João Maria Marçal Grilo saiu de Portugal antes dos 20 anos, rumo à Escócia. Viveu as últimas duas décadas em Inglaterra, na Alemanha e alguns anos intercalados com visitas regulares à Índia. João tem 40 anos e vive no Sri Lanka desde 2011.

 

João lembra-se bem da despedida. «Despedi-me dos meus pais no aeroporto, em Lisboa, e não foi fácil. Apesar de ter viajado sozinho para fora em momentos anteriores, de alguma forma, quando lhes disse adeus, acenei a mão não só a eles, também a Portugal, mas acima de tudo a um período da minha vida que tinha terminado. Lembro-me da tristeza que se apoderou de mim enquanto olhava pela janela do avião a descolar. Só anos mais tarde me apercebi do que de realmente me tinha despedido.»

Completou a universidade em Aberdeen e em Londres onde, enquanto estudante de mestrado, fez alguns trabalhos que o ajudavam no sustento. «Servi cafés frios e bolos intragáveis no restaurante do Museu de História Natural e vendi roupa para recém-nascidos na Gap em Regent Street, esmagado todos os dias por multidões obcecadas por compras», recorda.

Na Alemanha, viveu em Munique onde aprendeu alemão no Goethe Institut. «Levantava-me todos os dias às 3:45 da manhã, rumo a um hotel de cinco estrelas onde oferecia pequenos-almoços a gente mal criada que espezinhava tudo o que lhe parecia insignificante. Mas as gorjetas e a falta de sono compensaram: juntei dinheiro suficiente para me pôr a caminho da América do Sul de mochila às costas, e mais tarde da Índia e Nepal», conta João.

 

Um enfermeiro depois dos 30 anos

Ao lado do rio Ganges, na Índia, João Marçal trabalhou como voluntário num hospital para sem abrigo e ensinou inglês numa escola para crianças de bairros de lata.

Depois dessa experiência, a volta à Europa obrigou-o a repensar o rumo profissional. «Voltei a estudar e tornei-me enfermeiro. Trabalhei em vários serviços de saúde mental em Londres, onde ganhei novas experiências e confiança em conviver com aqueles que são frequentemente esquecidos e ignorados por todos. Por agora, estou no Sri Lanka, onde vivo desde 2011. Tenho 40 anos, já parti o coração dezenas de vezes e sou um eterno sonhador, com uma comichão constante nos pés que me leva sempre a novos caminhos. Espero que nunca me passe.»

 

Concretizar-se em Portugal

«É difícil ter a certeza absoluta se o que eu consegui concretizar ao longo do tempo, se a forma como a minha vida se tem desenrolado, teria sido diferente se tivesse ficado em Portugal. Suponho que sim, mas ao mesmo tempo a geografia não nos define por completo ou dita a forma como atuamos sobre decisões. Estar fora em ambientes menos familiares, a diversidade do que encontrei, as opções a nível de estudos e carreira são elementos que claramente influenciaram e continuam a moldar o meu dia-a-dia e os projetos em que me meto. Mas a curiosidade, a iniciativa, a vontade de explorar e desenvolver pequenos projetos pessoais – nada teria sido possível, se, desde cedo, em Portugal, não tivesse tido dos meus pais o carinho e atenção incondicionais que recebi. Sem isso, duvido que alguma vez tivesse tido a confiança de voar para longe do ninho», admite João.

«Talvez se tivesse ficado em Portugal tivesse sido mais difícil voltar para a universidade como o fiz em Londres e começar uma nova carreira profissional totalmente diferente aos 30 anos. Mais do que um projeto, o que realmente pergunto a mim mesmo quando penso nesta questão é: se tivesse continuado em Portugal, teria ou não assumido ser gay, como o fiz cedo em Londres? Apesar de nem sempre ser fácil, tento viver a vida o mais fiel a mim mesmo. Mas estou consciente de que a distância de Lisboa, estar mais tempo na minha companhia, viver sozinho desde bastante cedo, a abertura de uma cidade como Londres e todas as amizades que fiz facilitaram muito o processo. De qualquer forma, e mais uma vez, este foi um passo que sem o apoio dos meus pais, família e amigos teria tido mais dificuldades em dar. Nos últimos 20 anos, as mudanças a este nível em Portugal têm sido muito positivas. Talvez se fosse hoje não precisasse de dar dois passos na Avenida de Roma para estar mais perto de quem eu sou.»

 

Os sonhos

«São tantos os projetos e sonhos que gostaria de realizar que nem vale a pena escrevê-los no papel. Este ano, fiz 40 anos e celebrei-os no topo dos Himalaias, em Cachemira, na fronteira entre a Índia, o Tibete (ocupado pela China) e o Paquistão. A felicidade de ter chegado aos 40 anos não para. Sinto-me grato por tudo o que tenho vivido até agora e espero poder continuar a fazer muito mais.»

