Tudo começou no início de 2005, quando Maria Palha decidiu abdicar de um emprego seguro, para se aventurar em África, mais propriamente, em Moçambique. «Eu trabalhava há alguns meses numa empresa de recursos humanos a fazer recrutamento, mas não estava feliz. Na altura, recebi uma proposta contratual bastante boa e efetiva. Entrei em pânico! Nessa noite, em casa, eu tinha um globo pequenino e rodei-o, apontei o dedo e calhou Moçambique. Anunciei na empresa que não poderia aceitar a proposta e no espaço de três meses estava a aterrar em Moçambique», conta esta psicóloga que se considera uma emigrante profissional.

 

Porém, antes de se firmar nessa aventura, Maria já havia realizado diversas tentativas para conseguir fazer trabalho voluntário. «Eu tinha conseguido o contacto do departamento, por acaso, através de um amigo. Contactei e disponibilizei-me para trabalhar, mas por duas vezes, em dois meses diferentes, a resposta foi “não precisamos, não queremos”.»

Contudo, persistente nesse seu objetivo, Maria Palha não desistiu e, na terceira tentativa, em vez de telefonar, apanhou o avião e de «mochila às costas» foi diretamente a Moçambique falar com o responsável.

Acabou por ficar em África. Durante três meses trabalhou como voluntária no departamento de planeamento familiar e de HIV-SIDA como psicóloga e ao quarto mês já integrava a equipa como profissional a receber salário, onde se manteve durante um ano.

No segundo ano em Moçambique, Maria foi selecionada para coordenar um projeto de desenvolvimento de orfanatos numa ONG portuguesa, onde ficou por mais um ano. «Foi uma experiência incrível. Mas já não fazia sentido para mim continuar a trabalhar em ONG sem experiência, queria mais.»

Assim, o próximo passo foi candidatar-se aos Médicos Sem Fronteiras. O recrutamento foi na Bélgica. «Não foi propriamente fácil, mas acabou por ser possível.»

Em 2008, Maria Palha foi selecionada e fez a primeira missão de um ano no Zimbabué, como coordenadora do programa de saúde mental de um projeto de HIV-SIDA. «Tinha que coordenar uma equipa de 18 pessoas e dar apoio técnico ao nível do apoio psicológico a todas elas. Foi incrível. Durante um ano, apenas comíamos galinha com tomate [risos], mesmo assim consegui ganhar peso!.»

 

A seguir: Brasil, Líbia e Turquia

Depois das várias experiências por África, Maria Palha desejava ingressar em missões menos longas. Então começou a fazer missões de emergência. Foi nesse âmbito que esteve no Brasil, numas cheias em Teresópolis, depois na Líbia quando Khadafi foi capturado, e na Turquia, num terramoto.

Agora, a psicóloga encontra-se em Caxemira, numa curta missão. Está a implementar e a dar continuidade a mais um programa de apoio psicológico às vítimas do conflito Índia-Paquistão.Desempenha as funções de coordenadora e gestora do departamento de saúde mental.

«Em cada uma destas missões tive a sorte de conhecer a fundo a cultura, pois é com o psicólogo que as vítimas mais desabafam, de conhecer a raiz humana em caso de crise e até de vivenciar momentos históricos e de mudança mundial. Sinto-me uma privilegiada.»

 

Agora, Índia

Maria Palha encontra-se em Caxemira, e apesar de já conhecer o país, a psicóloga destaca algumas curiosidades.  «O mais curioso nesta parte do mundo, para além do que já conhecia do país, é o facto de se tratar de uma região muçulmana. Contudo, há algumas variáveis que não funcionam da mesma forma como havia visto em outros países do médio oriente. Os casamentos, por exemplo, não ficam na “mão de Alla”, mas são “arranjados” pelas famílias. Isto pode ser gerador de amor e casamentos felizes ou não, contudo, nesta região, as pessoas consideram que nem sempre se pode ter tudo o que se quer, e por isso decidem ser felizes (tem sido uma boa aprendizagem que tenho feito diariamente). Uma vez, na cerimónia, o que mais me impressionou foi o facto de que como as mulheres não dançam, há um homem que se veste com trajes femininos (um vestido) e dança para elas, sendo que estas apenas acompanham a música com suaves batuques corporais. Interessante.»

