“Assim que pus o pé lá fora, ficou claro na minha cabeça que adorava viver fora e ser emigrante.”

Por graça do destino fui parar a Granada, Espanha, para fazer o primeiro semestre do último ano do meu curso com o programa Erasmus, em Setembro de 2006. Não sabia eu nessa altura que esses 6 meses mudariam a minha vida para sempre.

Inês Rola tinha apenas 20 anos quando saiu pela primeira vez de Portugal, a primeira vez a viver fora de casa dos pais, a primeira vez a viver noutro país. A vez que bastou para ter uma certeza, era fora de Portugal que queria viver.

Granada, cidade espanhola, cidade histórica e turística, mas também, conhecida pela sua Universidade e, por isso, eleita como um dos destinos mais populares para a realização do Erasmus (programa que permite a alunos do Ensino Superior estudarem noutro país). Foi em Granada que Inês passou um ano da sua vida, o primeiro fora de Portugal

O semestre prolongou-se por um ano, e aquilo que era apenas uma experiência de estudar fora, tornou-se numa oportunidade para deixar Portugal para trás e começar uma vida profissional. Entre estudos e trabalho, foram quatro anos a viver em Espanha, “ao fim de quatro anos em Espanha voltei para Portugal por culpa de uma cláusula do contrato da bolsa de estudo que me financiou os estudos do mestrado. Estava obrigada a regressar ao país de origem no final dos estudos. Lá voltei eu.”

 

 

Regressar para emigrar

Formada em Finanças, encontrar trabalho em Portugal não foi difícil. Inês trabalhou numa consultora de software, a Caixa Mágica, como responsável da área financeira.

Quem viveu fora de Portugal, por um período de tempo, muitas vezes, quando regressa relata um sentimento de algum desconforto. Um sentimento de estranheza, o de ser estrangeiro no próprio país, e este foi o caso de Inês. A adaptação de novo a Portugal, não foi tão encantadora como estava à espera, “quando voltei para Lisboa. É o que uma pessoa menos espera, voltas ao país de origem depois de quatro anos fora e os teus amigos já têm outra rotina, os grupos da universidade já se desfizeram e cada um foi para seu lado, quando vais de visita todos fazem um esforço para ver-te, mas quando voltas definitivamente dás-te conta que a rotina dos teus amigos já é diferente e o teu espaço foi ocupado por outras atividades.”.

Inês estava de regresso, mas ficou com o bichinho de voltar a viver fora do país, as circunstâncias foram-se ajustando e ao fim de dois anos e meio, voltava a sair de Portugal e, desta vez, para emigrar.

Chile

O Chile não é um país de eleição para a emigração portuguesa. Situado na América do Sul, tendo como vizinhos a Bolívia, Peru e Argentina, só desde alguns anos para cá é que este país tem atraído portugueses, sobretudo nas áreas de gestão, arquitetura e engenharia civil. Dizem-nos os números que entre 2007 a 2011 registou-se uma média de 25 pedidos de visto. Já em 2012 registaram-se 90. É quase inevitável não fazer comparações entre Portugal e o Chile: ambos são países distintivamente marítimos e apreciados pelo bom vinho. No entanto, no que toca à economia, o Chile encontra-se em melhor saúde financeira

O Chile não era um destino que Inês tivesse desejado, mas era nesse país que estava Tiago, o namorado. Tiago tinha sido selecionado para participar num projeto no Chile (Startup Chile – é um programa em que são dados 40.000 dólares para se desenvolver uma ideia de negócio naquele país). Com a ida de Tiago para o Chile, Inês começou a traçar o seu plano para se juntar a ele.

 

A mudança

Foram necessários apenas alguns meses e muita vontade para se dar a mudança para o Chile. Primeiro passo, Inês começou por procurar trabalho, “comecei a procurar desde Portugal, adaptar o meu CV ao modelo mais latino, em espanhol claro, procurar as páginas de emprego com melhores ofertas, empresas internacionais, empresas portuguesas no Chile”. Na primeira visita ao namorado, já tinha agendadas cinco entrevistas que resultaram em duas ofertas de trabalho.

