O Japão era um sonho. Um dia, a determinação e a vontade de emigrar para esse país tão distante deu a Marta Pinto o passaporte para a concretização desse objetivo tão desejado.

Marta sempre teve o desejo de emigrar. Queria «explorar um outro país para além do meu, nomeadamente, o Japão. Tive essa ideia sempre presente ao longo da minha vida», refere.

Foi durante o período de faculdade que Marta começou a delinear os seus objectivos e emigrar para o Japão era o objetivo principal. Essa oportunidade não tardou.

 

Um golpe de sorte

Havia já algum tempo que Marta planeava sair de Portugal e, um dia, da forma mais repentina e inesperada, essa oportunidade surgiu. Em 2013, Marta estava prestes a apresentar a dissertação de Mestrado. Em Setembro, teve conhecimento que um dos seus arquitetos de eleição (e um dos arquitetos mais emblemáticos internacionalmente) viria a Lisboa (ao Centro Cultural de Belém) fazer uma conferência. Foi então que no dia 10 de Setembro de 2013 Marta assistiu, pela primeira vez, à conferência do Arquiteto Sou Fujimoto. No final da conferência, levantou-se e dirigiu-se a ele com o portfólio numa mão e o curriculum na outra. Depois de uma breve conversa, Marta conseguiria um estágio no ateliê de Fujimoto no Japão. «Com bastante nervosismo, esperei pelo Arquiteto junto às escadas do palco e, após um sorriso de ambas as partes, ele dirigiu-se a mim. Falei um pouco em japonês, apresentando-me e dizendo que admirava bastante o seu trabalho e, como nesse espaço de tempo, uma multidão de pessoas já se estava a formar atrás de mim, completei o discurso em inglês dizendo que seria uma honra fazer um estágio no seu ateliê, em Tóquio. Fujimoto-san [como costumava chamar-lhe, por hábito mais tarde no ateliê] sorriu, perguntou-me se poderia ficar com os documentos que lhe tinha levado naquele dia e disse-me que teria todo o prazer em receber-me em Tóquio, afirmando que a sua secretária entraria em contacto comigo, mal ele chegasse ao Japão», conta Marta.

Duas semanas depois, foi contactada para se ultimarem os preparativos para o estágio.

 

Uma vida perfeitamente normal

Enquanto esteve a viver e a trabalhar em Tóquio, Marta conseguiu manter uma vida normal, sentindo-se integrada na sociedade japonesa. «Não me senti como uma “gaijin”, como alguém que não pertencesse à sociedade japonesa. Muito pelo contrário, senti-me uma autêntica japonesa. A única característica que me diferenciava era mesmo a falta dos traços faciais orientais», refere.

A par disso, Marta ainda viajou para Osaka e Quioto e tinha tempo para conviver com colegas e amigos após o trabalho. «Tive a oportunidade de conhecer bastantes pessoas e fazer ótimas amizades. Consegui também participar em projetos muito interessantes, tais como concursos e projetos de execução de grande escala (algo que, presentemente, em Portugal e na minha área de trabalho seria impossível, devido à falta de trabalho e de clientes)», conta.

 

Uma história menos boa

Um dia, ao final da tarde, Marta foi ao supermercado e no regresso a casa viu duas crianças a brincarem na rua enquanto a sua mãe estava mais à frente com as compras. Marta foi surpreendida quando as crianças a olharam e depois fugiram parajunto da mãe a dizer «gaijin, gaijin!». Marta salienta que ainda há pessoas que fazem constantemente esta diferenciação entre japoneses e os designados “gaijin”, ou seja, estrangeiros. Diz Marta que, para muitos japoneses, esta palavra não tem um sentido simples e inofensivo como “estrangeiro”, mas uma conotação menos simpática; mas, para outros, é uma simples designação para alguém que não nasceu no Japão. Marta confessa que, pelo menos naquele momento, se sentiu desconfortável, mas foi também a única altura em que sentiu que vinha de outro país.

