Há cerca de dois anos, Inês Caetano abriu o mapa mundo e apontou para o Brasil. A cidade do Rio de Janeiro foi o local escolhido para partir à aventura. Na bagagem, levava a vontade de mudar de vida e de ganhar uma nova experiência profissional.

 

O emprego ficou para trás. Inês queria algo de novo na sua vida. Inscreveu-se num curso de intercâmbio e esse foi o seu bilhete de entrada no Brasil. «Saí de Portugal com um visto de estudante, a bela da mala de cartão, muitas ideias, pouquíssimos contactos, mas com muita disposição e vontade de mudar a minha vida», refere Inês, que completa: «fui totalmente “na cara e na coragem”, como dizem os Brasileiros, para encontrar um emprego que mudasse a minha vida.»
Quando chegou ao Brasil, a primeira dificuldade foi a burocracia. Houve um período de adaptação. «Aqui, as coisas funcionam de maneira diferente e safa-se quem se adapta. “Safar”, na verdade, é fácil.»

Inês revela ainda que nem toda a gente gosta de viver no Brasil por causa dessa adaptação. «É preciso pegar o “jeitinho” e ter noção que a pessoa que saiu de Portugal não vai ser a mesma que vai, eventualmente, regressar e não pode ser a mesma que vai viver aqui.»

 

Uma mão cheia de histórias

É com uma evidente luz no olhar que Inês recorda aquilo que nestes dois anos já viveu no Brasil. «Não consigo destacar uma só coisa boa… Não tem preço a primeira água de coco na praia, o primeiro açaí (no início gostei só “mais ou menos”… é daquelas coisas que primeiro estranha-se e depois entranha-se!), a primeira subida a um morro para ver a vista do Rio, a primeira viagem dentro do país, quando começamos a ir aos lugares e as pessoas já nos conhecem (faz-me sentir em casa), o primeiro mergulho, o primeiro Natal (e que Natal!), etc.…»

Quanto ao lado menos bom, Inês entende-o como uma grande aprendizagem. «Há sempre um lado positivo. Às vezes não se consegue ver logo e o aprendizado vem mais tarde. Mas o lado positivo está sempre lá! Então, tudo o que aconteceu de menos bom até agora foram coisas com as quais eu consegui aprender e me fizeram, de certa forma, mudar a minha postura e, acima de tudo, crescer.»

 

Brasil não é só samba

Inês ressalva que o Brasil não é aquilo que se pensa, enquanto turista ou mesmo quando se vive em Portugal. «O Brasil não é só samba, mulatas e futebol. É um país de dimensão continental, com várias subculturas, sotaques, com muita coisa distante que se funde numa unidade só, da qual o Rio não é representante. O Brasil não tem nada a ver com o que aparece na televisão ou nos livros. É muito mais diversificado e muito mais bonito – inspirador!»

«Hoje, olho para o Brasil como se ele já fosse, também, um bocadinho meu. Também é um país diferente, porque me marcou positivamente de muitas e variadas formas. É diferente, porque me deu esperança, ânimo e motivação e fez com que várias pessoas muito importantes para mim se cruzassem no meu caminho. Hoje, é diferente, porque passou a ser a minha casa.»

 

Saudades de Portugal no Brasil

«Saudades. Dos amigos, da família (os meus avós!!) e do cão (o meu Óscar). Nem era preciso mencioná-los. Mas depois há a bica (a do CCBB…), o peixe grelhado – não há igual! –, os travesseiros de Sintra, os bolos e doces portugueses em geral (pastéis de Belém…), o bacalhau, as tascas, os cafés com balcão de metal e um copo de três, homens com calção de banho em vez de sunga, uma mesa com uma toalha aos quadrados, uma voz familiar na rádio, os planos pré-pagos dos telemóveis, as estradas, os acabamentos dos apartamentos, o preço das coisas, Sesimbra, a água fria na praia, o Sporting, os sotaques, o vinho, and so on… Há coisas que me fazem falta agora que não as tenho. Antes de me ir embora nem lhes dava valor ou então nem me apercebia como faziam parte da minha rotina e da minha vida. Logicamente que também há as outras de que não sinto falta nenhuma…»

Mas as saudades de Inês não ficam por aqui. «Os meus alunos, a minha equipa de râguebi e a minha equipa de esgrima. Não há igual! E vou sentir falta de poder apoiar os que vão para os Jogos Olímpicos em Londres, junto dos amigos e da malta dos treinos; mas tudo tranquilo que em 2016 a malta encontra-se toda aqui, eheh.»

 

No bom caminho para atingir objetivos

Inês começou a trabalhar muito jovem. «Comecei a trabalhar bastante nova e provavelmente irei trabalhar, em condições diferentes  – espero! –, até não poder mais – porque parar é morrer.»

Em termos profissionais, quando viajou para o Rio de Janeiro, Inês traçou planos a médio/longo prazo. E estes dois anos conduzem à sua concretização. «Como estou aqui ainda não fez dois anos (está quase!), posso dizer que penso estar no bom caminho para conseguir atingir aquilo a que me propus.»