 

Depois do Sri Lanka, o regresso a Londres

«Neste momento, vivo no Sri Lanka, onde estou há quase ano e meio a trabalhar como enfermeiro consultor para a Lanka Alzheimer’s Foundation, através da organização britânica VSO – Voluntary Service Overseas. O meu contracto termina em Maio e os planos são, por agora, voltar a Londres. Tenho algumas ideias em mente: criar com dois outros amigos uma ONG ligada a esta para a qual trabalho neste momento aqui no Ceilão, concentrada em reduzir o risco de pobreza a que pacientes com Alzheimer e as suas famílias estão expostos. Não posso perder a ligação ao Sudoeste asiático, depois de tantas viagens ao longo dos anos à Índia, e deste tempo de vida no Sri Lanka, um país que por debaixo de uma imagem de praias paradisíacas bordeadas de coqueiros esconde uma história recente de violência e repressão que deixou sequelas profundas na sua população.»

 

O bom e o menos bom

«Mais do que histórias, consigo lembrar-me de momentos em que me senti extremamente feliz e de outros mais tristes e vazios. O Sri Lanka é um país muito sofrido. Escutar as histórias de violência a que tanta gente foi submetida, conviver com pessoas que sofreram tanto e neste momento tentam viver uma vida o mais normal possível é algo que não posso esquecer. As marcas de muitos são profundas, tanto a nível físico como psicológico. Entristece-me muito ouvir e ver as sequelas do passado, mas acima de tudo aperceber-me que o Sri Lanka continua a ser um país governado por uma elite corrupta, violenta e que reina impondo o medo sobre a sua população. É uma ilha que não pode respirar.»

 

Sri Lankan mama, o título de sir e a dança de Bollywood

«Os momentos bons passam-se quase todos os dias, com aqueles com que consegui construir amizades e mantenho uma relação estreita apesar das diferenças linguísticas e culturais que podem trazer tantos obstáculos. A senhora de 60 anos que insiste em limpar-me a casa e trazer-me fruta todas as semanas e que decidiu adoptar-me – “I’m your Sri Lankan mama”, diz ela. O guarda do escritório, que se levanta da cadeira em continência sempre que eu passo e insiste em chamar-me sir – mesmo já tendo eu explicado 100 vezes que me chamo João – e que corre para a minha secretaria a fazer grandes gestos sempre que há uma cobra ou um macaco no jardim, porque sabe que eu gosto de ver e fotografar. O meu professor de música e dança de Bollywood, que com outros amigos de Inglaterra vejo todas as terças à noite para uma hora inteira de pulos ao som de música estridente indiana da qual não entendo uma palavra, mas que adoro ouvir. Etc., etc., etc.!»

 

Um papa-moscas asiático e um cão vadio: a alegria de todos os dias

«Os meus dois mais fiéis companheiros aqui no Sri Lanka e que me alegram todos os dias são, no entanto, dois animais: um papa-moscas asiático, com uma pluma negra na cabeça e uma cauda branca enorme, que canta num galho ao lado do quarto da minha janela, quase todas as manhãs, para me acordar, e um cão vadio, que vive na minha rua, e que todas as tardes, quando me vê ao virar da esquina, corre para mim, e me acompanha até casa – onde obviamente tem umas bolachas à sua espera. Fica, pelo menos, três horas comigo, deitado ao meu lado enquanto escrevo no computador, e quando está farto põe a cabeça no meu colo, em sinal de querer voltar à rua. Ambos bons amigalhaços.»

 

Mais do que um emigrante, um viajante passageiro

«Depende onde estou, mas suponho que não tendo a sentir-me como emigrante no sentido em que normalmente imaginamos. Em Inglaterra, sempre me senti em casa, desde os dias em que por lá passava em pequeno. Tenho dupla nacionalidade, portuguesa e britânica, em parte porque no Reino Unido nunca me senti de fora. Na Ásia, mesmo que não quisesse, estou constantemente a ser lembrado que venho do outro lado do mundo, mas mesmo assim, sinto-me mais um viajante passageiro do que um emigrante propriamente dito.»

 

Sem luxos: o único português no Sri Lanka

«A vida de voluntário é, em geral, feita de poucos luxos, ou pelo menos com um número mais reduzido de comodidades às quais tenho acesso em Lisboa ou Londres. Mas mesmo assim, ou melhor, visto de uma perspectiva diferente, os dias por aqui nunca são iguais, é difícil aborrecer-me. Dou-me com outros voluntários que trabalham na mesma organização e que estão aqui por motivos semelhantes aos meus: na maioria britânicos, holandeses e canadianos, e com muitos cingaleses e tâmil, com quem trabalho e convivo todos os dias.»