Em fevereiro de 2013, Inês aterrava no Chile para ir trabalhar para a Deloitte. Hoje, é controller financeira na Compara Online, uma empresa líder na área da comparação de produtos financeiros da América Latina “comecei no Chile e agora reparto os meus dias entre o Chile, a Colômbia e o Brasil, ‘estabilizada’ em Medellin, Colômbia”.

 

A pequena e unida comunidade portuguesa no Chile

Quando chegou ao Chile a adaptação foi facilitada pelo apoio de dois portugueses recém chegados, “através deles fomos conhecendo mais portugueses, os amigos dos amigos recomendavam-nos e eles eram o poiso de muitos portugueses que vinham chegando ao Chile durante 2013, Erasmus, INOVs Contacto, amigos de amigos, todos passavam pela ‘casa dos Molinas’”.

“Simpática, alegre, determinada, ousada, afetuosa, pronta a ajudar as pessoas de quem gosta, com capacidade de liderança, grande sentido prático na resolução de problemas, com sentido de humor, honesta, exigente, muito frontal quando considera que alguém não cumpre as regras, muito trabalhadora e rápida na sua atuação.”, esta é a Inês sob a visão da sua mãe, Dulce Rola. Esta também é a Inês que tem um papel dinamizador na comunidade portuguesa “a comunidade foi crescendo, fui organizando jantaradas, pois a embaixada já não dava conta de tanta gente e assim fomos criando um grupo bem unido de jovens portugueses que acabavam de chegar! No prédio onde eu morava, por coincidência, chegaram a viver até seis portugueses! Fazíamos vida em comunidade quase, jantávamos em casa uns dos outros, pedíamos detergente para a roupa emprestado quando faltava, combinávamos saídas, aparecíamos só para conversar! Era muito divertido.”

A emigração juntou Sofia e Inês. Conheceram-se no Chile e para além de companheiras de viagens são amigas. Para Sofia, a amiga Inês “sempre foi a dinamizadora das atividades no grupo de portugueses organizadas através do grupo de facebook (churrascadas, 25 de Abril, dia de Portugal, etc). O papel dela é bastante importante, é uma pessoa muita agradável pelo qual toda a comunidade tem muita disposição em aderir aos eventos que organiza.”.

Inês faz questão de se dar com toda a gente mas reconhece que a comunidade portuguesa ajuda na integração, “descobri que a comunidade portuguesa cá fora, é muito aberta a ajudar e integrar e claramente há uma identificação especial – estamos cá todos em circunstâncias parecidas, temos curiosidade em provar as comidas que ainda não provamos, todos procuramos onde se vende bom azeite e bom bacalhau, queremos visitar os sítios turísticos que os locais já foram 30 mil vezes, não temos famílias cá e os nossos fins de semana são muito ‘disponíveis a novos planos’, então, em geral com estrangeiros (portugueses ou não) a integração é mais fácil.”

 

Colômbia

Medellín é a segunda maior cidade da Colômbia. Tem mais de três milhões de pessoas e é a capital da região de Antíqua. Medellín já foi também a cidade mais violenta do Mundo, devido à existência de narcotraficantes, tornando-se ainda mais perigosa, especialmente na década de 90, após a morte de Pablo Escobar, o grande narcotraficante que se tornou uma lenda na Colômbia. Mas já passaram alguns anos e hoje a cidade mudou radicalmente. Em 2013, Medellin recebeu a distinção de Cidade Inovadora do Ano, pelo The Wall Street Journal.

Inês divide-se entre o Chile e a Colômbia, uns meses num país, uns meses noutro. A chegada a Medellín foi apenas há alguns meses e sempre volta ao Chile. Daquilo que conhece, surpreende-a o quanto a cidade é limpa e mais acrescenta que, “apesar de todos terem uma visão de Medellín associada ao narcotráfico, perigosa, caótica e por causa da famosa série ‘Narcos’, a verdade é que os próprios paisas (gentilício das pessoas de cá) têm orgulho na sua cidade, são muito regionalistas e querem mostrar aos demais que apesar de não esquecerem o seu passado (porque esquecer, seria o primeiro passo para repetir, como dizem eles), querem ser reconhecidos agora como a capital da inovação e estão a esforçar-se bastante para isso.”

