O início da viagem que levou Gonçalo Cardoso à Polónia começou há dois anos, quando conseguiu uma colocação, na Warsaw School of Economics, ao abrigo do programa Erasmus. Uma «experiência que lhe mudou a vida». Hoje trabalha para uma empresa Indiana sediada na cidade de Cracóvia.

 

Antes de começar a sua vida em Cracóvia, Gonçalo Cardoso já conhecia uma outra cidade polaca, Varsóvia, na altura em que realizou Erasmus. «Varsóvia trouxe-me não só a mulher dos meus sonhos, como também grandes amigos», que continuou a ver nos anos seguintes. «Durante este período de dois anos tive a oportunidade de estar com eles poucas vezes, no entanto a história não acaba aqui», refere Gonçalo.

Um amigo Indiano foi o elo entre Gonçalo e a empresa para onde trabalha atualmente. Três meses depois de ter terminado o curso de Gestão de Empresas, Gonçalo Cardoso estava de volta à Polónia. «Numa conversa via Skype com o meu amigo Indiano fui encorajado a enviar o currículo para a empresa onde ele trabalhava, mas na cidade de Cracóvia. Este meu amigo trabalha na mesma multinacional, mas na cidade Indiana de Dehli», conta. «Tudo aconteceu (demasiado) rápido. Estou a dar os primeiros passos na empresa que está ligada ao mundo das tecnologias de informação. No princípio, a ideia de ficar a tempo inteiro numa cidade praticamente desconhecida para mim foi assustador e arrepiante, mas para o bem e para o mal, Cracóvia surpreendeu-me e encontrei aqui a felicidade que não consegui encontrar no meu país», refere.

 

Polónia, uma oportunidade

Gonçalo Cardoso enaltece a forma como a Polónia se ergueu, apesar de ter passado por uma guerra, e hoje ser um país de oportunidade. «Ainda que esteja na Polónia há pouco mais de três meses, foi tempo mais que suficiente para entender que, ao contrário do que acontece em Portugal neste momento, existe uma possibilidade real de progredir na nossa carreira. Tenho conseguido desenvolver as minhas capacidades profissionais na área em que trabalho e, mais importante que tudo, tenho aprendido a conhecer a “selva” que é o ambiente numa empresa multinacional», conta.

 

Uma história boa e uma menos boa

Gonçalo destaca a magia de Cracóvia, mas também a forma de trabalho dos seus superiores Indianos. «O facto de estar numa cidade indescritivelmente mágica, onde vivem muitos milhares de estrangeiros, e de podermos trocar opiniões e expor as nossas diferentes culturas leva-nos a descobrir coisas inimagináveis, que nos fazem crescer e aprender bastante», conta. Por outro lado, «apesar de trabalhar na Polónia, a empresa para a qual trabalho é Indiana. Por isso, parte dos meus superiores e colegas de trabalho são Indianos. O facto de grande parte da população Polaca não falar inglês fluente também não ajuda, de todo, a uma melhor integração. Terei que aprender Polaco nos próximos anos, ainda que seja uma das línguas mais difíceis do mundo», refere Gonçalo.

 

Um emigrante tipo

«Tenho 22 anos, acabei o meu curso há cerca de quatro meses e ainda que pudesse remar contra a maré, preferi não fazê-lo, por ter noção das minhas capacidades, que seriam desperdiçadas no meu país (infelizmente). Mais importante que tudo, assim que voltei a Portugal e, à medida que o tempo passava e que as coisas pioravam, fiquei seguro de que teria de emigrar para levar uma vida (mais) desafogada. Como me defino? Sou o emigrante-tipo, que não teve (quase nenhuma) alternativa. A não ser que conhecesse alguém que me pudesse arranjar um dos jobs for the boys», diz o português.

 

Uma miscelânea de nacionalidades

Para Gonçalo Cardoso, a independência financeira e a multiculturalidade são os aspetos mais positivos da sua experiência no estrangeiro. «Ainda que a Polónia não seja um país tão desenvolvido em termos de infraestruturas como Portugal era até há pouco tempo, encontrei algo aqui que seria impensável em Lisboa. Aos 22 anos, sou independente dos meus pais, vivo numa cidade que está longe de ter o clima depressivo que se vive em Portugal e estou integrado num ambiente com pessoas de todo o mundo. Só na empresa onde trabalho existem mais de 37 nacionalidades», conta.

