A data 11 de Setembro de 2001, para além de ter alterado o mundo, adiou o sonho de Cristina Vieira em viver no Médio Oriente. Uma decisão pendente, realizada 11 anos depois. Sair de Portugal sempre foi uma vontade desta alentejana de Beja.

“Sempre tive o bichinho de sair de Portugal mas nunca dei o salto.”

A instabilidade laboral foi o grande motivo para Frederico, marido de Cristina, ir procurar uma nova oportunidade profissional e o Dubai foi o destino. Cristina ficou em Portugal, tinha um emprego estável, mas não aguentou esperar, os cerca de dois anos que tinha previsto até se juntar ao marido. Assim, meses depois, Cristina partiu para o Dubai já com contrato de trabalho, porém a mudança para os Emirados não poderia ser repentina para a filha, ainda pequena, optando por deixá-la com a avó em Portugal. Maria Barros, a avó recorda-se bem dessa data “foi dia 7 de Agosto de 2012 em que estava com a minha neta, filha da Cristina, a quase 600km do aeroporto da Portela. A Cristina não quis despedidas porque, como mãe, claro ficaria triste de se separar, pela primeira vez da filha. Partiu, então, para o Dubai, onde tinha o marido à sua espera (…) Até que chegou setembro e a Cristina veio buscar a Filha com uma alegria imensa de a levar para junto deles e iniciar uma nova etapa na sua vida”.

Cristina trabalha na companhia aérea Emirates como EK Network Tracer Coordinator (Baggage Services). No entanto, é a qualidade de vida que sublinha como a grande conquista desta mudança de vida. «Adquiri mais qualidade de vida, isso sim. Faço mais coisas nos tempos livres do que fazia em Portugal».

 

“Nem toda a gente entende o nosso humor”

Os primeiros tempos a viver no Dubai não foram fáceis para esta emigrante portuguesa, como portugueses que somos temos uma forma de ser e de estar que nem sempre é entendida no estrangeiro “no início foi complicado, nós os portugueses somos de nos dar com toda a gente e temos aquele costume Latino de dizer tudo o que nos vem a cabeça. Aqui isso não funciona e temos que ter cuidado que nem toda a gente entende o nosso humor. De resto não tive grandes dificuldades, cheguei aqui em pleno Ramadão e num “fresco” mês de Agosto, portanto fiquei logo a saber o que me esperava nos anos seguintes.”

 

Deixar para trás a família e os amigos

“Foi complicado muito complicado, nunca chorei tanto na minha vida como naquela viagem. Deixar o nosso apoio, o nosso chão e partir para tao longe é duro muito duro. Recordarei para sempre o dia que sai, e a primeira vez que la fui de férias. Quando vi no ecrã do avião o mapa de Portugal e que nos estávamos a aproximar de Lisboa foi chorar ate aterrar, a emoção de voltar a ver a família e os amigos era mais que muita e só tinham passado seis meses.”

 

A internet não é para todos

A internet é considerada o meio de comunicação preferido entre os emigrantes, há quem diga mesmo que encurta a distância e ajuda a matar as saudades. Quem vive no Dubai, como é o caso da Cristina, atualmente, não tem acesso livre a esse meio, por restrição governamental. “Até há bem pouco tínhamos o Skype, já que o Messenger e o WhatsApp estão bloqueados para videochamadas, e agora também bloquearam o Skype. As operadoras locais criaram uma app semelhante mas a diferença é que é a pagar. Eu presentemente uso mais o Facebook para falar com os meus amigos e o WhatsApp (mensagens) para falar com a família.”

 

Restrições no Dubai: Um blazer e um vestido pela altura do joelho

O Dubai é a maior cidade dos Emirados Árabes Unidos, um destino procurado por emigrantes de todo o mundo, pelas ofertas de trabalho e pela qualidade de vida que proporciona, é igualmente um destino turístico muito popular, movimentado milhares de pessoas todos os dias. Com as suas próprias leis, algumas delas bastante rigorosas como a política de restrição do consumo de álcool, ou a existência de locais onde a presença de mulheres não é bem-vinda. As vestes próprias e os costumes árabes são caraterísticas culturais que os estrangeiros têm de aprender a respeitar.

“Acho que nunca me aconteceu nada de desagradável, mas posso contar uma história engraçada. Aqui, nós temos que renovar o livrete do carro anualmente. Podemos tratar de tudo online, temos é que ir ao balcão para levantar o novo cartão. Acontece que eu nesse dia tive um particular cuidado com a roupa, pois sei que em alguns sítios são mais restritos. Depois de me ter dirigido ao balcão de informações das mulheres, um segurança aproximou-se e disse-me que ele tratava de tudo pois eu não podia entrar porque não estava vestida de acordo com as normas. Nota: tinha um blazer e um vestido da altura do joelho!” conta Cristina e adianta “aqui as mulheres locais usam a Abaya e a Sheila (véu e manto) e os homens vestem Khadoura (manto), não é obrigatório as mulheres andarem com a cara tapada. Existe um grande mix cultural neste país, são tantas as nacionalidades que por vezes nos confundimos. Ouvem-se histórias de alguns emiratis que tem uma atitude mais terra a terra e que mostram claramente que aqui é a terra deles e que nos estamos cá de “visita”.

