Apresentador, escritor e guionista, Luís Filipe Borges , nasceu em Angra do Heroísmo, nos Açores. A 1500 quilómetros de casa, o apresentador do 5 para a meia-noite diz sentir-se por vezes emigrante no próprio país.

 

Alguma vez pensaste em emigrar?

Já! Várias vezes! Tenho imensos amigos que o fizeram, e admiro muito as pessoas que o fazem. Acho que é preciso uma grande dose de coragem. Só não o fiz, porque o meu ramo profissional é este! Noutro país qualquer teria de começar tudo do zero, sem a mínima garantia de ter alguma hipótese de me safar. Mas mantenho a fantasia de viver noutro pais, noutra altura da minha vida, só que seria um tipo de imigração diferente, muito menos corajoso porque não seria por necessidade.

 

Se isso acontecesse, para onde seria?

Espanha! Em Barcelona, Madrid ou Sevilha

 

Por alguma razão em especial?

Porque eu adoro Espanha! Acho os espanhóis muito parecidos com os portugueses, com talvez uma pequena vantagem sobre nós, que é terem orgulho sobre as suas coisas e puxarem por elas.

 

Quando saíste dos Açores para Lisboa, sentiste-te de alguma forma emigrante?

Sem dúvida alguma! É uma óptima pergunta porque eu costumo pensar nisso várias vezes  e costumo falar disso com amigos. Embora seja o mesmo país, não deixa de haver de facto uma conjunção de factores muito semelhante aqueles que um emigrante sente.

 

Há alguma história que queiras destacar, que tenhas sentido na pele?

Sim. Basta o simples facto de ires viver para um sítio que fica a 1500 quilómetros de distância da tua casa, à qual não podes voltar todos os fins-de-semana, porque as viagens de avião são estupidamente caras, embora seja dentro do teu país, e portanto,nem q seja por isso, eu sei o que é ter de construir a vida num local onde me sinto estranho. E depois como quando cá cheguei tinha algum sotaque, também é um pouco como os brasileiros se devem sentir por exemplo, é a mesma língua mas as pessoas percebem logo que não és daqui. E até, sem grandes dramas e exageros, se pode falar algum preconceito. Há um certo colectivo de portugueses que olha para os portuguesesaçorianos e madeirenses como cidadãos de segunda e podia encaixar aqui os alentejanos também. Há umas piadolas fáceis que são feitas, e que eu não sei se são uma característica nossa ou se é só uma estupidez natural da condição humana… Acredito mais nessa segunda hipótese.

 

Por seres tão simples e humilde sentiste desconfiança por causa disso?

Eu acho que há pessoas que olham para ti como um saloio! Acho que esta frase diz tudo, “Ai, vem la da terrinha”, ironizam muito com coisas de elevado quilate intelectual, como “Quando é que o computador lá chegou, e o carro e tal…”, mas isto são coisas que embora sejam uma xenofobiazita, que eu não quero exagerar, porque não me quero comparar com pessoas que passaram por verdadeiras situações de sofrimento, verdadeiros imigrantes, ou verdadeiras vítimas de racismo. O que estou a dizer não tem comparação possível mas não deixa de ser demonstrativo de uma certa mentalidade mesquinha que existe em algumas pessoas que basicamente faz com que nós sejamos obrigados a enrijecer a nossa epiderme e ter de lutar um bocadinho mais para conseguirmos os nossos objectivos.

 

Tens lutado, cá em Portugal, pela tua ocupação e pelo teu trabalho, que são muitos.. Desde ser guionista, argumentista, escritor… Tu estás feliz com o reconhecimento que os portugueses te dão ou alguma vez neste período da tua careira, sentiste que estavas a ser injustiçado e que noutro país não seria assim? 

Não vou dizer que não! Porque eu nunca tive grandes expectativas. Sou pessimista por natureza e sempre que eu conto a alguém, a reacção é “ah a sério?! Mas tu não devias ser!”, mas eu gosto de ser pessimista! É uma característica minha. Acho que quando tens uma determinada característica que é muito marcante em ti não podes simplesmente carregar no interruptor mudá-la.

