Senti uma vontade inevitável de falar do passado, de recordar o dia em que aqui cheguei e o quanto as coisas mudaram, o quanto a vida mudou, o quanto eu mudei com a vida…

Existem dias em que temos de parar e olhar para o que já passou para que possamos encontrar um motivo para continuar, não sei se funcionará para sempre, não sei se é a solução milagrosa para a felicidade ou se estou completamente errada por deixar permanecer dentro de mim o passado, mas acredito e sinto que serei melhor pessoa hoje se nunca me esquecer de quem fui ontem!

Já lá vão quatro anos desde que sai de Portugal… Quatro anos a viver na Islândia, quatro anos a crescer na Islândia, quatro anos a aprender na Islândia…

Recordo o dia em que cheguei, chorei durante todo o tempo em que voava a caminho desta ilha, chorei como nunca tinha chorado e ainda hoje eu não sei porque chorava… não sei se era medo, não sei se era falta de vontade, sei que estava vazia, sentia-me vazia e completamente desprotegida mesmo tendo sido uma escolha minha acho que ainda hoje não sei bem porque escolhi eu este caminho.

Não, não me arrependo, mas penei, se penei…

Falo sobre isto porque consequentemente vou ouvindo e vou conhecendo pessoas, do meu pais e de outros também, que chegam aqui tão ou mais desamparados que eu… e chegar aqui não é fácil, se viver aqui não é um mar de rosas o que direi eu sobre aqui chegar?

Quando chegamos e sentimos que temos de recomeçar do zero é terrivel, o pior de tudo é saber que se quisermos voltar temos quem nos acolha… Sim, é isso mesmo, o pior de tudo são as noites em que choramos de saudades e ligamos para a nossa familia e nos dizem “se quiseres voltar nós estamos aqui para te acolher”… depois de ouvir isto a nossa mente só pensa em regressar e não, não é bom, por muitas vezes pensei em abdicar do meu futuro aqui e voltar para casa, já de malas feitas, pronta para voltar, existiu sempre alguma coisa que me chamou á razão e me ajudou a perceber que o caminho não deve ser percorrido num vai e vem e que as decisões que tomamos demoram o seu tempo a ter as suas consequências, nada nesta vida se consegue de um dia para o outro!

Espirito de sacrificio, sim, é necessário… Vontade, também… Coragem ou Q.B de insanidade mental é outro factor que ajuda imenso!

Hoje em dia são muitos os portugueses a viver na Islândia, segundo sei somos mais de 900! Há muito sangue Luso por esta ilha… Somos um pouco de tudo, fazemos um pouco de tudo…

Mas e como é que se troca o sol e o cozido á portuguesa pela neve e a cabeça de carneiro?

O meu exemplo não será certamente exemplo nenhum, mas é a minha história e partilho-a na esperança de que mais nenhum português com quem me cruzo na rua me conte uma história de miséria e desespero! Sim, há quem viva num eterno desespero e muito próximo da miséria quando chega á Islândia…

As redes sociais têm um poder imenso nesta história da emigração, é lá que muita gente se ilude e é lá que se descobrem as amarguras dessas mesmas pessoas…

Em quatro anos perdi a conta ao numero de pessoas que, sei lá eu porque, me contactaram a fazer perguntas sobre a vida na Islândia. Sou muito honesta e muito transparente em relação a tudo o que aqui se vive, nem sempre as respostas que dou são aquilo que querem ouvir mas são a verdade em que vivo e não, não é um mar de rosas mas também não é o pior do mundo…

Quando cheguei o ordenado minimo era aproximadamente 140 mil kronas(depois dos descontos), por essa altura rondava os 840€, a renda de um estudio ou de um T1 eram cerca de 70 mil kronas o que equivalia a 420 euros… Mas as coisas hoje estão bem diferentes, o ordenado minimo são hoje 260 mil kronas, depois dos descontos restam apenas 205 mil kronas que rondará os 1715€… praticamente o dobro de ordenado em quatro anos, seria maravilhoso, mas agora um estudio ou um t1 custam no minimo 140 mil kronas e é preciso muito sacrificio para encontrar casa.

A islândia é neste momento um pais virado unica e exclusivamente para o Turismo.

Aluguer de casa é feito por semana, mês, 6 meses (por norma meses de inverno) e encontrar uma casa com contrato anual entre os meses de Maio e Setembro é praticamente impossivel!

