Emigração portuguesa – Da mala de cartão a Ryan Air

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Sou um daqueles emigrantes que saiu do país por opção de carreira e não devido a crise ou dificuldades profissionais. Em 2011, viajei para Belgrado com plano para ficar cerca de um ano. Entretanto passei a gostar da Sérvia e da região dos Balcãs que em conjunto com outros motivos, me levaram a fixar aqui residência.Como todos nós, vivi o chegar da crise de 2009 que entre outras consequências desencadeou uma nova vaga de emigração.  Esta nova vaga partilha semelhanças com as do passado, mas tem também diferenças claras.

A emigração mala de cartão deu lugar a emigração Ryanair. 

O perfil de parte desta nova emigração apresenta traços novos que merecem destaque. Não tendo a alinhar com o dramatismo a volta dos “emigrantes com canudo”, porque todos os que saem contrariados de Portugal sentem a mesma angústia e tristeza. Sejam pedreiros, enfermeiros, motoristas ou software developers. 


Mas não posso deixar passar a seguinte nota. Anteriormente, nas faculdades o debate sobre o futuro rondava qual a empresa da terrinha para onde se iria trabalhar. Hoje muitas das opções discutidas são Londres, Berlim, Dublin, Varsóvia e mesmo Pequim ou Emirados. 

Tal transformou por isso parte da nossa emigração, que hoje procura não apenas vagas em grandes multinacionais, mas também em cidades alvo de interesse. Se se conseguir fazem-se as malas, se não der, fica-se por Portugal até aparecer algo. 

Assim e sem esquecer que destinos tradicionais como Paris, Luxemburgo ou Suiça viram as suas comunidades de portugueses reforçadas desde 2009, a verdade é que parte dos emigrantes de hoje ora estão em Braga, Aveiro ou Oeiras como em Frankfurt, Gdansk ou Singapura. 

Sou de uma família grande e com muitos emigrantes espalhados por Paris, Londres, Manchester, Friburgo, Luxemburgo e Sidney. Tenho amigos no Dubai, Texas, Luanda, Maputo, Bucareste, Budapeste, São Paulo e Santiago do Chile. 

De um lado temos os emigrantes clássicos que se estabelecem com empregos estáveis, compram casa, criam família e investem em negócios próprios. Do outro lado, uma espécie de nómada que procura ambientes internacionais em cidades atraentes e empregos por vezes temporários. Ali podem ficar cinco anos ou oito meses, em função de variáveis como o contrato, recolocação, inadaptação ou porque não dizê-lo, o fim de uma relação amorosa. Sim, quantos de nós não conhecemos amigo(a)s que saíram para determinados destinos porque se perderam de amores?

Voltando as diferenças, antes a emigração era feita com “uma mão a frente e outra atrás”, através de caras viagens de autocarro de dias até ao destino onde chegados, partilhavam-se quartos frios, casas préfabricadas ou contentores junto a obras. A fome não era tão rara quanto isso, os contactos para casa faziam-se com telefonemas a contar cada minuto e regressar para o Natal, só a partir do terceiro ou quarto ano. Nestes aspectos, hoje o cenário é incomparavelmente melhor. A pesquisa sobre quase em relação ao destino faz-se online, as viagens são rápidas e acessíveis, a estadia cumpre sempre mínimos de conforto e o contacto com a família é barato e frequente.  

Mas também existem desvantagens. Conseguir um emprego estável, crescer na carreira, comprar casa ou mesmo montar negócio próprio é hoje mais complicado para quem emigra. Não por mais mérito ou demérito de qualquer geração, mas porque os cenários alteraram-se de forma irreversível. Hoje certos empregos assentam muito em contratos temporários, os centros urbanos não têm oferta competitiva para habitação, arrendar é complicado, comprar é impossível e a estabilidade e progressão na carreira raramente chegam antes dos dez anos de carreira. 


