O sonho de se tornar educadora de Infância realizou-o, mas já ficou lá atrás. Escrever  e, continuar a sonhar através das palavras, dos pensamentos, dos versos e dos poemas que lhe saem da alma e da serra que a inspira, é um sonho realizado todos os dias.

Isabel Marouço, 32 anos, natural da freguesia de Dem, bem no sopé da serra d’ Arga, concelho de Caminha. Deliciosamente tímida, voz doce e serena, humilde no jeito de ser. Quando terminou o ensino Secundário, Isabel tinha sonhos como qualquer jovem, queria uma vida diferente do que a vivenciada na serra onde nasceu. Rumou até Viana do Castelo, onde tirou o curso de educação de Infância, exerceu a atividade até que um dia não teve mais colocação. Mal sabia, que era na serra que tão bem conhece, que estaria o seu futuro.

 

 

No alto da Serra d’Arga, vê-se o mar, riachos e montes a perder de vista e é nesta paisagem que Isabel passa grande parte do tempo. Tem cabras, cabritos e ovelhas, ao todo são mais de 90 cabeças. Todos os dias são dias de trabalho, ora trabalha a terra com o marido, ou sobe a serra com o rebanho.

 

Quando vai para a serra pastorear as cabras, Leão, Lobita e Reco seguem os passos e a voz da pastora que os orienta. Os cães-pastores cumprem o seu dever, nenhuma cabra pode sair da linha, que num ápice correm atrás da fugitiva para a pôr no seu lugar. Mas, o papel de cães-pastores não se esgota no trabalho, eles são também a companhia na solidão de Isabel.

É, lá bem no alto, sentada numa pedra, com a natureza aos seus pés que se ouve a si própria. Verde, castanho, amarelo e azul cores que se misturaram numa paisagem minhota que nos faz sonhar. É nesse momento, sozinha que tudo acontece. Divaga nos seus pensamentos e, transforma-os em poesia, e vai escrevendo o que lhe vai na alma, tudo fica registado, primeiro no telemóvel, depois no papel. O amor, a família e a saudade são os temas da sua inspiração.

 

 

“Em cada cantinho da serra se encontra um motivo para escrever, um incentivo, uma dica, uma lembrança. E no telemóvel começo a registar palavra a palavra, verso a verso, o que me vai na alma”.

 

A vida fez de Isabel, pastora. É a pastora-poeta da Serra d’Arga que já tem um livro publicado e que acaba de publicar o segundo, “se anteriormente já escrevia poesia e tenho registro pelo menos desde 1999, o contacto com a natureza, tornou-se cada vez mais uma inspiração.”

“Pétalas de Vida” foi o seu primeiro livro, publicado há quase um ano, no dia do seu aniversário fala sobre amor, amizade e fé. “Era um sonho antigo, impulsionado por muitos dos que me liam através do Facebook ou de forma particular. Há alguns anos que as minhas mensagens de Natal e entre outras, passaram a ser poemas”.

Vendeu mais de duas centenas e muitas foram as entrevistas, reportagens e idas à televisão, à conta de ser uma pastora-poeta, que também foi professora, mas a fama não lhe enche o coração, é uma mulher humilde que só quer escrever “costumo dizer que sou melhor a escrever que a falar”.

“Respirar o amor” é o título do segundo livro lançado dia 7 de julho, fala sobretudo de amor, que dedica aos amores da sua vida, o marido e a filha. Mas, também podemos encontrar temas mais bucólicos, onde o sol as borboletas alumiam cada poema que lhes é dedicado por Isabel.

 

Isabel Marouço diz não se sentir frustrada pela vida que leva, mas não esconde que gostava de trabalhar na profissão que escolheu, a paixão por crianças e ensiná-las continua viva dentro de si. Porém, diz-se feliz, tem saúde “que é o mais importante”. Esta é uma lição de vida, apesar de outros sonhos, e apesar de ter desejado ter outra vida,  Isabel tem agora uma outra motivação para subir à serra: escrever.

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Mara Alves

É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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