 

Portuguesa, única

Na maioria das missões que integra, Maria Palha é a única portuguesa. «Regra geral, sou a única portuguesa presente nos projetos (ao todo, somos apenas quatro a trabalhar com os Médicos Sem Fronteiras). Por isso, a minha vida social, dependendo dos projetos (mais ou menos segurança) reduz-se à população local.»

 

Fora de Portugal, mais oportunidades

Em Portugal, Maria começou por desenvolver projetos de saúde mental de HIV-SIDA. Contudo, quis focar-se em emergências (catástrofes naturais e humanas) e nesse caso, Portugal não era o cenário ideal, por não se registarem. «Também a arte terapia e o teatro do oprimido são áreas muito novas em Portugal, pelo que se não fosse no exterior, nunca teria tido oportunidade de aprender.»
De forma geral, Maria Palha considera que sair do país deu-lhe a oportunidade de trabalhar com pessoas do mundo inteiro e acabar por «conhecer a fundo várias culturas».

 

E os sonhos por realizar

«Adorava conseguir ter coragem (dado as burocracias e falta de apoio) para criar uma ONG em Portugal e poder partilhar todas as experiências que tenho tido ao longo dos últimos sete anos.»
Participar em programas de formação sobre intervenção na crise, como o que vai lecionar no ISPA – Pós Graduação em Intervenção na Crise – noutras universidades e instituições será mais um objetivo que Maria Palha quer concretizar, assim como fazer consultorias a programas sociais em geral, ao nível da definição e implementação estratégica para melhor se poder apoiar as populações sem voz.

 

O Bom e o mau do voluntariado

«Quando comecei a trabalhar em Moçambique, porque não tinha uma boa organização para me suportar, tinha que tratar de todas as burocracias (como vistos, por exemplo) ao nível local. Mais do que uma vez fui expulsa do país e acompanhada por militares armados até à fronteira (a pé). Depois era tudo uma questão de fazer alguns contactos e as coisas resolviam-se. Mas na situação eram todos momentos de stress.»
“Bom foi o facto de ter sido, por mais de uma vez, chamada a implementar programas de saúde mental em cenários de catástrofe (cheias do Brasil, terramoto da Turquia ou mesmo guerra da Líbia), onde sempre fui bem acolhida pela população e partidos envolvidos.»

 

Um lugar em Portugal

Depois de tantas experiências profissionais e mais as que ainda está a concluir, um regresso a Portugal está previsto e refere que se pudesse trabalharia no nosso país neste momento. «Estou neste momento a tentar ter esse lugar. Embora não seja fácil, e tenha que ser muito pró-ativa a criar a necessidade de pessoas com o meu perfil, começo a ter neste momento requisitos (que embora ainda não me deem para conseguir viver somente em Portugal, já me permitem passar mais tempo por aí).»

 

Maria, uma pessoa diferente

Maria Palha considera que este seu percurso profissional a transformou numa pessoa diferente a vários níveis, mas especialmente «ao nível da recetividade ao novo e à mudança.» E acrescenta: «como estou constantemente a ser confrontada com novas situações, tenho que ser criativa na forma como as confronto e isso é extremamente importante numa fase como a que se vive hoje em dia em Portugal. Há que ser criativo e recetivo para se conseguir sobreviver a um tempo de crise como a que se vive em Portugal neste momento.»

 

Uma frase para definir a sua experiência

«Uma montanha russa de aprendizagens e emoções que vale a pena experimentar.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Acho que sim. O meu lado latino é bastante forte e também a “capacidade de desenrasca” está sempre presente.

Saiba Mais

mariapalha.com

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Mara Alves
É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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