E a verdade é que o pessimismo tem-me dado sempre jeito. Eu preparo-me sempre para o pior, e depois sou surpreendido, felizmente muitas vezes, quando o pior não acontece. Portanto, eu nunca criei ambições desmedidas nem grandes ilusões, sou profundamente realizado no meu trabalho, sou feliz com aquilo que faço. Se já houve em momentos específicos uma crítica ou outra, para dar exemplos muito prosaicos, que eu achei injustas, já! Mas também não me custa nada dizer o contrário, também já houve criticas encomiásticas que eu acho que não merecia. O mais importante é tu estares feliz com aquilo que fazes e agradares as pessoas à tua volta. Para dar o exemplo do programa, mal acaba o directo eu quero é saber a opinião da equipa. Se eu sinto que eles estãofelizes com o que eu fiz, porque estive a dar a cara por eles durante 70 minutos, se eles se sentirem bem, eu sinto-me perfeitamente realizado.

Aqui, no contexto do 5 para a meia- noite, sou o único que se está nas tintas, e é essa mesma a expressão, para o Facebook ! Eu tenho o maior orgulho em que as pessoas me sigam e isso, eu preocupo-me com o meu canto de Facebook e com as minhas páginas, que fui obrigado a ter por motivos profissionais e não me arrependo, acho que são uma excelente ferramenta de trabalho. Mas eu nunca me googlei na vida, eu não quero saber… Porque há uma característica que nós, seres humanos, temos, que esta sim éuniversal, em que mil pessoas dizem bem de ti, mas tu vais-te lembrar é daquela que diz mal! É isso que te fica guardado. E eu tenho mais coisas para fazer, prazos para cumprir,prefiro “olhos que não vêem, coração que não sente”. Eu não quero saber o que o Doutor Miguel Ramalho e o Arménio bate-chapas têm a dizer sobre o programa, não me interessa, estou já a trabalhar no próximo. Isto pode ser interpretado como profundamente arrogante, mas espero ter-me explicado bem, é uma questão de sanidade mental.

 

Portugal é uma comédia ou tem de ser levado como uma comédia?

Portugal é uma comédia negra, que é o melhor tipo de comédia que há! A comédia quetem sempre um fundo de dor por trás dela. Embora eu admire imensos registos em comédia e sou perfeitamente capaz de passar uma tarde de sábado á gargalhada com um filme do Jim Carrey, dos anos 90, que é feito à base de truques físicos e caretas. A comedia que eu mais admiro é a comédia que acaba por ser tragédia maquilhada e portanto Portugal, que é de facto em todo o meu trabalho a minha maior fonte de inspiração, é uma fonte de comedia sem dúvida nenhuma, mas uma comédia com dor,porque eu sou português, eu amo o meu país, porque os problemas tocam-me a mim e tocam a todos. O que eu acho que o humor desempenha enquanto ferramenta social, éuma espécie de paliativo, de analgésico que nos permite continuar o quotidiano sem ceder á tentação de cortar o pulso. Basicamente, acho que a comédia tem essa responsabilidade social. Tirar os poderosos do pedestal, nem que seja por uns momentos, tocar na ferida, mas nunca deixar de nos entreter. Gostaria menos se o meu trabalho fosse alienação pura, ou seja se evitasse os assuntos que doem. Aí, dormiria menos feliz, menos tranquilo com a minha consciência.

 

Há alguma coisa na tua vida que tu gostasses de realizar, que sabes neste momento em Portugal não ser possível?

Há várias coisas na minha vida que eu gostava de realizar e que são impossíveis, mas a culpa não é de Portugal, a culpa é minha. Com 36 anos, já não vou a tempo de assinar contrato com o Benfica, já não vou a tempo de ter uma banda decente, que me permita realizar a fantasia de ser músico. Fora de brincadeiras, o meu maior sonho profissional é escrever e realizar uma longa-metragem. Não vejo isso como impossível mas no estado actual do país, onde nunca existiu indústria de cinema, e onde os apoios à cultura são cada vez mais miseráveis e representam menos de 1% do orçamento do estado, quando a área da cultura representa mais de 3% do PIB nacional todos os anos, é profundamente incompreensível a situação. Um país onde se está a fazer com sorte uma dúzia de filmes por ano, torna-se cada vez mais difícil o meu ser um deles. Portanto, eu não desisto do sonho mas as probabilidades são cada vez menores, de acontecer agora ou nos próximos tempos por cá.

 

O que é que te inspirou até chegares aqui e o que é que te continua a inspirar?

