Recupero a reportagem que fiz com Mariana Maria, cantadeira, taberneira, personagem peculiar do concelho de Castro Verde, respeitada por todo o baixo Alentejo. Tive a honra de privar com ela, de a levar à televisão já debilitada, mas consegui que fosse. Recupero hoje o primeiro trabalho que fiz com ela, hoje na data da sua morte. Até sempre.

A chuva cai de um modo enfadonho e insistente. A estrada principal divide o casario branquinho que perfaz a única rua deste lugar. Perto da estação ferroviária de Ourique-Gare situa-se a taberna de Mariana Maria. A cantadeira mais conhecida do Baixo Alentejo.

Mariana Maria está tranquilamente sentada à porta da taberna. Ao balcão estão vários homens que bebericam a água ardente e o medronho que aquecem os dias frios do final de Novembro.O restante cenário é absolutamente espantoso: duas das paredes estão pintadas com paisagens alusivas ao Alentejo: um enorme sobreiro e uma cena de caça. Nas restantes, estão penduradas dezenas de miniaturas de alfaias e outras ferramentas e artefactos, que se misturam com inevitáveis pares de cornos, calendários de mulheres nuas, cabaças secas de formas fálicas, e ainda caveiras de animais. 

Mariana Maria na sua taberna.

Há 50 anos que Mariana Maria, a Mariana Campaniça como é conhecida, é taberneira. Há mais de 60 que descobriu uma forma de expressão. Herdou do seu pai esse jeito de cantar sentido. É um cante de homens, interpretado por homens e em ambiente de homens. Mas, quis o destino que esta mulher desafiasse essa cultura masculina. E tudo aconteceu, quando ainda criança acompanhava o pai em tabernas e o ouvia cantar. Mariana Maria apaixonou-se por essa forma de canto que dá pelo nome de cante ao baldão. Aos 16 anos com os ensinamentos do pai já “dobrava a cantiga”. 

Mariana Campaniça é um nome cantado por todo o Baixo Alentejo. A sua presença em encontros de baldão e em programas de rádio é uma constante. Muitas são as pessoas que vão à sua taberna para a conhecerem, “ainda no outro dia esteve aqui uma senhora disse que há muitos anos me conhecia pela rádio, mas queria conhecer-me pessoalmente” conta.

Mariana é tema frequente no cante. Quer pelo seu aspecto, quer pela sua forma de estar na vida. Mas, não se importa que a “piquem” nas modas, “tenho sempre resposta”. Mariana tem muitos traços masculinos. Usa calças de tecido, uma camisola de lã vermelha, um colete onde usa um relógio de bolso. A finalizar, a inseparável boina que faz parte da peculiar indumentária. Por cantar entre os homens já foi ofendida pelas outras mulheres que a chamavam de “machorra”. Mas, continuou a cantar nas tabernas e em encontros de baldão, sempre entre os homens. “Havia três coisas que eu gostava muito de fazer e nenhuma delas pertence às mulheres: a caça, a pesca e cantar baldão” concluiu. 

Quando era jovem, a mãe não a deixava cantar e mais tarde o marido também não. Um casamento que durou nove anos que Mariana diz ter sido um alívio “depois já podia cantar ao baldão e fazer o que eu queria”. Das três filhas dessa união nenhuma mostrou interesse nesse cante, nem o neto que agora vive consigo “ele não quer saber disto, não sabe cantar nada”, diz com alguma tristeza visível no olhar. “Quando os velhos morrerem isto acaba” rematou. Para Mariana Maria, cantar ao baldão não é para todos, não basta querer “não é fácil de ensinar, é uma coisa que nasce logo com a criatura”.

O baldão é cantado em grupo para proporcionar a “picaria” entre os cantadores. Mariana Maria, convidou alguns colegas do cante para virem hoje à taberna. Apareceu um, Francisco Colaço, que não se mostrou satisfeito por ir cantar só com Mariana “eu não acho que valha a pena, de a gente estar a cantar só os dois,  isso é desclassificar o baldão, não se pode mostrar grande qualidade a dois”. Discutiu-se e voltou a discutir-se, arrastou-se a mesa. Francisco, senta-se ao lado de Mariana que o tenta convencer uma vez mais,  “bem Chico tu cantas uma cantiga, eu canto outra, deixa-te lá disso que isto também não faz mal nenhum”. A vontade de cantar ganhou. Brindam-nos com o seu falar cantando:

Mariana “Ai, e ó Francisco do MoinhoVamos cantar o baldãoE fazemos este favor À menina de GarvãoE vamos cantar o baldao E ó Francisco do Moinho”Francisco “E obrigado meus amigosÀ visita que fizerame obrigado meus amigosÀ visita que fizeramE vir aqui a nossa terraFoi um gosto que nos deram”

Francisco Colaço reconhece valor a Mariana,“ ela tem avivado o baldão, não andam ai mulheres a cantar como ela. Tem defendido bem o seu lugar e das outras que não tem coragem de cantar”. 

Em cima do balcão corrido de mármore, um copo de vinho está solitário. Por vezes, o dia termina com o entoar do baldão, quando os poucos clientes que por ali passam se predispõem a uma moda. Os 77 anos de Mariana Maria não a impedem de cantar. Dentro do seu espaço sempre que lhe apetece e quando se proporciona Mariana Campaniça não se nega a uma moda “a coisa que mais gosto é de cantar”.

Viola Campaniça, um instrumento respeitado por Mariana

Pedro Mestre é um jovem tocador de viola campaniça. Defende que a “viola campaniça tem um papel fundamental no acompanhamento dos cantes de desafio como é o baldão”. Contudo devido ao desaparecimento, durante alguns anos, deste instrumento, muitos cantadores cantavam sem viola, o que faz com que agora muitos não a respeitem, a “Mariana é das poucas que a respeita” afirma. 

Pedro Mestre acompanhou muitas vezes Mariana Maria que diz ser ” uma mulher que se considerou livre desde sempre, desafiou a sociedade neste cante de homens”. “Mariana Campaniça” foi uma das modas que Pedro Mestre dedicou a Mariana Maria, num dos discos que gravou com o grupo de Violas Campaniças.

Texto original publicado em 2010, no âmbito da pós graduação em Jornalismo, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa sob orientação do professor e jornalista Pedro Coelho.

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É a mentora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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