Há cinco anos a viver em Praga, na República Checa, Miguel Cardoso está quase a alcançar o sonho que o acompanha desde cedo: tornar-se médico. Quando terminou o 12.º ano, Miguel analisou os diversos rankings das faculdades de Medicina na Europa e no mundo e escolheu a segunda Faculdade de Medicina da Charles University de Praga, «por estar referenciada como uma dos melhores da Europa e do mundo, bem à frente de qualquer curso de Medicina das diversas faculdades de medicina em Portugal», explica o futuro médico. Por outro lado, o facto de o curso ser lecionado em língua inglesa também foi um fator decisivo para a escolha.

 

Miguel Cardoso, 24 anos, é conhecido por DJ Mike Caddoc e, «sem ter nenhuma ambição na área da dance music», como o próprio afirma, desde muito novo começou a passar música, em Portugal, em festas locais, festas da escola e bares de pequena dimensão. Em 2005, iniciou-se na área da cultura como promotor fotográfico, posteriormente como relações públicas e como DJ.

Em 2007, ano em que se mudou para a República Checa, começaram a surgir alguns convites para passar música em diversas discotecas e bares. Pelo facto de estudar medicina e de esse ser o seu grande objetivo profissional, sempre olhou para o DJing como uma atividade secundária ou «acessória», sendo que, «se um dia tiver que abdicar de algo por falta de compatibilidade, certamente não será a medicina a área a ser lesada», garante Miguel. Hoje, Miguel Cardoso é presença assídua nas melhores discotecas da cidade e considerado um dos melhores DJs de Praga.

 

Medicina versus música

Apesar da sua agitada vida em Praga, Miguel Cardoso afirma que ser DJ não condiciona os estudos, pois a medicina é o seu grande objetivo profissional. Por esse motivo, a atividade de DJ já esteve interrompida quando os estudos não permitiram atividades extra. «Abdiquei do DJing durante dois anos e só em 2009 regressei aos palcos.» Assim, em 2010 deu-se um novo começo na atividade de DJ. As festas da faculdade foram ímpeto para que Miguel Cardoso tivesse mais convites para passar música. Desde o ano passado,  Miguel é também presença assídua na Rádio FLX 6 Slam Radio com um set mensal e, em 2012, iniciou-se também como produtor.

 

A medicina é a prioridade

«Medicina é muito mais que amor: é vida, paixão, estabilidade, sinceridade, tristeza, honestidade. Música trespassa do imaginário à liberdade», explica o português. «São áreas completamente diferentes, mas que em simultâneo se completam, porque a música faz-nos abstrair da realidade e esquecer um pouco o que nos envolve diariamente. Costumo dizer que não há paixão sem estabilidade.»

O DJing é, assim, uma atividade que apesar do sucesso, Miguel Cardoso encara como «algo temporário, mas que não deixa de ser uma paixão.»

Se um dia tiver de escolher, a escolha não será fácil para Miguel Cardoso. No entanto, para já não pensa nessa hipótese. «Será uma escolha difícil, mas neste momento não quero pensar nisso. Cada coisa a seu tempo. A prioridade, por agora, chama-se medicina.»

 

Portugal e as saudades

Miguel Cardoso considera-se um «cidadão do mundo». Refere que poucas foram as dificuldades sentidas ao chegar a Praga, a não ser a barreira da língua checa. Recorda o facto de ter passado no exame de Patologia que «é considerado um dos mais difíceis, se não o mais difícil da faculdade», como o momento mais marcante na sua estadia em Praga.

No entanto, o seu país do coração é Portugal. «Eu sou, indiscutivelmente, um orgulhoso português, apesar dos problemas económicos e sociais que o país atravessa. Por isso, tudo o que caracteriza o nosso país e povo, nomeadamente, o calor português, o mar, a nossa cultura bastante própria e as pessoas de quem gosto, são, de facto, as coisas que me fazem sentir mais saudade de Portugal.»

 

Um dia, o regresso a Portugal

«Como sou um orgulhoso português, penso que, tal como qualquer outro “emigrante”, o objetivo final passa por Portugal. Todos sabemos dos problemas socioeconómicos do nosso país, mas, enquanto se permitir que se cometam os sucessivos erros de governação, que têm acontecido sistematicamente durante os últimos 30, 35 anos, acredito que poucos emigrantes regressarão a Portugal. Eu, pessoalmente, quero voltar, porque acredito que consigo encontrar o que pretendo, mas se tiver outras opções noutros países, não irei ficar preso a Portugal.»

 

Miguel,  uma pessoa diferente

«Hoje, vejo-me uma pessoa muito mais madura e com outra ideia e filosofia sobre a vida em geral. Encaro as dificuldades que a vida me submete com outra naturalidade e acho que isso também serve de mensagem a muitos portugueses que se encontram em situações de extrema dificuldade em Portugal e que se questionam se devem ou não abraçar um novo país e uma nova realidade.»

 

Uma nova visão de Portugal

«Honestamente, e por muito que me custe dizer, Portugal parou no tempo. Quando vim para Praga, via Portugal muito mais evoluído, comparativamente com a República Checa. Hoje, é precisamente o contrário. Na República Checa, o custo de vida é bem mais acessível. Praga e a vida em Praga dão uma sensação de férias e de liberdade durante o ano inteiro. O serviço de transportes públicos é espetacular, muito mais barato que em Portugal e funciona 24 horas, ou seja, é mais vantajoso andar de transportes públicos que ter um carro privado. O serviço nacional de saúde também é bem mais barato e não há listas de espera e a massa salarial começa a ser melhor que aquela que é praticada em Portugal, sem contar com o facto da carga tributária ser bem mais baixa que no nosso país. Em Portugal, é precisamente o contrário. Temos uma despesa pública astronómica que não é reduzida porque iria mexer com os benefícios fabulosos dos administradores públicos e da partidocracia, e com o “estadão”. São as PPP que teimam em não desaparecer; são os gastos supérfluos em obras públicas, estradas e autoestradas, empresas públicas e entidades para empregar ex-políticos e ex-administradores, e muito mais. Tudo isto num país que apresenta uma dívida pública de 100% do PIB nacional, com um desemprego que ronda os 16% e onde a grande maioria das empresas públicas e privadas se encontram em situação de rutura e “sobrendividadas”, o que perfaz uma dívida bruta ou externa de mais de 500 mil milhões de dólares, ou seja, cinco vezes mais do que o nosso PIB anual.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Obviamente. Orgulho-me muito pelo facto de ter nascido em Portugal. Amo o meu país e é mais por essa razão que pretendo regressar e mudar o que deve ser mudado, no sentido de fazer mais e melhor pelo meu país.

Saiba Mais

facebook.com/MIKECADDOC

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Mara Alves
É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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