Para chegar aqui, o que me inspirou para já, foram duas coisas. Os meus amigos, que é um lado profundamente pessoal , e por outro lado as minhas referências de adolescente que são grandes comunicadores. Os meus amigos primeiro, inspiraram-me porque ironicamente eu era o único do grupo que não queria vir para cá. Estava muito feliz lána ilha, e imaginava-me a continuar na ilha. E vim porque os meus amigos vieram, tão simples quanto isso. Eu não queria ser o único que não vinha e não podia estar afastado deles. Eles deram-me muita força em momentos decisivos. Por outro lado, eu era um rapaz profundamente tímido e admirava imenso comunicadores como o Herman e o Raul Solnado. Nos Estados Unidos, Conan O’brien, com quem eu até tenho um percurso muito parecido, salvaguardando as devidas e milionárias distâncias. É um tipo que se licenciou numa faculdade de prestígio, podia ter sido um doutor, começou a trabalhar como argumentista e a oportunidade de fazer televisão á frente das câmarassurge de forma perfeitamente mirabolante, portanto, identifico-me com várias fases do percurso dele. Eu descobri, que poderia, basicamente, dominar a minha timidez comunicando através de uma câmara. Primeiro descobri isso através das palavras, que podia chegar a um público grande.

 

E escolheste direito também por isso, para através das palavras poderes dominar essa timidez?

Não! Eu fui para direito porque queria ser actor e achava que direito era muito parecido. Quando os meus pais me disseram “não” à ideia de eu ir para o conservatório, eu, muitoestupidamente, achava que ser advogado era a coisa mais parecida que havia. Porque eu era e sou espectador assíduo das séries americanas de advogados, e via aquele momento clímax das alegações finais como um monólogo de teatro. Porque um advogado é uma personagem sozinha com o seu texto, perante jurados, que no fundo são uma plateia. Qual não foi o meu susto quando descobri, ao fim de pouco tempo na faculdade de direito, que em Portugal o sistema é totalmente diferente. Só que fui ficando, apaixonei-me por lisboa, apaixonei-me por uma pessoa, o que ajuda, fiz amigos novos, tudo isso colocou em segundo plano as minhas angústias existenciais. O que eu descobri,primeiro através das palavras e depois quando passei a ter a câmara á frente foi que podia continuar a ser tímido mas deixar de ser introvertido e passar a ser extrovertido. Porque, relativamente sozinho, conseguia comunicar com imensa gente. Mantinha-me refugiado no meu casulo mas conseguia chegar a muitas pessoas, o que te permite estar sozinho mas não sentir solidão. Hoje, que sinto que já consegui qualquer coisa e queestou muito orgulhoso e feliz com a vida que tive até aqui, o que me continua a inspirar,para fazer um pandã com algo que já falei antes, é o fazer bem pela gente que trabalha comigo, fazer com que eles se sintam orgulhosos de mim. Depois, inspira-me também o feedback que se tem das pessoas, que vai desde o mais prosaico ao mais normal mas super agradável, de tirar uma fotografia com alguém ou de alguém te ir pedir um autografo até ás coisas profundamente emocionais, como uma historia que me aconteceu há uns anos e que eu gosto sempre de apontar como exemplo máximo. Foi um dia que eu estava num restaurante no bairro alto, numa grande galhofa a jantar com uma data de amigos e de repente fui ao balcão pedir qualquer coisa, e o rapaz que estava atrás do balcão, que tinha estado sempre digníssimo, se apresenta como dono de restaurante, eu dei-lhe os parabéns, estávamos a gostar imenso, e ele mantendo uma absoluta dignidade diz “ olhe isto parece o destino, porque eu não o conheço, e penso que é a primeira vez que vem ao meu restaurante, mas eu queria dizer-lhe uma coisa, eu perdi o meu companheiro há um mês, morreu de complicações resultantes da SIDA e durante a sua fase terminal a única coisa com que ele se ria era com A Revolta dos Pasteis de Nata!  Fazia questão que eu gravasse e que eu lhe mostrasse.”. E eu passei de, literalmente, gargalhada obscena entre os meus amigos a ter lágrimas a escorrer-me. Eu só disse ao rapaz, eu nem sei o que te hei-de dizer, porque acho que é a coisa mais bonita que já ouvi. Momentos como este marcam-te para o resto da vida e claramente inspiram-te porque eu lembro-me de perceber nesse dia que aquilo que nós fazemos é mais importante do que aquilo que nos próprios podemos imaginar. E que poder tocar alguém desta forma, poder ser útil a alguém desta maneira, é extraordinariamente enriquecedor e fez-me ganhar todo um novo respeito pela minha área de trabalho. Portanto, eu sinto, embora muita gente pense, e eu até acho normal, que um gajo que é comediante está sempre feliz e não conseguem imaginar que a pessoa tenha momentos maus, e acham que que nós chegamos aqui quando nos apetece, ligamos a câmara e pronto, que estamos sempre prontos, que isto não dá trabalho nenhum, que não se escrevem textos, que não se decora, que não se pesquisa sobre convidados… Históriascomo esta que me aconteceu neste restaurante fizeram-me relativizar totalmente esse tipo de coisinhas de mágoa que antes me perturbavam.