Às 15h00, por toda a cidade os espaços noturnos dão lugar à diversão, onde o consumo de bebidas alcoólicas é um costume. «Só no centro histórico de Cracóvia existem mais de 500 bares, pubs e discotecas. Estaria a mentir se não dissesse que a vida social acontece, em grande parte, à noite. E muitas vezes com álcool à mistura. Pode ser triste, mas para este povo o álcool é a única maneira que tem de se esquecer temporariamente que vive num país onde o Sol não é presença habitual. Acredito que é umas das razões para ser um povo, de certa forma, “fechado”», diz Gonçalo.

Portugueses, brasileiros e holandeses são a maioria dos amigos de Gonçalo Cardoso. «Ao contrário do que esperaria, existem muitíssimos portugueses e brasileiros espalhados por diferentes partes da cidade. Ainda que tenha facilitado a minha integração no início, na verdade não lido muito com Portugueses, não porque os evite, mas porque grande parte deles têm pouco ou nada a ver comigo. Acredito que posso aprender bastante com pessoas de outras nacionalidades e é isso que tenho feito. Na verdade, dou-me mais com Brasileiros, Holandeses e algumas outras nacionalidades. Quero dizer: só por ser português não tento dar-me apenas com Portugueses. Acredito que possa ser negativo querer apenas dar-me com “tugas”». O contacto com Polacos, em termos sociais, é praticamente nulo. Ao contrário das mulheres, os homens vêem-nos com muito maus olhos», refere.

 

Curiosidades culturais

As mulheres, Gonçalo «Os latinos são tratados bastante melhor pelas mulheres do que pelos homens. Diria até que são dois extremos. Assim que cheguei e comecei a cumprimentar as mulheres com dois beijos na cara olhavam-me como louco, porque os cumprimentos homem-mulher devem ser feitos com um aperto de mão quando não existe intimidade. As filas de espera nunca são feitas na direção vertical de uma bilheteira, por exemplo, mas sim na horizontal, ou seja, de lado. Quanto aos indianos, o mais incrível e que mais me chocou foi saber que, quando fazem as suas necessidades, limpam-se com a mão esquerda, ao contrário de nós, que usamos», conta.

 

Objetivos cumpridos

«Obviamente que ainda é cedo para fazer um balanço, mas a verdade é que no espaço de três meses consegui ser promovido de Trainee para IT Analyst. Espero ficar neste posto apenas mais um ano, porque quero trabalhar na área em que me formei, algo relacionado com gestão de empresas. No final desse ano, se não me derem algo nessa área para trabalhar, vou procurar trabalhar noutra área, até mesmo noutra filial da empresa. Talvez no Brasil, Holanda ou Itália. Tenho um ano para me decidir», desvenda Gonçalo.

 

Regressar a Portugal, um dia

Gonçalo Cardoso não tem data de regresso a Portugal, mas é um objetivo. «O meu objectivo de vida é, sem dúvida, chegar a um posto que me permita ter a credibilidade e prestígio suficientes para voltar a Portugal e mudar (ou pelo menos tentar) não só a mentalidade, mas o rumo que devemos levar para o futuro das próximas gerações. Ainda que esteja muito longe de querer ter filhos, não vejo sitio melhor para criar família e ser feliz do que em Portugal, desde que as condições económicas e sociais sejam propícias para isso. Quero, acima de tudo, ainda que tenha sido “expulso”, retribuir de forma positiva ao meu país, com todos os conhecimentos e ensinamentos que posso levar de volta ao país que tanto amo», conta.

 

Uma frase para definir a experiência

«O que não te destrói, torna-te mais forte.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Orgulho-me, perante tudo e todos, de ter nascido num país tão especial. (…) Ser Português no estrangeiro não é fácil de todo. Já senti várias vezes na pele o facto de ter nascido em Portugal, porque aos olhos de muito boa gente não somos o Sul da Europa, mas o Norte de África. Eu, que estudei economia – ainda que não fosse necessário fazê-lo para entender – acho que, a não ser que algo bombástico aconteça, vamos acabar todos a passar ainda mais dificuldades. Uma espiral recessiva, é isso mesmo. Uma espiral que vai descendo e descendo e descendo… até desaparecer. Espero estar profundamente enganado.

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É a mentora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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