Mauro Félix, 31 anos, natural de Lisboa. Mudou-se para Manchester no Reino Unido, já lá vão oito anos,  fazia aquilo que gostava. Era assistente de produção, mais propriamente, trabalhava na produção de telenovelas num canal de televisão conhecido por todos nós.

É com alguma saudade que recorda a sua vida em Portugal. Lembra os amigos, os colegas de trabalho, a família, o sol e a comida. Mas recorda, também, o menos bom e aquilo que o levou a emigrar. Mauro não tinha contrato de trabalho, estava a recibos verdes “trabalhava muitas horas e havia pouco ao fim do mês” e, esse foi o principal motivo que o levou a procurar uma nova oportunidade num outro país.

 

Deixar tudo para trás em apenas cinco dias

Filho de emigrantes, Mauro já tinha vivido na Suíça dos três e os 17 anos. Chegada a idade de entrar para o ensino superior comunicou aos pais que queria ir estudar para Portugal e assim foi. A ideia de um dia, em adulto, emigrar era algo que não estava nos seus planos, “nunca pensei em emigrar(…) sempre disse é em Portugal que quero ficar”, mais avança, “acho que temos tudo de bom para ter uma vida boa, foi mais pela crise”.

Terminada a licenciatura em Artes Plásticas e Multimédia, não foi difícil arranjar um estágio não remunerado mas que se converteu em trabalho, embora instável. Mauro, estava cansado e desiludido com o rumo da sua vida profissional, então numa conversa com uma amiga que vivia em Manchester, disse – “se me arranjasses um trabalho ia já amanhã”, o trabalho surgiu! Ao fim de cinco dias Mauro deixava Portugal.

 

A nova vida em Manchester

Chegar a Manchester e não ter ninguém à espera no aeroporto foi motivo mais que suficiente para entrar em pânico, “lembro-me quando cheguei não estava ninguém à minha espera, os meus amigos estavam a trabalhar, entrei em pânico.” Na altura, Mauro “pouco ou nada sabia de inglês”, pois a sua segunda língua era o francês, mas como qualquer português conseguiu desenrascar-se e encontrar a casa para onde iria viver. “Era tudo muito estranho, via as casas todas iguais. A língua para mim foi o mais difícil, estar ao pé das pessoas a falarem, e não percebermos é mau”.

Mauro ia trabalhar para um restaurante cujos proprietários eram portugueses.  A sua função era ajudante de cozinha e, por isso, pouco ou nada de inglês tinha de falar, o que era uma vantagem, no entanto, não correu como o esperado. Mauro sentiu-se humilhado e mal tratado e despediu-se pouco tempo depois “onde trabalhei nos primeiros tempos eram só tugas e só faltava matarem-se”. Encontrar trabalho não foi difícil, começou a trabalhar numa loja e seguiu-se outra e outra, tendo chegado ao cargo de gerente.

The Fado, um sonho concretizado

Há cerca de um ano atrás, a vontade de regressar assaltou Mauro que chegou mesmo a pesar o regresso ao seu país. No entanto, a vontade de ter um negócio e a oportunidade de dar a conhecer Portugal lá fora falou mais alto. Mauro acabou por adiar o regresso e abrir uma roulotte – o The Fado – uma roulotte que vende bifanas, frango assado e muito mais. Mauro já tinha um certo gosto pela cozinha. A experiência que teve no restaurante, onde trabalhou quando se mudou para Manchester, aguçou ainda mais esse gosto “a ideia do The Fado já tinha surgido, três anos depois de cá estar. Queria uma coisa segura, achei que seria mais fácil ter uma roulotte”.

 

Uma roulotte portuguesa mas ao gosto dos ingleses

Quando abriu o The Fado, Mauro queria mostrar a nossa música e a nossa comida. Na roulotte entoava as vozes do fado e saiam bifanas, feijoada, bacalhau, tudo aquilo que temos de bom e que faz parte do nosso orgulho, enquanto portugueses. Porém, não foi apreciado e, nas primeiras semanas, poucos ou nenhuns ingleses se dirigiam à roulotte e quando o faziam pediam alteração na receita, “mais picante, sem espinhas, sem ossos”. Mauro foi obrigado a modificar algumas receitas para não perder o negócio. Não se ouviu mais fado e o menu tradicional português, deu lugar a um menu adulterado ao gosto inglês.

“O menu atual não é o original. O primeiro, era todo português, tudo o que comemos feijoada, cozido a portuguesa, bacalhau, tive um bocado de tudo. Mas a reação não foi aquilo que pensava que ia ser porque a maior parte dos clientes não são portugueses. A feijoada tinha orelha de porco e nem pensar, eu explicava o que tinha e eles ficavam enojados, tive de me adaptar, hoje em dia, faço feijoada, mas sem orelhas porco. Espinhas não querem, camarão só descascado.”

Como é sabido a gastronomia inglesa, ou a falta dela, é algo que está enraizado culturalmente e não é fácil introduzir novos sabores, novas texturas, tão diferentes daquilo a que estão habituados. Note-se que a grande parte dos britânicos não cozinha, na alimentação reinam os produtos pré feitos ou congelados que basta aquecer.

Um ano depois, Mauro está satisfeito com o negócio, já fidelizou um bom número de clientes que vão à roulotte todos os dias. O passar da palavra tem sido a sua melhor publicidade. Em média vão à roulotte cerca de 50 clientes por dia. O frango assado à piri-piri e as bifanas estão no top das preferências da clientela que na sua maioria são ingleses e outras nacionalidades. Os portugueses são os que menos visitam a roulotte, “entristece-me. Quando vivi na Suíça se abrisse um espaço português, havia muitos portugueses a conhecer, aqui os portugueses não são assim, não são tão unidos, não convivem. Se calhar estou meio errado, mas no que vejo há muito poucos portugueses a juntar-se com portugueses.”

 

As saudades de Portugal e um regresso anunciado

A situação política do Reino Unido alterou-se recentemente com o referendo a 23 de Junho, onde ficou decidida a saída do Reino Unido da União Europeia, decisão essa que veio pôr em causa a emigração de muitas comunidades, devido à incerteza do que acontecerá no futuro, um forte impulso para um regresso mais que desejado. Isso aliado às muitas saudades, dá a força que Mauro precisa para ter a certeza que chegou o momento de fazer as malas e regressar a Portugal.

 

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Mara Alves
É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

3 COMENTÁRIOS

  1. ola adorei ver e sendo eu filha de fadista e guitarrista faco questao de ir visitar o MAURO mas onde esta situada a roulote por favor farei uma visita…adoro bifanas bjs e tudo de bom <3

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