Falar ou não falar de comida? Foi este o dilema que acabou por atrasar a escrita da terceira crónica para a Coração Luso. Ultimamente, tem-me parecido ridículo escrever sobre texturas, sabores, ingredientes quando o mundo vai ficando cada vez mais louco. Será leviano partilhar a felicidade que se pode encontrar numa bola de gelado, quando os atentados se multiplicam, as ameaças procuram roubar as nossas liberdades e o futuro parece incerto? Devo então parar de escrever sobre culinária? Foram várias as perguntas que me assaltaram sempre que me sentei com o bloco de notas e a vontade de por as ideias no papel.

Embora muitas vezes o pensemos, a comida não é algo trivial. Faz parte das nossas necessidades básicas. E vai para além disso. É na comida que encontramos muitas vezes o conforto necessário para seguir em frente, é na comida que encontramos as nossas raízes ou descobrimos que o mundo é muito mais do que o nosso umbigo. A culinária permite-nos celebrar a vida e o ser humano. O que se partilha a uma mesa de refeição, numa toalha de piquenique, num tabuleiro improvisado, num refeitório de escola ou do local de trabalho é mais do que comida. Partilham-se memórias, notícias boas e notícias más. Talvez seja nos momentos de refeição que podemos reflectir sobre a questão dos refugiados sírios ou sobre as vítimas de Manchester. Talvez seja após uma refeição que ganhamos coragem para deitar mãos aos diferentes problemas.

Nos últimos tempos, enquanto o mundo vai ficando louco, e a minha impotência aumenta, deixei-me ser invadida por um vazio gastronómico. Mas depois de alguma reflexão só posso chegar a uma conclusão. Esta é a minha forma de contribuir com um pouco mais de amor no mundo, a forma de proporcionar mais encontros à mesa, uma forma de promover a escuta e a compreensão.

 

Gelado de Framboesa e Sálvia

Ingredientes

2 ovos grandes

150g de açúcar refinado

400ml de natas para bater

6 folhas de sálvia finamente picadas

300g de framboesas

1 colher de sopa de mel

 

Batemos os ovos numa taça até obtermos um creme fofo e leve. Acrescentamos gradualmente o açúcar refinado e batemos durante mais dois minutos. Juntamos as natas e batemos bem, até estas ganharem alguma consistência. Adicionamos as folhas de sálvia. Numa outra taça, juntamos as framboesas e a colher de mel. Esmagamos levemente com um garfo. Incorporamos metade das framboesas na mistura das natas e ovos. A outra metade reservamos.

Deitamos o preparado numa taça própria para ir ao congelador. De 30 em 30 minutos, durante duas horas, batemos o gelado para prevenir a formação de cristais de gelo. Passado essas duas horas vertemos para outra taça e batemos com uma vara de arames para incorporar ainda melhor os cristais de gelo. (Caso possuam uma sorveteira, basta seguir as indicações do fabricante.) Depois de bem mexido, misturamos suavemente o resto das framboesas para obtermos um efeito marmoreado. Congelamos até ficar sólido. Devemos retirar do congelador 10 minutos antes de servir.

 

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Ana Filipa Rodrigues

Cresceu entre escaladas às árvores dos pomares dos avós, gincanas de bicicleta e joelhos constantemente esfolados. Uma infância intimamente ligada às colheitas, às tradições, às rotinas das aldeias do interior do país. Daqui nasceu um respeito muito grande pela mãe natureza. É licenciada em Jornalismo e Comunicação. Tem um gosto muito especial por comida, por sentar as pessoas mais queridas à volta da mesa, por invadir a sua casa com cheiros caseiros que saem do seu forno. As suas experiências gastronómicas encontram-se reunidas no blogue Reservatório de Sensações.

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