© Raquel in Dreams

A morar em Stoke-on-Trent desde 2001, não foi senão há, aproximadamente, dois ou três anos, que comecei a notar em bandos como andorinhas, nestas afastadas paragens do interior do Reino Unido, enfermeiros portugueses. E a pergunta que me assaltou de imediato perante aquele quadro tão inusitado quanto inesperado foi esta: «Porquê Stoke?». Depois da interrogação e, confesso, do sobressalto, fiquei ainda a magicar nos motivos que os teriam desviado da apetecível, e talvez sonhada, capital londrina quando debandaram da Pátria.

Penso, porém, que devemos começar esta estória antes do início desta aventura além-fronteiras para que possamos compreender por que motivos partem estes jovens (sim, na sua maioria são muito jovens!) para virem ocupar as mais variadas zonas do RU. De forma geral, a partida não se desvia de (quase) toda a fuga lusa, cujo terceto do meu poema PARTE, E FAZ-SE À VIDA ilustra em demasia: «Se (o enfermeiro) parte e se faz à vida / É que a sorte lhe foi dura / E um homem também se cansa».

Ora, será aceitável perguntar se, de momento, o estrangeiro é a única possibilidade de emprego (e de progressão) para os enfermeiros portugueses?

«Numa primeira fase esta realidade era uma possibilidade mas não uma expectativa. Depois de terminar a licenciatura e de ver amigas na mesma situação que eu (o desemprego e a falta de oportunidades), considerámos o estrangeirocomo a solução.», afirma uma das enfermeiras que conheci em Stoke-on-Trent.

Este ponto de vista é partilhado por outros enfermeiros que tal como ela também chegaram a Stoke-on-Trent para trabalhar no Royal Stoke University Hospital e,igualmente, por todos aqueles que deixaram os seus testemunhos no sitewww.diasporadosenfermeiros.pt e que procuraram a sua sorte em instituições públicas e privadas de saúde noutros locais do país ou mesmo na Escócia. «A mobilidade interna europeia proporcionada pelo Processo de Bolonha passou a ser obrigatória após a licenciatura», diz, com convicção, Sabrina Ferreira, na referida plataforma. A experiência também aí relatada pela técnica de saúde (único depoimento do site nesta categoria) Daniela Teixeira vai ainda mais longe, tendo aquela começado ainda no quarto ano do curso a tratar do processo através da maior empresa em Portugal no recrutamento de profissionais de saúde para o Reino Unido  ̶ Vitae Professionals.

De resto, quase todas as vozes são unânimes quando dizem que a «emigração forçada» se torna, depois, numa grande oportunidade. E apontam as razões para o sucesso que lhes foi negado em Casa: sentem-se valorizados pelo que fazem; acreditam que a evolução na profissão é tanto responsabilidade deles como do National Health Service (NHS), visto que aqui se «sobe um degrau todos os anos na carreira» e se aposta na formação contínua enquanto que em Portugal está tudo estagnado; sentem também que os enfermeiros são reconhecidos e respeitados pelos serviços de saúde e, para terminar, afirmam que o país lhes oferece todas as condições para exercerem a enfermagem com qualidade e excelência.

Esta enumeração traz-me à lembrança o poema PÁTRIA por este também evidenciar aquilo que faz falta a quem quer desempenhar o seu papel na Terra onde prosseguiu os seus estudo e que, em princípio, lhe deveria dar «rumo na vida / lugar na própria casa», o que não aconteceu: «…na Pátria há falta de EMPREGO acima de tudo. E um emprego faz falta!». Outros testemunhos corroboram a informação dada por Mariana Martins e Inês Silva quando afirmaram, categoricamente, em 2015, que vieram logo após a licenciatura para evitar o desemprego.