Quando chegou à Colômbia, Inês começou por procurar portugueses a viver na cidade, como estava difícil de encontrá-los, criou o grupo dos Portugueses em Medellín no Facebook, porque “parecia que não existiam portugueses em Medellín”, conta. Depressa fez amigos e hoje já se encontram para conviver.

 

“Sotaque amexicanado”

Quando viveu em Espanha, do seu grupo variado de amigos, faziam parte mexicanos, e Inês facilmente apanhou também esse sotaque. Assim expressar-se no Chile ou na Colômbia foi tarefa fácil, “o idioma ao mesmo tempo que é fácil, porque é espanhol e nem que seja portunhol todos falamos, em cada país é como aprender de novo. o Chile foi o país mais difícil sem dúvida, eu quando cheguei falava “à espanhola de Espanha com sotaque amexicanado”, agora que cheguei a Colômbia já me perguntam se sou chilena, o sotaque vai-se adaptando e o vocabulário também, pois nem todas as palavras se usam de um país para o outro.”

 

Ter uma carreira na América Latina

Para Inês, a América Latina é uma oportunidade, “os europeus são bem recebidos, temos uma educação com um nível superior à media de cá e isso faz com que nos destaquemos com facilidade. Sabemos idiomas e somos desenrascados. Consegui crescer muito aqui, gerir equipas em vários países e ficar como responsável financeira da América Latina.” Acrescenta ainda, “sei que as oportunidades de crescimento que tenho cá, não teria, pelo menos há mesma velocidade, em Portugal.”.

Paralelamente à sua atividade profissional, Inês está envolvida no desenvolvimento do projeto TEIA – Transofrming Emigration Into Action, uma plataforma que vai revolucionar e ajudar empresas portuguesas a entrar em novos mercados através da ajuda, assessorias e parcerias com a rede de emigrantes e expats portugueses pelo mundo. Este nosso projeto ficou em segundo lugar do Programa FAZ – IOP (Ideias de Origem Portuguesa) da Fundação Calouste Gulbenkian e foi selecionado para um programa de empreendedorismo do Startup Chile focado em mulheres empreendedoras, o The S Factory. Nada disto teria sido possível ficando em Portugal.

 

Curiosidades culturais

  • “O Chile tem uma dança típica que se chama: ‘cueca’ – isso mesmo, eles bailam a cueca!!! Especialmente nas celebrações das ‘Fiestas Patrias’.”
  • “Qualquer desculpa é boa para fazer um assado. Ao inicio é divertido, todos cá fora, vai-se assando a carne e vai passando a bandeja com os pedacinhos cortados, todos picoteando, mas depois de 3 anos, já não me enganam! Os assados normalmente significa encher-se de batatas fritas até às 22h da noite, comer 3 bocadinhos de carne seca, passar frio e chegar a casa a cheirar a assado!”
  • Uma das bebidas típicas do Chile (sem ser o pisco sour que ainda se discute se é do Chile ou do Perú), que são os ‘Terramotos’. Sim… são tantos, que até têm uma bebida que em grande quantidade vai-te fazer sentir que o chão foge-te dos pés!! É uma bebida feita com ‘vinho pipeño’ – vinho jovem, pouco fermentado – uma bola de gelado de ananás e groselha… docinho e fresco mesmo para não te dares conta até te levantares da cadeira e vires tudo a mexer! E se um ‘Terramoto’ não for suficiente… podes sempre pedir uma ‘Réplica’… que é a versão da mesma bebida, mas num copo mais pequeno.”
  • “Os terramotos são outra curiosidade para quem vive no Chile. Acabas a habituar-te… Santiago felizmente, está muito preparado e constantemente sentes tremer… se passa um mês em que não sentes nada, até se começa a estranhar! Menos de 6 graus ninguém reage… a vida continua como se nada fosse! A terramotos de 8 como o que eu senti em setembro de 2015 eles chamam ‘temblorcito’… e isso que abanou bem!! Mas não se partiu nada. Em Santiago de Chile está tudo muito bem preparado!”
  • “Na Colômbia, o tão famoso café colombiano, chamam-lhe ‘tinto’. Nunca me esqueço num dia que estava a trabalhar no escritório e depois de almoço me oferecem ‘Queres um tinto?’… e eu fiquei com cara de ‘A sério? Aqui no escritório?!’ e depois lá percebi que era um café!! Sim… que vinho aqui… é escasso e caro… ninguém te vai oferecer por aí!”

