco está a criar um estilo?

Fico feliz por alguém pensar no meu trabalho assim. Sou exigente e sei onde quero ir. Aprendo moldando a voz, o temperamento, refinando o gosto e ouvindo… Aprende-se tanto ouvindo, observando as pessoas! Todos temos uma linguagem própria e ao expressarmo-nos entregamos ao outro o nosso maior tesouro e nem é preciso cantar, basta ser. Falo das pessoas, do anónimo.

 

Apesar dos seus tantos trabalhos, Cristina Branco não é ainda um nome muito sonante em Portugal. Sendo isto verdade, em sua opinião ao que se deve? Será Cristina Branco um produto gourmet?

A ser verdade, talvez se deva ao facto de, por anos e anos, o meu agenciamento (o anterior), ter negligenciado o mercado nacional. No meu caso, a internacionalização teve essa consequência… Não é grave. Acredito que isso está a mudar, alem do mais, não dou muito nas vistas, tenho um produto mais sóbrio. Chamar-me produto gourmet seria chamar-me quase objecto de luxo e quase inacessível, ora, eu não sou nada disso. Não sendo convencional, levo o meu trabalho muito a sério! E isso nem sempre foi bem recebido, por ser diferente do produto massificado…

 

Já algum dia pensou em emigrar? Se sim, para onde seria?

Considero-me cidadã do mundo, mas tenho para mim que é preciso muita coragem para deixar o nosso chão, aquilo que crescemos a acreditar ser a nossa fortaleza (e que agora se desmorona). Mas pelos meus filhos, pela minha família ou por uma necessidade urgente de desenraizamento… dependendo do mote, ou iria para norte onde o mercado de trabalho ainda não se esgotou ou então diluía-me com a terra e aí será África o meu destino.

 

A agenda da Cristina é extensa, há mais espetáculos em Portugal ou fora do país?

Mais fora de Portugal. O país está estagnado, cristalizou… Haverá dias melhores…

 

O que é ser Cristina Branco?

É eu, ou seja, mãe, mulher, amante, cantora em carne viva, desassossegada ou contemplativa. É despir a pele do lobo logo que cai o pano e voltar a ser mãe, mulher, amante… é o ciclo da vida!

 

Saiba Mais

cristinabranco.com

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É a mentora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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