Elise Haton é uma luso-francesa que vivia em Lisboa e tinha em emprego estável na área da organização de eventos. Um dia, decidiu despedir-se e optar por outro estilo de vida, fora da «cidade urbana aglomerada de gente sem tempo». A transição da cidade para o meio rural aconteceu no Alentejo, onde Elise esteve um ano como voluntária no Centro de Convergência do Gaia (Grupo de Ação e Intervenção Ambiental), uma ONG na área do ambiente numa pequena aldeia do concelho de Odemira, a Aldeia das Amoreiras.

 

A tranquilidade do Alentejo, a cultura, a tradição e a paisagem foram características que pesaram na escolha de Elise. E ao mesmo tempo «consegue-se ter uma vizinhança simpática», refere.

Para Elise Haton, o Alentejo também é nostalgia. «Faz-me sentir um pouco nostálgica e feliz, porque penso no tempo em que eu tinha 10, 15 anos, em que vivia na Amadora nos anos 90, uma comunidade repleta de Alentejanos, de tabernas onde se cantava, do talho onde se compravam ovos frescos e ainda havia vizinhança naquela altura. Por outro lado, o Alentejo faz-me pensar muitas vezes no meu pai e nos meus avós, alentejanos até ao osso, e isso é muito importante para mim, porque são as minhas origens»”, conta Elise.

 

O Alentejo fez nascer um mundo

Mundo Montado é a empresa turística que Elise Haton viria a criar. A sua formação em guia turística foi o veículo. «Inicialmente, fiquei um pouco reticente em relação a esse investimento pessoal e financeiro, mas decidi arriscar, porque quem não arrisca não petisca.»

Mundo Montado é um projeto que actua em termos de animação territorial, procurando a diversificação de serviços e a prática de um turismo responsável. «Neste novo mundo onde vivemos, a consciência ecológica e a necessidade de encontrar soluções mais sustentáveis, em termos de modelo de gestão, são uma prioridade», explica Elise.

Para a luso-francesa a aposta na valorização da cultura do Alentejo é uma prioridade, «uma vez que existem poucos agentes a trabalhar nesta área, e que, no Alentejo, é um segmento muito procurado pelos visitantes.»

 

A descoberta das raízes

Dois anos depois de se mudar definitivamente para o Alentejo, Elise descobriu que a avó paterna era natural de São Martinho das Amoreiras e que, mais tarde, tinha morado em Garvão, no concelho de Ourique, aldeias vizinhas do local onde habitava.

«Escolhi a Aldeia das Amoreiras para viver, porque tinha ali um amigo de longa data, natural de Almada, que agora trabalhava para uma ONG. Acolheu-me na sua casa e comecei a tentar ajudar esta associação. Só um ano mais tarde é que descobri, ao remexer numas certidões por causa de uma casa de família, que a minha avó nasceu a 2 km do local onde me encontrava, em São Martinho das Amoreiras, em 1928; tinha sido batizada em Amoreiras-Gare em 1943 e tinha vivido em Garvão até se casar com o meu avô. Aqui, eram conhecidos como os “Maganos”. Tomei isto como um sinal e nunca mais me fui embora. Já passaram três anos. Este sinal também explicava o porquê de eu me identificar tão bem com a cultura e o ambiente desta região.»

 

Os comboios, uma luta travada

Uma das situações menos boas que Elise viveu em terras alentejanas foi a tentativa da CP – Comboios de Portugal encerrar a estação da Funcheira, uma das estações de paragem do Intercidades Lisboa-Algarve.

«Esta estação de comboios é extremamente importante para o desenvolvimento local e para apoiar a população, que em duas horas se consegue pôr em Lisboa. Para mim, em termos de negócio, seria ruinoso. Felizmente, os autarcas intervieram antes da conclusão do processo e conseguiram impedir o encerramento. Neste momento, esta estação não tem ligação de transporte para outro local, não tem telefone e não tem bilheteira. Já foi em tempos um importantíssimo complexo ferroviário e faz parte da nossa memória colectiva.»

 

O lado menos bom

«Parece-me que é a hierarquia social e o sentimento de resignação que os mais velhos passaram aos mais novos, de que as coisas são assim e não vão mudar.»

 

O bom

«O bom do Alentejo é a sua autenticidade e isso é que é importante quando estamos a trabalhar na afirmação da imagem de um destino. Não tenho qualquer dúvida em relação ao trabalho que estou a desenvolver. A Mundo Montado trabalha precisamente neste prisma.»

 

Hoje, um Alentejo diferente

«Vejo muita gente com vontade de fazer mais pela sua terra, a criar blogues e a colocar vídeos no Youtube, a criar associações de defesa do património. Pretendo ficar no Alentejo e criar os meus filhos nesta terra. Aqui se cria uma raça de super-homens.»

 

Uma frase para definir esta experiência

«É o Texas, mas é aqui que me sinto em casa. Podia ter emigrado, mas não consigo ficar muito tempo longe da família e dos amigos.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Acho que sou um coração luso e por isso aceitei esta entrevista. E depois, tenho aquelas contradições em mim, muito lusas… Faz-me pensar no Fernando Pessoa e no desassossego. Tive uma educação muito aberta e, no entanto, acho-me ainda muito conservadora. Estou sempre a tentar lutar contra isso. Não sou religiosa, mas sinto necessidade de uma espiritualidade ou, às vezes, posso ser um pouco supersticiosa. Dou tudo aos amigos e à família, mas sou teimosa como tudo quando acho que tenho razão. Sou muito “dada” às pessoas quando já tenho confiança e, ao mesmo tempo, tenho algum mau feitio quando trabalho. Confundo muitas vezes o ser séria com ser profissional, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Acho que sou uma portuguesa consciente e daí também sentir necessidade de afirmar que tenho algum receio destes apelos patrióticos, o apelo ao espírito lusitano, à nação e a Portugal. É um nome, é uma história, é a nossa memória coletiva, no entanto cada individuo é um ser e neste mundo estamos todos ligados. Há movimentos sociais e políticos que se aproveitam deste tipo de conteúdos e há que ter muito cuidado.

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Mara Alves
É a mentora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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