Joana Ricou é luso descendente, nasceu nos Estados Unidos, viveu em Portugal e quando tinha 20 anos voltou para os EUA. Joana é artista plástica. No seu percurso profissional conta já com várias exposições em cidades como Nova Iorque, Chicago, Baltimore, Los Angeles e Lisboa. Trabalha em museus e universidades e tem várias obras de arte e ciência instaladas, permanentemente, nalguns lugares. Contudo, Joana Ricou continua a sonhar com uma oportunidade chamada Portugal.

 

Biologia e arte, o motivo da partida

O fascínio pela biologia e pela arte levaram Joana até Pittsburgh, à Carnegie Mellon University e, mais propriamente, a um laboratório de química. «O contacto com a educação americana mudou a minha vida… Em particular, sempre fui fascinada por biologia e por arte e descobri que a universidade não só continha os dois departamentos (“colleges”), mas tinha programas combinados – era para mim! Foi um sinal claro do destino. A partir daí, foi inevitável vir viver para os EUA, pelo menos durante os meus estudos», conta Joana.

 

Ligações familiares e a nacionalidade foram o passaporte

Irene Fonseca, uma das investigadoras portuguesas de maior destaque no país, é tia de Joana. Assim, quando terminou o liceu, por intermédio da tia, Joana conseguiu o estágio no laboratório da Carnegie Mellon University. Joana explica: «Na altura, falei em tentar fazer voluntariado num laboratório durante o Verão. Não tive sorte nenhuma em Portugal, mas a Irene, que é faculty na CMU, mandou um e-mailmeu a vários investigadores e dois minutos depois estava alinhada a oportunidade. A minha saída também foi facilitada porque tenho nacionalidade americana. Depois da revolução, os meus pais foram estudar para os EUA e foi lá que eu e o meu irmão nascemos. A parte mais difícil foi alinhar os apoios financeiros e as logísticas do IRS português e americano… Emocionalmente foi completamente natural. Não é que não tenha custado (e continue a custar), mas de certa forma pareceu-me, e parece-me ainda hoje, óbvio».

 

«Aprendi a ter fé nas minhas ideias»

Joana tinha 20 anos quando foi para os EUA. Foi na América que aprendeu a ser determinada e ambiciosa. «Era pouco mais do que uma “adolescente inconsciente”, conhecia muito pouco… Mas sei que parte do que aprendi na América, que temo que não teria aprendido em Portugal, foi a ser determinada e ambiciosa. Aprendi a ter fé nas minhas ideias e acreditar que não só valem a pena como está unicamente nas minhas mãos concretizá-las. Infelizmente, este espírito não existe em Portugal – ou, pelo menos, eu nunca o encontrei. Pessoas com ideias eram “carapaus de corrida” ou um “espirra-canivetes que acha que sabe”», diz a portuguesa.

 

Combinar a arte e a ciência

Joana Ricou é uma artista plástica que combina a arte com a ciência. No seu percurso já passou por diversas escolas, museus, universidades, galerias e conferências, colabora com cientistas pelo país inteiro e, também, estuda investigação. Experiências que em Portugal dificilmente conseguiria. «Durante a licenciatura, trabalhei em laboratórios de investigação e no atelier ao mesmo tempo. Desde aí, tenho combinado a arte e a ciência no âmbito de belas-artes, de educação de ciência e até explorado o papel deste tipo de trabalho no progresso científico. Acho que isto só teria acontecido em Pittsburgh ou em poucos outros sítios, mesmo nos EUA. Será que teria acontecido em Portugal? Não sei. Durante um ano estive inscrita no Técnico e no Ar», refere.

 

Um sonho: mostrar o trabalho em Portugal

«Mais, mais, mais! Talvez o problema aqui na costa Este (estou em Nova Iorque) é haver demasiado enfâse no trabalho… Os Portugueses sabem viver! Sabem apreciar o dia-a-dia, os amigos e a família, ao mesmo tempo que sabem apreciar a cultura, natureza e história que os rodeia. Nesta altura, em particular, é fácil desrespeitar este aspecto da nossa cultura, mas do meu ponto de vista é um sucesso valioso. Tenho várias linhas de investigação que espero continuar a explorar, muitos projetos. Mas claro, o que me falta realizar é trazer a minha vida profissional a Portugal. Claro que sei que hoje é mais difícil do que nunca, mas, acredita, ser artista é sempre difícil».

 

Uma emigrante sazonal

«Volto sempre no Natal para Lisboa e no Verão, para o Algarve, como boa emigrante. Gostava muito de poder trabalhar também em Portugal e, se isso acontecesse, seria mais fácil passar mais tempo lá. Gostava de graduar para emigrante em part-time».

 

Os Portugueses em Nova Iorque são uma força social e cultural

A comunidade portuguesa em Nova Iorque é grande, apesar de Joana conviver mais com os que vivem em Manhattan ou lá perto. Existem vários grupos que organizam eventos culturais e saídas, que ajudam a conhecer quem acaba de chegar e a manter contacto. «Tenho muita sorte em ter encontrado este grupo incrivelmente simpático, curioso, empreendedor e brilhante. A quem quer que tenha dúvidas sobre o espírito dos Descobrimentos, tenho o gosto de dizer que está “alive and well!”, a conquistar NY de dentro para fora (e acredito que pelo resto do Mundo também). É preciso referir pelo menos a Ana Miranda, que organiza o imparável Arte Institute».

 

Um coração americano

«Dado que vivo em Nova Iorque e estudei na Carnegie Mellon University, tenho a sorte de estar rodeada de gente de todo o mundo, mas claro que uma grande parte da minha vida são pessoas americanas. Em particular, casei-me com um americano, George Davis, portanto tenho agora família (e coração) americano também».

 

Sonhos realizados

Joana é uma artista com objetivos diferentes, depende do momento, como explica: «Assim que um é conquistado, já mudou e cresceu – é uma espécie de doença. É engraçado pensar que já fiz algumas coisas fixes, participei em exposições fantásticas em várias cidades, em Nova Iorque, Chicago, Baltimore, LA e Lisboa.  Trabalhei (e trabalho) com museus e universidades que admiro imenso. Tenho várias obras de arte e ciência instaladas permanentemente nalguns!.. Viajei bastante e conheci montes de cidades por aqui. Suponho que estou a fazer o que sempre quis – mas só consigo focar nos projectos que ainda quero fazer, up and out!».

 

Um lugar por encontrar

Joana acredita que há lugar em Portugal, mas ainda não o encontrou. E apesar do atual panorama socioeconómico, Joana encontra-se a desenvolver alguns trabalhos por cá. «É engraçado que, no meio da crise atual, se calhar estou finalmente a encontrar (ou construir) esse lugar com dois grupos fantásticos. Tenho estado em contacto com o Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa (CFCUL), liderado pela Dra. Olga Pombo, que faz um trabalho extraordinário e descobri que há imensos paralelos entre o que faço e a atividade do grupo», conta.

Em Janeiro passado, Joana teve também a primeira exposição a solo em Lisboa com a Felisa Perez, na galeria EdgeArts. A exposição, Um, Nenhum e Cem Mil, reflectia sobre a efemeridade da memória e do corpo: «um ponto alto do projecto foi um painel com o Prof. Nuno Nabais e a Silvia di Marco do CFCUL e a Ana Pereira, neurocientista da Fundação Champalimaud onde se discutiu memória, repetição e multiplicação do ponto de vista da arte, ciência e filosofia (e muito mais)», refere Joana.

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Um coração luso. Sim. Mas só descobri quando me fui embora. Mas um coração múltiplo, também americano e um pouco lunático.

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