© Raquel in Dreams

O mundo é pequeno. Visto ao longe apenas uma esfera maioritariamente azul, perdida por entre biliões de planetas. À medida que nos aproximamos vemos os continentes, as cidades…

Uma confusão de luzes e de ruídos e de sombras sem fim. Os faróis correm apressados e os pássaros voam para longe, à procura de sossego. E lá estão eles, nós, a caminhar no passeio, na paragem do autocarro ou sentados numa esplanada de um café. Agarrados a um objecto rectangular, como se não existisse nada nem ninguém à nossa volta.

Foquei a minha atenção numa mulher que esperava impacientemente pelo filho, estacionada junto ao portão da escola. Partilhava a imagem de um moribundo na sua rede social, comentando “Ámen”. Pena que não tenha comprado uma sopa para o velhinho sentado na rua, a poucos metros de distância. Mais à frente encontrei uma rapariga, gorda. Olhava para o chão à medida que caminhava. Já sentada dentro do autocarro, tirou do bolso o telemóvel e começou a passar tristemente as suas fotos de perfil: paisagens, mais paisagens ou apenas imagens onde a sua figura só era visível lá ao longe, distante. Porque distante era a sua presença no nosso mundo. Como se poderia ela integrar na nossa sociedade se as suas selfies só iriam mostrar as suas bochechas carnudas? Já a maquilhagem só marcava mais as suas feições animalescas.

Por entre toda esta azáfama em que se tornou este nosso status social medido através do número de likes e seguidores, quem tem tempo para pensar no estado actual da nossa sociedade, em ditaduras ou na igualdade de direitos? Não faltam posts com frases de incentivo à mudança, frases construtivas que o nosso mundo precisa, partilhadas vezes sem fim… Mas que impacto têm elas se são rapidamente esquecidas, se não provocam uma diferença de comportamento no nosso mundo real? A nossa realidade já não é real, é virtual. Sim! Até nos vêm as lágrimas aos olhos quando assistimos ao vídeo do cão escanzelado que foi resgatado…

Mas quantos cães como aquele passam por nós diariamente e quantos de nós se dão ao trabalho de lhe dar pelo menos os restos do jantar do dia anterior que deitámos para o lixo? A hipocrisia, essa, não é virtual, é real.

À medida que me distancio outra vez deste planeta sem sentido, vejo-os demasiado entretidos para reparar que na televisão está a passar a tomada de posse de Donald Trump. Eles afinal apercebem-se e até partilham o vídeo em directo, mas saberão mesmo o que está a acontecer?

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