Existem dias em que penso que esta ilha está um disparate… Tudo aqui me parece um disparate por vezes…

Quando mudei de casa, estive 3 meses a tentar encontrar um apartamento nos arredores da capital, onde sempre vivi e onde trabalho, tive a sorte de encontrar algo próximo da zona que queria, mas a sorte não foi suficiente… Alugar casa aqui requer muita poupança antecipada… nesta altura os senhorios exigem 3 meses de garantia (caução), o mês de renda correspondente á data do contrato, referências de senhorios anteriores e referência da entidade patronal…

Se um de nós dois não tivesse trabalho poderiamos esquecer a ideia de conseguir um apartamente, é tão simples quanto isso…

E por vezes eu penso, e se eu chegasse aqui agora?

Depois encontro um Português com quem falo por 5 minutos e me pergunta á quanto tempo aqui estou e me diz “cheguei este mês, estou num hotel a tentar arranjar uma casa, mas não sei como.”

Não consigo ser indiferente a isto, não consigo conceber que existam pessoas que chegam aqui iludidas por familia e por amigos, não consigo ignorar estas coisas e pior que isso, não consigo esquecer o que passei…

Se temos de aprender a viver com a distência, com a saudade, porque raio ainda vamos ter de aprender a viver com a solidão e o sofrimento?

É sobre isso que hoje penso, sobre todas as pessoas que procuram desesperadamente sair de Portugal…

Com os anos fui percebendo que nem todos somos emigrantes, alguns de nós somos apenas fugitivos… é como se um ladrão fugisse da prisão para ir dormir na rua… Não é mais comodo mas fá-lo sentir mais livre…

É sobre isto que eu penso… Existem situações de desespero que nos fazem querer simplesmente fugir e se assim for nunca seremos felizes e na verdade nunca seremos livres.

Digo-o de todas as vezes que se toca neste assunto, para emigrar é preciso ter um objectivo e nenhum é mais ou menos valido que o outro, mas ele tem de existir…

Não basta emigrar só porque se ganha mais dinheiro, é preciso ter um objectivo para ele…

Há quem emigre para pagar a casa, há quem emigre para comprar uma casa.

Há quem emigre para ganhar experiência profissional, há quem o faça porque sente necessidade de conhecer um pouco mais do mundo e das pessoas… há quem o faça por todos estes motivos!

Eu vim porque senti que estava certo, não precisava de vir, mas vim… não precisei de um motivo naquele momento, não precisei de um motivo para entrar naquele avião, mas precisei de motivos para enfrentar o dia a dia, a saudade, a angustia e os dias maus que aqui passei.

Hoje trabalho para que um dia possa regressar sem ter de me preocupar em pagar uma renda ou um emprestimo por um tecto, hoje estou aqui para continuar a aprender um pouco mais todos os dias, estou aqui para continuar a acreditar que vai valer a pena, que fiz a escolha certa e que não há nada no mundo que possa pagar o sentimento de dever cumprido a cada vez que consigo ajudar na rua todos aqueles que vieram na esperança de fugir.

Não sei por quanto tempo aqui estarei, mas sei que dei o melhor de mim para me sentir em casa…

Fiz amigos, para a vida, amigos dos quais vou sentir saudades um dia que vá embora…

E o mais importante de tudo isto é isso mesmo, saber que quando for embora vou sentir saudades de tudo aquilo que aqui conquiestei, se quando fizer as malas uma ultima vez eu chorar então serão as melhores lágrimas da minha vida, serão sinal de que valeu a pena, que sentirei saudades e que jamais existirá em mim apenas uma menina de mochila ás costas com medo do que virá…

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Catarina Correia
Natural Santarém, desde pequena que sempre soube que aquilo que mais gosta de fazer, é ler e escrever. Em 2013 emigrou para a Islândia, é nessa altura que cria o Diário de uma emigrante portuguesa onde conta as suas aventuras e aprendizagens. Trabalha numa fábrica de chocolates e é cronista no Coração Luso.

1 COMENTÁRIO

  1. Ola! Antes de mais parabéns pelo texto, está magnífico (:
    Emigro para França na sexta-feira e tal como tu, neste momento, não entendo porque me meti nisto. Não precisava, não estava no tal “desespero” que descreves e que, infelizmente, faz parte do dia a dia de muitas pessoas, mas mesmo assim quis arriscar.
    Hoje, a 4 dias de entrar num avião e deixar o meu país para trás, pergunto-me porque raio me meti nisto. Sempre quis conhecer o mundo e novas culturas, aprender novas línguas e sentir-me viva, mas será mesmo este o caminho certo?
    Embora ainda não tenha chegado lá, penso que já entendo tudo o que descreveste. É bom não nos sentirmos sozinhos (:
    Não conhecia o blog, mas vou passar a seguir!
    Parabéns e boa sorte (:

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