Muitos emigrantes nómadas sujeitam-se também a quase ausência da culinária portuguesa. Quem se muda para o leste europeu, Ásia ou América Latina dificilmente terá proximidade com um restaurante ou supermercado português, algo banal em Paris, Suiça e Luxemburgo. Quantos destes nómadas não doavam um rim para ter uma típica padaria-pastelaria portuguesa a porta de casa? 

Quantos não se salivam ao ver amigos postar fotos de Bacalhau á Gomes de Sá, rojões á minhota ou carne de porco a alentejana? Quantos não se enfurecem porque uma garrafa de vinho que não saiba a vinagre nunca custa menos de doze euros enquanto em Portugal por quatro euros já se fica bem aviado? E café decente a setenta cêntimos? 

Estes são também aspectos, que sendo pequenos, distinguem face a emigração clássica. Estar longe da melhor culinária do mundo é complicado e só por isso quase que apetece regressar. 

Mas regressar ao mercado de trabalho português nem sempre é fácil. O emprego tem registado melhorias, mas subsistem precariedade, baixos salários, poucos (e pobres) planos de carreira e para os recibos verdes, uma carga fiscal desmoralizadora. 

Entretanto, ouço que o primeiro-ministro prometeu apoios para emigrantes que regressem. Não é demagogia nova. Já o anterior governo tinha ensaiado um programa com apoios ao empreendedorismo para emigrantes. 

Segundo António Costa, o governo irá oferecer um desconto de 50% no IRS de quem regressar a Portugal. Ignoro se será desconto em talão. A benesse poderá durar cinco anos. Poderão haver também apoios as despesas com regresso e instalação em Portugal. 
Anunciada num grande evento partidário e por acaso a um ano de eleições, a coisa inspira-me pouca credibilidade. 

Por outro lado, na mesma altura, o secretário de Estado das Comunidades garantia que dos 500 mil emigrantes que deixaram Portugal durante os anos troika, cerca de 350 mil já regressaram. 
Assim sendo e a acreditar nestes números, deixo uma pergunta: se estamos todos a regressar a Portugal, então para quê incentivar um regresso que já está a acontecer de forma massiva? Para quê talões de desconto só para meia-dúzia? 

Mesmo que esta medida venha a avançar, a minha opinião é claramente contra. A ser aplicada, poderemos deparar-nos com um cenário em que um ex-emigrante que entre para uma empresa, trabalhará lado a lado com alguém que por nunca ter saído, pagará mais cinquenta por cento no IRS. Durante cinco anos, para um ex-emigrante será mais barato ser português do que para os restantes compatriotas. 

Qual a lógica disto? Portugal já tem divisões injustas que chegue. Dispensa-se mais esta. 

Por mim, já chega de propaganda com emigrantes. Não é com “empreendedorismos” ou descontos em talão que se conseguem regressos. É com políticas de médio e longo prazo. Políticas fiscais estáveis, competitivas e com a receita a gerar retorno vísivel, reformas na justiça contra a corrupção ou p.e. na resolução atempada de dívidas entre empresas, novas políticas para energia, logística, mar, ensino superior e formação profissional, fiscalidade sobre o trabalho, segurança social, natalidade, etc, etc, etc. 

Se a classe política for capaz disto, com pactos de regime que alicercem as medidas para o futuro, então os resultados surgirão, a emigração começará a reduzir-se e paulatinamente, alguns regressarão a um país melhor. Melhor para todos. Para os que até pensaram mas desistiram de emigrar, para os que nunca quiseram fazê-lo e para os que regressaram. Até lá, poupem-me a ilusões eleitoralistas tipo descontos em talão. 

Um país melhor, mais estável e justo para todos é a única fórmula de reverter o registo. Aí chegados, os que continuarem a emigrar farão-no por opção, aventura ou amor. Neste cenário, acredito que a maioria não se importará de pagar o IRS. Todo, sem descontinho em talão. 

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