Por sua vez, a jovem recém-licenciada, solteira, com apenas vinte e dois anos de idade, que residiu em Stoke-on-Trent de 2014 a 2016 e que aqui encontrou colocação na área de enfermaria, por meio de uma agência empregadora portuguesa, não dispensou a «proximidade de amigos portugueses» para trabalhar e se instalar nesta zona. Isto, apesar de o estilo de vida e a socialização durante as horas de lazer serem bastante diversos daqueles dos padrões lusos ou dos das grandes cidades do RU, visto ser muito comum em meios pequenos as lojas fecharem entre as 16:30 e as 18:00 (o mais tardar!) e não existir a tal «cultura de café». As condições salariais atrativas e o custo de vida reduzido quando comparado com o modo de vida exorbitante de Londres e, inclusivamente, de outras regiões do país também influenciaram grandemente a sua escolha. Apesar destas benesses oferecidas, nem todos os enfermeiros optam por uma vivência mais comedida de Stoke-on-Trent em detrimento da capital londrina. Atraídos, talvez, por uma mundividência mais colorida e o multiculturalismo tão característico desta metrópole, além, como é evidente, de «maior realização profissional». Quiçá também a novidade do Brexit tenha vindo a incitar a vontade da partida precocedesta zona em que a esmagadora maioria da população votou a favor da saída da Europa.

Mas se a deslocação dentro do país é o passo seguinte para muitos, a nossa jovem das «Midlands» não resistiu ao chamamento pátrio. No seu caso, pesou mais no prato da balança a sua visão sentimentalista – a família, os amigos e o namorado – do que o fator salarial e a recompensa económica. Para não falar na vontade de exercer enfermagem em Portugal, embora mencione que aquela sua primeira experiência profissional no RU foi gratificante e positiva: «…no Reino Unido apliquei os conhecimentos e as habilidades que a Licenciatura em Enfermagem me ofereceu.» E adianta que a equipa do hospital a soube integrar a si e às suas colegas portuguesas a nível profissional desde o início. Assim, mesmo que esteja consciente das condições insuficientes que lhe oferecem em Portugal enquanto enfermeira, é ali que quer ficar e onde tem, para já, os planos de vida futuros. Ama Portugal!

Contrariamente, são mais as vozes que não equacionam o regresso imediato ou a curto prazo a Portugal. A ideia de voltar apresenta-se longínqua ou, por vezes, como algo que se quer e muito se deseja, mas que, talvez, nem se venha a realizar.

À laia de reflexão, não devo concluir sem explorar algo que tenho constatado nestes últimos tempos em que convivi com esta nova vaga da emigração no local onde resido e arredores: o constante vaivém Reino Unido ̶ Portugal / Portugal ̶ Reino Unido. De facto, é prática corrente neste ramo trabalhar vários dias consecutivos para acumular outras tantas folgas a fim de as passar em terras lusas. E atrevi-me a perguntar se aquele frequentíssimo Cá e Lá contribuía para uma melhor integração no país de acolhimento ou se produziria o efeito contrário.

«Na altura em que me encontrava a morar em Inglaterra vinha a Portugal mensalmente. E, involuntariamente, senti uma notória instabilidade emocional que acabou por provocar o efeito contrário.»

Bem sei que já não se justifica esperar pelo «Querido Mês de Agosto» para matar saudades de Portugal. Porém, para naturezas de uma certa sensibilidade não aconselharia essa correria em direção ao país onde medraram as nossas raízes.Especialmente a estes jovens!

Embora não seja enfermeira e restrinja a duas ou três vezes ao ano as minhas idas à terra natal, passadas quase duas décadas a viver no Reino Unido ainda a viagem de regresso é banhada por lágrimas salgadas, aquelas lágrimas de Portugal de que fala Fernando Pessoa no seu «Mar Português». E recorro de novo ao poema PÁTRIA para mostrar que apesar do uso das novas tecnologias para comunicar à distância com os familiares e amigos, o eterno desassossego da dualidade de quem parte não é fácil de colmatar:

Afinal, o que te faz falta, ó Português (Enfermeiro)?
Faz-me falta a PÁTRIA (também a física)
Que visito muita vez.

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Isabel Mateus
Natural de  Torre de Moncorvo,  é uma escritora portuguesa radicada no Reino Unido desde 2001. Obteve o grau de doutora em Literatura Portuguesa na Universidade de Birmingham, onde também ensinou língua e literatura. Conciliou o ensino do Português na Universidade de Liverpool com a escrita ficcional e a investigação. Foi ainda intérprete do City Council of Stoke-on- Trent. Algumas das suas obras foram traduzidas para inglês, francês e chinês.

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