 

Portugueses, franceses, ingleses e italianos convivem no Dubai

Cristina convive frequentemente com portugueses ( a comunidade tem portugueses no Dubai tem vindo a amumentar), porém, também tem amigos de outras nacionalidades. «Nós temos o nosso grupo de amigos entre os quais constam portugueses, franceses, ingleses e italianos. No entanto, semanalmente, temos encontro marcado na praia, sempre o mesmo grupinho de portugueses». Já no que toca a emirates, diz não haver relações de amizade. «Por assim dizer, não temos relação, a não ser no trabalho», conta.

 

Dar um futuro à filha é o maior projeto

“Não vinha com grandes objetivos o sim de ter uma vida melhor e poder dar a minha filha o que não lhe podia dar em Portugal, isso sim é o que se pode dizer um projeto em curso. Temos viajado mais e tentamos ir pelo menos uma vez por ano a um sítio que não conhecemos, nem que seja viajar ca dentro «Assim que podermos, conhecer o mundo.»”

“Pensam que viver fora é como nos filmes”

Nem sempre a vida de emigrante é bem entendida por aqueles que não tiveram de deixar o país “eu falo por mim, as pessoas pensam que eu estou milionária que vim para o Dubai ganhar rios de dinheiro, sim porque para muita gente o Dubai ainda é o El Dorado. As pessoas mais chegadas percebem e sabem o que passamos (saudade) a vida que fazemos.
As pessoas não entendem o que é estar longe, não fazem ideia da coragem. Eu outro dia via na tv alguém dizer ”eu fui por necessidade, mas não aguentei a distância e aquilo lá é muito duro” (estava a falar de um país da Europa). Eu às vezes penso se as pessoas que saem de Portugal (não todas) pensam que viver fora é como nos filmes.”

 

O que se ganha com a emigração e o menos bom

“Nós crescemos, a nossa perceção de ver as coisas muda, eu falo por mim, vivo num pais em que a maioria dos residentes (cerca de 90% se não estou em erro) são emigrantes/expatriados, aqui é mais do que normal trabalhar num sítio em que a língua comum é o inglês, todos temos culturas diferentes formas de ver a vida diferentes. Aprendemos tanto com isso.” O menos feliz, ter recebido a noticia da morte do meu pai. É aquele telefonema, aquela viagem que nenhum emigrante quer fazer. Foi a viagem mais difícil que fiz até hoje”.

Portugal e as saudades

“De tudo, do céu azul, de sair a rua e respirar ar puro sem poeiras e sem humidade. Da comida, pois claro, quem não sente falta das coisinhas boas da terra! Apesar de aqui já ir havendo algumas coisas portuguesas nada se compara às coisas de lá. Sente-se sempre a falta de algo”, confessa Cristina.

 

Portugal aos olhos de Cristina

“Vejo que continua na mesma, posso dar um exemplo, tentei renovar o passaporte na semana, entre o Natal e a passagem de ano, os funcionários do registo fizeram greve a semana toda, já tinha tido um dia de tolerância de ponto e os restantes dias foi greve… Não se justifica, sim as pessoas tem o seu direito..mas três dias de greve? Isto para não falar de outras coisas, ouvir as pessoas a queixarem-se de coisas de coisas tão pequenas. As pessoas deviam preocupar-se com outras coisas menos banais”.

 

Uma palavra para definir Portugal?

“Pátria. Sim, tenho orgulho de ser portuguesa”.

 

O outro lado da emigração, quem fica

“A Cristina de vez em quando vem a Portugal, mas por vezes sinto que ela tem algumas saudades. Estou perfeitamente de acordo que continuem com a vida que têm, pois, o regresso definitivo a Portugal, não lhes garante um futuro com segurança e uma Educação ao nível que a Mafalda está a receber. Que Deus continue a Protegê-los como até aqui!”

Maria Barros, mãe

 

Recorda-se do dia que a sua filha emigrou?

No meu coração e pensamento tive-a todo o dia comigo e acompanhei a viagem através do Flight radar. As lágrimas caiam-me, porque nós Mães mesmo sabendo que é uma aventura ou uma necessidade, sentimos uma parte da nossa carne afastar-se e eu sabia que não eram férias, mas visava-se anos de trabalho lá longe.

Como vive com a saudade? Algumas vez se matam essas saudades?

Não tenho dor física. Sou mais emocional! Não mato as saudades. Defendo-me relaxando, lembrando os diálogos lindos e profundos com a minha neta e estou sempre disponível para dar apoio aos meus Filhos, Cristina e Frederico, se precisam de mim, utilizamos o Skype, WhatsApp, vídeos, e-mails, conforme é o tipo e importância do assunto que temos para falar.
Matar saudades mesmo é estar no aeroporto da Portela à espera de os ver sair da porta das chegadas e abraçá-los.

Considera que a sua filha tem uma vida melhor fora de Portugal? 

Sim. Não falemos de esforços, mas sim da parte que lhes dá possibilidades de viver em melhores condições, porque gostam do trabalho que têm, que executam com profissionalismo e responsabilidade desde as 6 horas até às 17h, do ambiente que disfrutam, do tempo para a Família, para a casa, da companhia dos Amigos e até para passear.

(Publicado originalmente a 24 de setembro de 2014 e atualizada em Março de 2018).

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