 

 

Inês, uma outra pessoa

«Para se conseguir viver num lugar estranho, sem ninguém que nos é próximo e com uma cultura totalmente diferente da nossa (sim, o facto de falarmos a “mesma” língua ajuda, mas a cultura continua a ser completamente distinta…), é necessário fazer algumas mudanças. Afinal, eu é que estou num país que não é o meu, portanto não posso contar que sejam os outros a adaptarem-se a mim. Hoje, sou uma pessoa mais alegre, mais motivada, sou menos caseira, mais calma (ou menos stressada…), mais condescendente e paciente. Tenho muito mais, e cada vez mais, presentes em mim os valores pelos quais rejo e quero reger a minha vida, sou mais decidida, mais profissional, mais objectiva… A meu ver, esta não foi só uma mudança geográfica…»

 

Uma nova visão de Portugal

«Sinceramente, vejo Portugal lá ao longe na proporção dos 8 000 km que nos separam. A verdade é que saí com um certo sentimento de mágoa. Sinto-me triste quando vejo aquilo em que Portugal se está a tornar, e também pela nossa apatia frente aos acontecimentos dos últimos anos (décadas!). Por outro lado, vejo, porque estou de fora, as imensas oportunidades, capacidades e qualidades que o nosso país e os Portugueses têm, mas que são subaproveitadas. Acredito que seja mais difícil de ver o lado positivo das coisas quando estamos dentro do nosso rectângulo, porque a negatividade é transmitida diariamente, a toda a hora e todo o segundo, quer nos meios de comunicação social, quer pelos colegas de trabalho ou por qualquer pessoa com que nos cruzemos durante o dia, mesmo os amigos!

Infelizmente, por muito que se tente ultrapassar a crise financeira que assola toda a Europa, se não for feito um esforço para mudar no que diz respeito à crise de valores que está já muito acentuada em Portugal, vou continuar a ver a minha ocidental praia lusitana com os olhos de quem não consegue pactuar com o que dela fizeram.»

 

Portugal, um dia o regresso

«Eu tenho objectivos de vida bem delineados. Quero ser profissionalmente bem sucedida. Desde nova que faço por isso e sou bastante focada na minha vida profissional. Se olhar para Portugal como uma empresa, constato o seguinte: péssimos gestores financeiros, terríveis recursos humanos, excelentes departamentos de marketing e propaganda (fazem-nos acreditar em coisas totalmente absurdas…), fraco o de comunicação, sem descrição o de logística, e por aí fora. Plano de negócios: zero à esquerda. Desenvolvimento de projectos: existe alguém a fazer projectos básicos e executivos? Existe planeamento? É que se existe, é um departamento ainda mais fraco do que eu julgava. Portanto, apesar de ser uma empresa onde adoraria trabalhar, vai ter de haver muita rotatividade nos quadros (que parecem ser efectivos) para que eu sinta que me consigo encaixar.»

 

Ainda assim, orgulho em ser portuguesa

«Sinto que não terei lugar tão cedo, mas ainda acredito que somos um país grande e que a nossa pequenez se limita a questões geográficas. Tenho um orgulho enorme em ser portuguesa e considero-me mais patriota do que muitas das pessoas que governam o nosso país.»

«Mas, infelizmente, apesar de acreditar nas nossas capacidades enquanto povo, parece-me que são as pessoas de pouca visão estratégica que estão a conseguir prevalecer com as suas ideias e soluções. Somos péssimos como gestores financeiros, e a “crise” é a prova disso. Mas o nosso maior problema é que somos piores ainda como gestores de recursos humanos. A juntar a esta enorme falha dos quadros gestores portugueses, estamos a atravessar uma imensa crise de inversão de valores com a qual as pessoas parecem não se importar. Para mim, todos estes acabaram por ser motivos para deixar de me sentir bem onde sempre quis estar. Portugal não quer pessoas produtivas, ambiciosas (no bom sentido!), criativas, determinadas e empreendedoras. Dá muito trabalho e são menos maleáveis… Felizmente ainda há muitas pessoas cheias de qualidade no país. Mas será que estão a ocupar os lugares que lhes deveriam ser destinados?»

 

Um pouco do Brasil para Portugal, e vice-versa

«A verdade é que a junção dos dois (Portugal e Brasil) seria viver no melhor de dois mundos. Mas o que é que juntava de cada um torna-se uma coisa difícil de definir… Hoje gosto de poder viver na informalidade carioca, com a objectividade portuguesa… Conhecendo os dois lados da moeda, há coisas que eu não gostaria de deixar de ter na minha vida, mas não sei se gostaria de as ter no mesmo lugar… Acho que prefiro os dois separados para poder desfrutar de ambos depois de períodos de saudade, que ajudam sempre a valorizar as coisas que não podemos ter connosco.»

 

A definição de uma experiência

Inês define a sua experiência parafraseando Charles Chaplin. «Lute com determinação, abrace a vida com paixão, perca com classe e vença com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Sou acima de tudo um coração luso. Gosto de pensar que tenho alma lusitana e que é a garra de quem um dia partiu para descobrir e conquistar o mundo que me corre nas veias.

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Mara Alves
É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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