Eu lembro-me, de há uma data de anos, encontrar um antigo colega de direito na rua. Na altura trabalhava nas produções fictícias, empresa em que o business é o humor, e ele aparece de fato e gravata porque estava a estagiar num sitio qualquer, e ele perguntou-me se estava tudo bem, “estou óptimo! E tu tás a fazer o quê?”-respondi “ Estou no escritório assim e assado e tu? E eu disse-lhe que estava muito bem nas produções fictícias ,que estava a trabalhar “nisto e naquilo”. E ganhava bastante bem, devo dizer, tenho a certeza absoluta, não que isto seja muito importante, mas ganhava mais do que o senhor doutor que estava à minha frente, até porque ele estava em fase de estágio,portanto se ele recebesse alguma coisa já não era nada mau! Eu estava-lhe a dizer, produções fictícias isto e aquilo e ele “Sim, sim.. E trabalho?” Mas hoje em dia já não me preocupo com esse tipo de preconceito.

 

Quais são os teus projectos para o futuro?

Espero continuar aquilo que faço, porque adoro. Consigo seguir há muitos anos um conselho do meu avô paterno que era agricultor, daqueles que acorda às cinco da manhã, vai para a terra e tem as mãos calejadas. Ele deu-me um conselho, quando fiz 7 anos, que eu nunca mais me esqueci, “Arranja uma coisa que gostes de fazer e nunca mais trabalhes na vida”, vim a descobrir só muito recentemente que é inspirado num pensamento de Confúcio, o que ainda me fez ficar mais abismado com o meu avô, e é isso q eu sinto, eu trabalho imenso mas eu nunca olho para o meu trabalho como um emprego. Portanto, o que eu queria este ano era continuar o 5, continuar a dar aulas de escrita criativa, continuar a escrever, e dentro da parte da escrita, conseguir um romance, conseguir escrever e publicar um romance. E, já agora, voltar a fazer um programa que eu adorei e que foi o projecto da minha vida, um programa chamado Conta-me História, que eu fiz o ano passado e que há fortes hipóteses de voltar a ser feito outra vez e que espero que aconteça.

 

Alguma vez pensas regressar á tua terra natal ou fazer alguma coisa lá?

Montes de vezes! Eu gostava muito que a longa-metragem tivesse uma boa parte passada lá, é uma forma de poder homenagear a minha terra. Viver lá, infelizmente, será muito improvável nos próximos anos, porque é cá que estão as oportunidades de trabalho na minha área, mas imagino muito, quando penso no meu futuro longínquo, uma espécie de anos dourados, dividido entre um cantinho simpático em Espanha e a minha casa açoriana, a escrever romances de preferência.

 

Que tipo de português te defines? És um coração Luso?

Sim! Acho que sou, Portugal é a principal fonte do meu trabalho desde sempre, e eu nãome apercebi disso imediatamente. Mas o alvo principal do meu trabalho, alvo no bom sentido porque eu acho que só nos podemos dedicar tanto a uma coisa mesmo que seja no sentido crítico se a amarmos profundamente, foi sempre Portugal, a mentalidade portuguesa, as ideocracias portuguesas, a história de Portugal, portanto, acho que me encaixo perfeitamente no teu projecto e digo isto com muito orgulho

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Portugal é a principal fonte do meu trabalho (…)a mentalidade portuguesa, as ideocracias portuguesas, a história de Portugal, portanto, acho que me encaixo perfeitamente no teu projecto e digo isto com muito orgulho.

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Mara Alves

É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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