 

Viajar, viajar, viajar

Inês adora viajar e, apesar de o fazer com bastante frequência, viajar mais e por longos períodos é um dos seus objetivos. Enquanto isso não é possível, faz viagens esporádicas pelo Chile, Argentina, Peru, Bolívia, Colômbia, Brasil. Esta sua paixão já a levou a criar um blogue Racing Mackerel Diaries (Diários do Carapau de Corrida) onde relata todas as suas viagens.

 

Deixar para trás a família e as saudades

“O ‘corte’ mais drástico foi quando fui para o Chile. Estive um ano sem vê-los. O mais louco de tudo para mim são as coisas que mudam de um ano para o outro, quando fui num Natal éramos os de sempre, quando voltei no ano seguinte o meu irmão tinha tido um filho (nunca vi a minha cunhada grávida se quer!!!)… Há muita coisa que se perde, momentos bons e maus. O Chile está verdadeiramente muito longe… por exemplo, quando morreu a minha avó, mesmo que quisesse e pagasse um balúrdio por um voo no mesmo dia, mesmo assim não chegaria a tempo do funeral. São pelo menos 17 horas de viagem… há coisas que tenho de dar por assumidas que a distância não perdoa. De resto, falamos todas as semanas! Por Skype, por WhatsApp, por email, por Facebook… vamos contando o que vai acontecendo, trocando fotos e mensagens…”

 

Portugal

Regressar a Portugal não está nos planos de Inês, talvez um dia na reforma “voltar a Portugal seria diminuir bastante a qualidade de vida que tenho cá fora, os desafios profissionais que tenho cá também não teria em Portugal e enquanto não visitar tudo por estas bandas acho que estou bem por cá. Acho um destino fantástico para ir de férias! Maravilhoso, bom clima, seguro, com boa comida, barato (sim, que nem tudo na América Latina é barato como se pensa…), praias fantásticas. Também acho que será um destino bom para passar a reforma, os ingleses e os holandeses é que sabem. Claro, somos um povo fantástico, desenrascado, aberto, adaptável até ao infinito, aventureiro, divertido, que fala todos os idiomas do mundo e que estamos em toda, em toda a parte.”

 

Dulce Rola, mãe

“Neste momento, este ‘longe’ parece-me às vezes inalcançável e assaltam-me preocupações do tipo ‘Se ela precisar de mim, por alguma questão de saúde, como vou chegar lá depressa?’ ou ‘O Chile está mesmo numa falha sísmica…’. No entanto, a Inês tranquiliza-me sempre, dizendo que está rodeada de amigos com quem tem contactos diários. As saudades matam-se através de mails, de telefonemas esporádicos e do abençoado Skype, exceto no Natal em que a podemos abraçar de verdade.”

 

Os aspetos positivos desta emigração

“O aspeto positivo que me ocorre em primeiro lugar quer se trate de Espanha, quer se trate mais recentemente do Chile ou da Colômbia, é a progressão na carreira profissional aliada a uma progressão financeira que, suponho, teria sido inviável no nosso país. Aqui a dificuldade em arranjar trabalho é grande em certas áreas e a carga fiscal é sufocante. Outros aspetos positivos são, sem dúvida, o conhecimento de outros modos de vida, de outras gentes, de outras terras (a Inês viaja sempre que pode) e ainda da solidariedade com os ‘nossos’, formando com eles uma nova família.”

 

A Inês vai regressar?

“Claro! Vivo nessa esperança.”

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Mara Alves

É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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