 

Uma história boa

O que mais marcou Marta Pinto no tempo que viveu em Tóquio foi ter conhecido muitos portugueses a viver em diversas partes do Japão, nomeadamente o Chef José Sousa Botelho, que vive em Osaka há cerca de 10 anos, pois foi o primeiro contacto que Marta teve antes e depois de chegar ao Japão: «foi a pessoa que me ajudou a adaptar à cultura e sociedade japonesas e foi uma das primeiras pessoas que me deu uma espécie de feedback daquilo que me esperava», conta.

Apesar de ter trabalhado entre 14 e 16 horas por dia, Marta conseguia ter tempo para a vida social. Tentava almoçar e jantar sempre que possível com os colegas de trabalho, japoneses e europeus, pois era a única altura do dia em que conseguia ter conversas sobre outras áreas para além da arquitetura. «Normalmente, às sextas-feiras, juntávamos várias pessoas e reuníamo-nos em casa de um colega de trabalho, onde nos deslocávamos todos para as designadas “izakayas”, ou bares, como chamamos em português. [Eram] locais bastante conhecidos e frequentados pelos japoneses após um longo dia de trabalho, como forma de convívio entre os colegas. Através do meu amigo José Sousa Botelho, de Osaka, conheci um outro português, Luís Matias, que me ajudou com todas as dúvidas e problemas que pudesse vir a ter enquanto vivi em Tóquio. Através dele conheci muitos outros portugueses que vivem no Japão há alguns anos, das mais variadas áreas, desde Arquitetura, Engenharia [e até a fazer] doutoramento, etc. Chegámos a juntar-nos para jantar numa famosa “izakaya” fora do centro de Tóquio, onde tomei conhecimento de um grupo de portugueses no Japão no Facebook, meio pelo qual continuamos a comunicar uns com os outros e a partilhar novidades e experiências novas», refere.

 

Uma emigrante «determinada, assertiva, exigente e perfeccionista»

«Defino-me como uma emigrante bastante determinada, assertiva, exigente e perfeccionista. Gosto de surpresas, mas, acima de tudo, gosto de ter tudo bem delineado e planeado. Sou uma emigrante que sente falta das pequenas coisas, aparentemente insignificantes, do seu país. Coisas essas que só damos importância quando nos ausentamos do nosso meio durante um longo período de tempo, mas que tenta aproveitar ao máximo cada momento passado dentro e fora da sua “terra natal”».

 

Portugal e as saudades

Aquilo que Marta mais sentiu falta de Portugal durante a sua experiência no Japão, para além dos familiares, amigos e namorado, foi «a serenidade e pacatez do […] país», salienta. No Japão, principalmente em Tóquio, é «tudo demasiado acelerado, muito movimento, muita confusão, muitas luzes e sons que se confundem e criam um ambiente repleto de misticismo», conta Marta.

Outra coisa de que Marta sentiu falta foram as colinas: «as vistas sobre a cidade a partir dos miradouros, a proximidade entre a natureza e o construído, as ruas estreitas e as escadarias ínfimas dos típicos bairros lisboetas, o passar numa rua com roupa acabada de lavar pendurada num estendal e o cheiro a sabão a invadir esse mesmo espaço. Algo de que não senti falta, curiosamente, foi a questão do “toque”, do aperto de mão e do abraço, algo que não existe no Japão pois funciona tudo à base de vénias. É uma questão de hábito», refere.

 

Não há lugar em Portugal

Neste momento, Marta está em Lisboa. Há cerca de cinco meses que procura uma oportunidade de trabalho e não está a conseguir. «Nomeadamente na minha área, infelizmente, sinto e vejo que não tenho lugar no meu país. Mas sei que o meu país terá sempre lugar na minha mente e no meu coração. Apesar de o meu sonho ter sido sempre trabalhar e viver no Japão, consideraria a hipótese de ficar em Portugal a trabalhar se houvesse condições para isso. Se houvesse mais oferta e condições de trabalho, essencialmente», admite Marta Pinto.

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Acho que sou mais um coração luso-nipónico, sem desvalorizar o meu país. Sou portuguesa de coração, mas um pouco japonesa de mente e penso que foi uma “mistura” de saberes, conhecimentos e experiências que me ajudou a formar enquanto pessoa.

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É a mentora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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