José Castro Caldas já visitou mais de 35 países. Mudou-se para a Argentina em 2010. Depois, viajou pela América do Sul para rodar o documentário RUTZ (ver no fim do artigo), com o realizador António Faria, e passou pelo Paraguai, Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia. José Castro Caldas é arquiteto e hoje vive na Amazónia.

 

José Castro Caldas sempre teve o objetivo de viver fora de Portugal, durante os estudos em Arquitetura não teve oportunidade de fazer Erasmus, mas quando terminou o curso a decisão de sair do país já estava tomada. Depois de resolvida toda a burocracia na ordem dos arquitetos, em maio de 2010 José rumou até à América do Sul. Argentina era o seu destino. «Trabalhei nove meses num escritório de arquitetura em Buenos Aires. Depois, com o realizador António Faria, viajámos e documentámos uma viagem pela América do Sul, com passagem pela Argentina, Paraguai, Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia», relata o arquiteto.

Depois dessa aventura, José Castro Caldas continuou a viajar por mais algum tempo pela «fabulosa» Colômbia, rumo à Amazónia. «Voei até Letícia (cidade colombiana na tripla fronteira em plena Amazónia), apanhei um barco de uma semana através do rio Solimões até Manaus, capital do estado do Amazonas, Brasil», conta.

Foi um programa de voluntariado que o levou até à Amazónia. O programa IPP Amazónia – Raízes da Floresta era uma parceria entre a ONG CISV e a Fundação Amazónia Sustentável. Contudo, quando chegou à Amazónia, José Castro Caldas teve outras ideias.

«No primeiro momento em que cheguei a essa comunidade no meio da Amazónia, a minha grande motivação era construir uma casa. Não fazendo parte do programa para o qual ali estava, encetei contactos com a comunidade e a ONG responsável por essas comunidades ribeirinhas amazonenses, a FAS (Fundação Amazonas Sustentável), de forma a conseguir contribuir com as minhas habilitações académicas para melhorias na vida da comunidade», conta José.

A FAS disponibiliza uma bolsa para construções comunitárias de forma a gerar renda própria para prevenir o desmatamento na Amazónia. «A comunidade do Tumbira já tinha decidido e planeado uma casa de artesanato. Eu propus fazer o projeto e ajudar na construção. A comunidade aceitou, a FAS apoiou-me. Fiquei cinco meses a viver na comunidade do Tumbira, a construir a Casa de Artesanato e Museu José Garrido. Um projeto feito por locais para gerar renda para a comunidade. Tentei, por se tratar de um edifício comunitário, fazer disso o seu conceito e envolver toda a comunidade na construção. Os homens com grande experiência e talento em carpintaria e as mulheres nas técnicas tradicionais indígenas de tapeçaria que quis incluir na construção», conta José Castro Caldas. Para o português, «a Amazónia é um sítio ímpar no mundo».

Desde a conclusão da sua formação, José tinha o objetivo de sair de Portugal. «Sabia que não me identificava com o formato de trabalhar num escritório de outra pessoa atrás de um computador durante oito, dez, 12 ou mais horas por dia.» José acreditava que «deveria haver uma forma mais direta de exercer a profissão e se possível mais significativa». Deste modo, a saída de Portugal permitiu a José Castro Caldas a realização de alguns dos seus objetivos: a construção de uma casa para a comunidade do Tumbira e a realização do documentário RUTZ.

Na lista dos desejos, José conta que ainda há que fazer. «Gostava de completar esta história na Amazónia, para que não fique como um capítulo solto no meu percurso. É por isso que vou voltar e construir, agora noutra comunidade, uma pousada.»

 

O bom e o menos bom

José Castro Caldas refere que esta experiência foi de «incrível enriquecimento». A nível profissional, considera que aprendeu muito. A nível pessoal, José diz ser «impossível quantificar ou qualificar a experiência».

«Durante seis meses vivi em plena floresta, com eletricidade duas vezes por dia, numa comunidade com não mais que dez famílias, que vivem lá desde sempre e dali saem pouco… É uma outra cultura que não tem as referências que nós temos. Teve tanto de enriquecedor como de difícil.»

José Castro Caldas desenhou e construiu. «Foi mental e fisicamente muito puxado e desafiante. Era um projeto diferente do que estavam habituados, eram pessoas com bases, educações, noções… Tudo diferente de mim e do que estava habituado. Nada me poderia preparar ou saber o que seria se não tivesse passado por isso. É uma experiência que perdurará e será um dos meus mais valiosos patrimónios de recordações. Não sei de que maneira me poderá ser útil, mas também não me interessa, não sei em que melhorei ou piorei. Mas sei que foi, sem dúvida nenhuma, a experiência mais significativa da minha vida.»

