As últimas semanas têm-se revestido de acontecimentos e falatórios estranhos. No ar paira cada vez mais a ameaça de um conflito nuclear, a União Europeia talvez já não seja assim tão unida e os ataques terroristas tentam confinar a nossa liberdade e ampliar os nossos medos. Um ramalhete que ficou composto com a demonstração de superioridade do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, e supostamente do norte da Europa perante os países do sul que se dedicam apenas a copos. Não quero entrar em polémicas, até porque este meu espaço no Coração Luso destina-se à gastronomia. Mas acreditem é de comida que vou falar. E também de copos. Acima de tudo apetece-me falar desta capacidade fantástica dos Portugueses de sentar a vida à mesa, entre copos e petiscos.

Cresci numa casa velha, numa aldeia do interior. A porta de entrada da casa velha abria para um imenso pátio de cimento tosco. Não que ele tivesse um tamanho desmesurado. Antes pelo contrário. Ficava confinado entre a casa da minha tia do lado, que na realidade não era minha tia, e a casa da minha visavó. Estamos a falar de cerca de dez metros quadrados, não mais, que acolheram durante anos toda uma aldeia. Quase todos os fins-de-semana ou quando o ambiente festivo assim o pedia, as mesas corridas e rústicas eram colocadas em banda ou lado a lado. Os petiscos lançavam um ar convidativo e a porta inexistente entre o pátio e a rua estava sempre aberta. À mesa sentavam-se os problemas, sentavam-se as alegrias, sentava-se a vida e tratavam-se os vizinhos por tu. Porque toda a gente se conhecia e comungava à mesma mesa, independentemente das crenças religiosas, da conta bancária ou do estrato social. E naquele pátio, à entrada de minha casa, havia sempre um copo para oferecer, mesmo que fosse de água, e algo para trincar. Não só oferecíamos, como as mesas se enchiam de sabores de outras casas, de outras tradições, de outras maneiras ed confeccionar. E foram tantas as histórias, diferentes, inusitadas, divertidas que ouvi entre copos e petiscos. Como a primeira vez que vi um dólar ou que me falaram sobre como é viver naquele continente longínquo que é a América. Como a primeira vez que conheci uma pessoa que falava uma língua estranha (e que percebi mais tarde que era alemão). Eu adorava aquela dinâmica de haver sempre lugar para mais um, mesmo que esse mais um fosse estrangeiro e falasse uma língua estranha.

Até me podem dizer que nós portugueses na generalidade não são assim, mas foi assim que eu cresci, num pátio aberto para o mundo, sempre rodeada dos melhores copos (na altura de gasosa de laranja) e dos melhores petiscos. Por isso aqui fica o meu contributo para que continuemos a ser um povo de copos (mesmo que sejam de água ou de gasosa) e petiscos.

 

PASTEIS DE GRÃO-DE-BICO E ERVAS AROMÁTICAS

Ingredientes

350gr de grão-de-bico cozido
1 cebola pequena
1 colher de chá de pimenta preta
1 colher de chá de orégãos (secos)
1 colher de chá de salsa (secos)
1 colher de chá de pasta de alho
1 colher de chá de pasta de manjericão
8 colheres de sopa de farinha de trigo

Num robô de cozinha, trituramos o grão-de-bico com a cebola, a pimenta preta e a colher de pasta de alho. Trituramos bem até que todos os ingredientes estejam bem envolvidos. Vertemos numa taça e juntamos os orégãos, a salsa e a pasta de manjericão. Peneiramos as oito colheres de sopa de farinha para dentro da taça. Amassamos muito bem, até a farinha estar completamente integrada na pasta de grão-de-bico. Levamos a taça ao frigorífico durante cerca de meia hora. Devemos obter uma massa possível de ser moldada. Moldamos os pastéis a gosto e fritamos em óleo bem quente.

Nota: Para confeccionar esta receita usei ervas aromáticas secas. Contudo, se tiverem oportunidade usem ervas frescas para dar um sabor mais genuíno e mais forte.

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Ana Filipa Rodrigues

Cresceu entre escaladas às árvores dos pomares dos avós, gincanas de bicicleta e joelhos constantemente esfolados. Uma infância intimamente ligada às colheitas, às tradições, às rotinas das aldeias do interior do país. Daqui nasceu um respeito muito grande pela mãe natureza. É licenciada em Jornalismo e Comunicação. Tem um gosto muito especial por comida, por sentar as pessoas mais queridas à volta da mesa, por invadir a sua casa com cheiros caseiros que saem do seu forno. As suas experiências gastronómicas encontram-se reunidas no blogue Reservatório de Sensações.

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