«O meu dia começa normalmente às 7:00 horas. Depois de engolir um copo de sumo de laranja e comer meia papaia com iogurte, aventuro-me pelas ruas de Colombo, enfiado num autocarro dos anos 50 a cair de podre, sem portas, esborrachado entre pessoas que olham para mim como se eu fosse um gigante, a bater com a cabeça no tecto. Acordo a suar, passo o dia a suar, vou para a cama a suar.»

«A humidade e os mosquitos são verdadeiramente insuportáveis. Por isso, o final do dia é muitas vezes passado com amigos ao lado do mar, no jardim do hotel mais emblemático de Colombo, Galle Face, a tomar um sumo ou gin & tonic. Para a cama vai-se cedo. Portugueses, nunca conheci ou encontrei nenhum por estas bandas.»

 

Sri Lanka: curiosidades

«Sempre que entro numa loja, sento-me num táxi, espero pelo autocarro ou vou ao supermercado alguém me pergunta de onde sou. E em raras exceções, seguem-se sempre duas ou três perguntas clássicas: quantos anos tem? Está casado? Não?!?!? Porquê??»

«O casamento e o ato de construir uma família assume uma importância fundamental na sociedade cingalesa e tamil e em todo o subcontinente indiano. Os casamentos arranjados pelas famílias são a maioria. Apesar de oficialmente ter sido abolido, o sistema de castas também impera e os direitos das mulheres são constantemente esquecidos ou ignorados. Todo o tecido social é construído com base em valores muito diferentes daqueles aos quais estamos habituados no Ocidente.»

«Mas nem tudo é negativo. Impressiona-me o valor da família e a dedicação que muitos filhos continuam a ter pelos pais e as gerações mais velhas, detalhes que claramente têm sido perdidos em Portugal e em muitas outras partes da Europa.»

 

Portugal e as saudades

«Tenho saudades de S. Pedro de Moel e de estar sentado na varanda a ver os esquilos a subir e descer às árvores no jardim, e do pinhal de Leiria. De passear em Lisboa e ouvir os elétricos. De pães de deus, daqueles fofos que quando se dá uma trinca o açúcar em pó salta todo para o nariz. E claro, da minha família e dos meus amigos, uns quantos de há muito, muito tempo, sempre fieis e próximos de mim apesar da distância.»

 

Seguir os sonhos

«Se fiz alguma proposta a mim próprio foi tentar viver uma vida em que conseguisse seguir os meus sonhos, a minha curiosidade pelo mundo e, de alguma forma, a minha vontade em fazer uma pequena diferença nas vidas de outras pessoas que não tiveram a mesma sorte e os mesmos privilégios que eu. Gostaria de pensar que posso ter feito alguma diferença, mas não estou numa posição para o dizer. De qualquer forma, continuo a acreditar que uma gota no oceano é pequena, mas que juntamente com muitas outras pode formar algo maior, e gerar mudança. Isso dá-me coragem para pensar em novos desafios e seguir em frente.»

 

Um regresso pouco desejado

«Penso que Portugal, apesar de estar longe de ser um país perfeito, é um canto do mundo onde há liberdade de expressão e onde, apesar de se estar sujeito a criticas, podemos ser nós próprios sem que nada de preocupante nos possa acontecer. Por viver aqui, mais do que nunca, aprecio o luxo de ter nascido num país livre. Por isso, acho que sim, poderia ter um lugar em Portugal.»

«Mas hoje em dia identifico-me mais com Inglaterra do que com Portugal. Sinto-me com mais espaço para sonhar e concretizar planos em Londres do que em Lisboa. A ideia de trabalhar em Portugal ocorre-me muito poucas vezes. Por agora, Portugal continua a ser um país que adoro visitar e passar temporadas, o meu berço, mas não o local onde imagino os meus sonhos de adulto a tornarem-se realidade.»

«Acho que todos nós somos feitos de experiências, somos em parte resultado do que vivemos e com quem nos relacionamos. Viver no Sri Lanka tem-me ajudado, com certeza, a explorar novas formas de estar na vida e de sentir o dia a dia. É impressionante aperceber-me que estamos sempre a aprender, nunca temos todas as respostas – aliás, quanto mais vemos e perguntamos, mais questões parecem surgir do nada, o que torna tudo mais excitante. Espero, por isso, estar sempre em constante mudança.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Sou um português que adora onde nasceu, mas para quem as fronteiras que pouco mudaram desde o século xii sempre pareceram pequenas e claustrofóbicas. Não sou patriótico ferrenho. Mas toda a minha família, de ambos os lados, vem da Beira interior, a terra de onde os Lusitanos lutaram ferozmente os Romanos, onde os Visigodos se estabeleceram, onde os Árabes acamparam, onde os templários montaram cruzadas, terras que os Castelhanos atacaram e Napoleão arrasou. Impossível negar a genética lusa que corre em mim. Por isso, o coração que por aqui bate, para o bem e para o mal, será sempre lusitano, esteja onde estiver.

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