Sócrates – o filósofo, não o político – dizia que não era grego, mas sim um cidadão do mundo, filho desse cosmopolitismo clássico que não reconhece fronteiras. E é esse espírito universalista que hoje se pode facilmente identificar em muitos jovens portugueses. Já não é só a sobrevivência económica – mas também ela – que os leva a outras latitudes. Há também o encurtar de distâncias saído deste mundo globalizado, que os faz acreditar que a nossa casa está sempre ao alcance do nosso coração. João e Rita Monteiro são duas destas almas inquietas. Com 29 e 25 anos, respectivamente, deixaram para trás as suas vidas rotineiras em Lisboa e vieram para Cabo Verde, para ficar ao leme de uma escola de mergulho. Próxima paragem? Só o tempo o dirá.

 

É na cidade da Praia, sentados a uma pequena mesa de alumínio e a ouvir o ribombar das ondas mais abaixo nas rochas, que João nos faz uma sinopse da realidade, ou melhor, daquela que foi a realidade de ambos nos últimos anos.

Ele estava a meio de um curso superior na área do Desporto e ela do mestrado em Recursos Humanos. A proposta de um amigo comum acelerou uma decisão que ambos já tinham tomado: sair de Portugal e correr o mundo. Esse dia tinha agora chegado. Ready…Set…Go.

De início, o plano era ficar a gerir um escola de mergulho, mas quis o destino que a aventura fosse mais além, que os dois assumissem o rumo da escola e criassem a sua própria empresa. Ele já trabalhava há bastantes anos no mergulho, a sua paixão de sempre. «E porque não tentar?»

Hoje, os clientes são em número considerável, o clima é bom, as condições do mar excelentes e o pulsar da vida diária «completamente diferente do stress de uma cidade como Lisboa», afirma. «Apesar de estarmos numa cidade, parece uma aldeia em Portugal. Falamos com toda a gente e estamos sempre acompanhados. E além disso, tenho a vida que eu gosto, ou seja, passo a maior parte do meu tempo debaixo de água.»

 

O seu «escritório» tem muito pouco de convencional, e ainda menos de monótono. «Cada vez que mergulhamos, mesmo se for no mesmo local, encontramos sempre um cenário diferente, em constante movimento. Lá encontro todo o tipo de peixes, tubarões, raias. Há sempre algo novo para ver e aprender.»

Questionado sobre o tão afamado «choque cultural», diz que a proximidade entre os dois países vai muito além de uma língua e história comum. Mas as diferenças existem, umas mais visíveis que outras. «Talvez o que me chocou mais foi à chegada, quando vi as casas e os bairros muito cinzentos e muitos deles em más condições. Mas no dia seguinte, logo de manhã, estava a entrar no mar, o que me tranquilizou e me manteve cá até hoje.»

Acresce ainda o facto de a comunidade portuguesa em Cabo Verde e, mais especificamente, na Praia, ser bastante significativa. «Nós estamos em todo o lado», afirma sorridente. E são eles os seus maiores clientes. «Eu estou sempre a chatear e a dizer para virem. Temos muita gente do corpo diplomático a trabalhar cá, mas também temos vindo a receber cada vez mais cabo-verdianos, mesmo os que estavam de costas voltadas para o mar.» E os números continuam a subir.

 

Correr atrás da curiosidade

Não obstante a evolução favorável da empresa, «o objectivo é ficar em Cabo Verde mais uns dois anos e depois sair para outro lado», admite. Em respeito à equidade – e uma vez que a decisão de vir para o arquipélago foi um desejo seu –, agora é a vez de seguirem os sonhos de Rita.

«Ela sempre se sentiu atraída pela Ásia, em especial pelo Vietname, Laos ou Malásia, e é para lá que queremos ir. Por mim, a única coisa que peço é que seja perto do mar, porque queremos dar a volta ao mundo, mas sempre a trabalhar nas áreas que gostamos. O futuro é que nos dirá.»

«Aqui, o carro é da empresa, a casa é alugada e a única coisa que temos obrigatoriamente que levar é o cão, o Mikas.» Mochila e pouco mais.

Por enquanto, regressar a Portugal não é uma opção. «Temos lá casa e voltamos sempre no Natal, mas custa-nos bastante olhar e ver como está actualmente o nosso país. Temos amigos e família que estão a passar por tempos difíceis e isso não nos passa ao lado.»

Já a saudade, esse sentimento comum aos dois povos, acaba por ser um aspecto intrínseco e omnipresente desta condição de expatriado por vontade própria. No entanto, os paliativos existem. A visita periódica de amigo e familiares sempre ajuda a minimizar a dor e a dar força para novas aventuras, para novos recomeços. «Mais tarde, vamos certamente querer assentar e aí Portugal é claramente uma opção, até porque é lá que temos tudo. Família, amigos e até uma casa.»

 

Jacques Costeau e o fundo do mar

João diz que o apelo do mar não apareceu por influência familiar nem por nenhum acaso genético inexplicável. «Quando era miúdo, via os programas do Jacques Costeau e depois do filho dele, e ficava a pensar que era aquilo que eu queria. Um dia, comecei a juntar todos os meus trocos e tirei um curso de mergulho. A partir daí, nunca mais parei de trabalhar nesta área.» No que respeita à família, diz, meio a brincar, que não se lembra de alguém que saiba sequer nadar. «Eu bem lhes vou mostrando as filmagens que fazemos lá em baixo, mas eles só dizem que é muito bonito e que eu devo ter cuidado com os tubarões.»

Ao levantarmos da mesa e já de saída, lá vai dizendo que trabalhar das 9 h às 17 h num escritório «está fora de questão. Aqui, o meu escritório tem vista para o mar e se estiver cansado do que estou a fazer, visto o equipamento e vou dar um mergulho ali abaixo.»

Já dizem os médicos: não há nada como fazer aquilo que se gosta. Pelo vistos, ainda há quem o consiga.

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Jornalista romântico numa outra vida, diz que foi perdendo ao longo dos anos os "idealismos saloios" (como tantas vezes ouviu o pai dizer), mas não a atração pela palavra escrita. Colabora de forma esporádica com alguns projectos "saloios", mas escreve maioritariamente para a gaveta ou, neste caso, para o disco externo.

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