 

Um emigrante num mundo global

«Sou um emigrante que procuro aquilo que me dá prazer fazer. A minha vida está diretamente associada à minha formação académica. Só serei feliz e completo se gostar da arquitetura e dos projetos em que estiver envolvido. Adoro Lisboa, a cidade onde nasci e gostaria de viver. Mas também acredito num mundo cada vez mais global. Adoro Lisboa, mas não sinto que estarei em dívida se estiver noutro sítio do mundo a fazer aquilo que me dá prazer. As fronteiras fomos nós que as inventámos. A sociedade do futuro irá quebrá-las (tema do documentário em que acredito verdadeiramente).»

 

Portugal e as saudades

«Tenho saudades daquilo a que nos habituamos. A comida, os amigos que demoramos uma vida a reunir à nossa volta, a família, as especificidades que nos caracterizam enquanto portugueses e a que nos habituámos. Esses detalhes depois fazem-nos falta e é por isso que procuramos outros portugueses quando estamos fora.»

 

Em termos profissionais ainda há mais por alcançar

Apesar de satisfeito com os objetivos que conseguiu alcançar, José Castro Caldas ambiciona algo mais. «É essencial ser ambicioso, no meu caso não necessariamente na procura de poder ou riqueza, mas ambição de tirar o melhor partido das minhas capacidades e daquilo que consigo fazer. Projetos que, de facto, sejam significativos. Uma consequência, real e de melhoria para outros, do nosso esforço. Uma partilha. Eu não serei o mesmo depois de construir a casa na Amazónia, mas sei que também tive um muito positivo impacto naquela comunidade e isso é o maior objetivo que posso conseguir duma experiência.»

 

Um regresso a Portugal não definido

«O país e a Europa atravessam um problema financeiro que induziu num autismo económico em que mais nada se fala que não da crise. A minha área está longe de surgir como solução e é até associada a despesa. O dinheiro não desapareceu, mas quem o tem não o investe tão facilmente. Enquanto esse não for ultrapassado será muito complicado reunir boas condições para trabalhar em Portugal. A minha fuga não é do país, a minha fuga é na procura de trabalho desafiante e motivador. Se encontrar projetos interessantes em Portugal, óbvio que fico.»

 

José Castro Caldas, uma pessoa diferente

«Já o disse antes, mas acrescento que só o simples facto de mudar de país, de cultura, do conforto de uma rotina… Ir para o estrangeiro é um processo muito importante de amadurecimento, experiência de vida. Significa sempre outros desafios, outro quotidiano em que tudo é novo. Põe-nos à prova, testa-nos e à nossa capacidade de desenrasque ou mesmo sobrevivência (mesmo que não seja de extremo). Temos que compreender as diferenças e respeitá-las, aprender novos hábitos e esse é um processo muito interessante e, acredito mesmo, muito importante.»

 

Uma frase para definir esta experiência

«É uma experiência demasiado complexa e intensa que, tentar resumi-la, seria sempre reduzir a sua verdadeira grandeza. Sinto que podia ter 80 anos e ser já uma história para contar aos netos. Mas ainda tenho 30 e se calhar ainda nem começou… Foi muito importante, e poderá ser ainda mais. Acredito que há tempo para as coisas, sempre tive a sorte de saber o que quero fazer e qual é a minha área de interesse. E com isso junto uma ambição que vem da responsabilidade dos privilégios a que tive acesso. Não de dinheiro, que nunca tive regalias, mas de uma educação erudita que me proporcionou desde sempre acesso a bases culturais. Penso que pode ser exemplo de ir à procura, de força de vontade para conseguir alcançar o que se deseja. Estas oportunidades surgiram, mas também fiz para que aparecessem. Faço agora o que sei que não vou poder fazer quando for mais velho, se calhar chegarei a um tempo em que quero é estar quieto e numa rotina confortável. Não faço ideia. Agora, sinto-me preparado e com motivação para o futuro próximo e continuar o que fiz recentemente. O futuro é demasiado incerto, logo se vê. Mas esta experiência pelo menos provou-me que se realmente queremos uma coisa temos que a ir buscar e saber aproveitar quando surgir à frente! Não defendo o mesmo para todos, cada um sabe de si e não os julgo por pensar de maneira diferente. Eu encontrei a fórmula que me completa. Enquanto der, vou fazendo para que surjam mais oportunidades.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Adoro Portugal e adoro divulgar o meu país e os nossos costumes. Não penso que Portugal é melhor ou pior que outros sítios. É onde me sinto em casa, por isso, para mim, é especial! Tenho pena que haja tanto desânimo, atravessamos um mau período, mas como disse Sampaio Nóvoa no discurso de 10 de junho, “Portugal tem de se organizar dentro de si, não para se fechar, mas para se abrir, para alcançar uma presença forte fora de si. Não conseguiremos ser alguém na Europa e no mundo se formos ninguém em nós.” Temos tanto com o qual nos sentirmos valorizados. Sair dá-nos claramente essa perspetiva.

Saiba Mais

www.josecastrocaldas.com

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Mara Alves
É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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