Paulo Franzini vive em Belgrado. Nunca pensou que um dia a Sérvia seria a sua casa. Contudo, as diversas deslocações àquele país por motivos profissionais ditaram a mudança. «Até poucos meses antes de partir nunca tinha estado nos meus planos. O que sempre pensei foi que iria ter deslocações longas de semanas ou meses, mas sempre temporárias», refere o empresário.

 

Paulo trabalha na área de comércio internacional e presta apoio a empresas que pretendam inserir-se em novos mercados. Belgrado surgiu pela curiosidade do empresário em conhecer mais sobre os Balcãs. «Quis adicionar outras geografias à minha rede. Por isso vim para Belgrado com a ideia de ficar cerca de um ano para explorar este mercado bem como toda a região dos Balcãs», conta.

Para o empresário, a presença nos locais, conhecer e explorar é uma ferramenta importante do seu trabalho. «A minha forma de encarar esta actividade é a de estar no terreno, pelo que a minha presença aqui é uma consequência natural e intrínseca. O que acontece é que vejo neste país oportunidades de investir em alguns projectos que, por várias razões, não seriam possíveis em Portugal.»

 

Uma história curiosa

«Uma boa surpresa aconteceu pouco depois de ter chegado a Belgrado. Fui passar um fim-de-semana a Mecavnik, um aldeamento turístico no sul do país que pertence a Emir Kusturica. Ao chegar, assim que entro num restaurante, lá estava o homem, em carne e osso! Foi um golpe de sorte, pois toda a gente me garantia que ele passava pouco tempo ali. Agarrei a oportunidade para a foto da praxe!»

Paulo Franzini vive numa Sérvia já muito distante da guerra, ainda que, na sua opinião, não seja essa a ideia geral. O empresário lamenta o desconhecimento que algumas empresas portuguesas têm sobre este país. «Por incrível que pareça, há quem ainda me pergunte se a guerra já acabou, se ainda há muita violência, campos minados e armas na rua. Reconheço como natural a distância entre os dois países, mas nunca pensei que fosse tanta.»

Em Belgrado, Paulo não conhece muitos portugueses, mas enaltece as boas relações sociais que tem com a população local. «Não conheço portugueses com residência fixa aqui. O contacto com compatriotas acontece na embaixada, na visita de clientes e amigos e num ou noutro encontro esporádico de turistas. A minha relação é principalmente com gente daqui, de quem eu gosto muito, pela abertura, boa disposição e facilidade em comunicar em inglês.»

 

Semelhanças entre Portugal e Sérvia

Paulo diz-se surpreendido com as semelhanças culturais e sociais entre Portugal e a Sérvia, que, para o português, são muitas. «Belgrado tem bastantes semelhanças com o Porto e viajar em algumas vilas e aldeias do interior é como regressar ao Portugal dos inícios da década de 90. Uma curiosidade é o facto de Belgrado ser um local festivo com muitos eventos e sempre com gente na rua até tarde, mesmo durante a semana. Mas em paralelo, a cidade é calma e muito sossegada, num equilíbrio que me surpreendeu. Também as vagas de calor no Verão e a neve e frio no Inverno são um contraste interessante.»

 

Dominar a língua é um objetivo

«Pessoalmente, ainda me falta um melhor domínio da língua, que é algo complexa. Ainda não domino porque também há muita facilidade no inglês. Profissionalmente, os projectos que tenho ainda são muitos. As coisas correm sempre devagar, mas vou conseguindo dar bons passos.»

 

Uma visão de Portugal

Paulo Franzini não sente que lhe falta um lugar em Portugal. Essa é uma questão que diz não lhe interessar. «O meu patriotismo não cega o meu pragmatismo e Portugal não é país de grandes oportunidades para a minha geração, condenada a pagar uma dívida que não criou, a sustentar esse tal “estado social” que lhe é barrado e a assegurar pensões de reforma hoje que não vai ter amanhã.» Paulo recorda ainda a sua feliz infância e adolescência, lamentando que ser-se adulto em Portugal não é fácil. «A infância foi boa, a juventude melhor. Mas a idade adulta é sofrível e as expectativas para a velhice metem medo ao susto. Portugal será sempre o meu país e Vale de Cambra a minha terra natal. Mas são, quando muito, âncoras e rotas, não portos de destino. Respeito quem pense o contrário, mas por enquanto não consigo ver para além disso.»

 

Uma pessoa diferente

«Creio que mudei. Acho que me tornei ainda mais flexível. Há uns tempos, tinha acabado de chegar à Sérvia depois de dois meses em Portugal com a minha companheira, e um cliente português liga-me a pedir que o acompanhasse à China. Umas semanas depois, estava no Império do Meio!»

 

De Portugal para a Sérvia

«Trago alguma coisa de Portugal, seguramente, pois é esse o meu trabalho. Mas emocionalmente falando, se pudesse, traria uma praia, Vila Praia de Âncora ou uma qualquer da costa alentejana. Também gostava de trazer a minha mãe e a minha irmã por uns tempos e, aos sábados, um qualquer tasco vale-cambrense cheio da minha malta dos copos.»

 

Da Sérvia para Portugal

«Daqui para Portugal levava rakija, um licor de frutos bombástico. Levava também tabaco barato (o que consumo custa 1 €) e ainda a oferta cultural rica, inovadora e na sua maioria sem subsídios públicos. O que gostava mesmo era de fundir os dois países por uns tempos. Acho que quando portugueses e sérvios se descobrirem mutuamente, a criação de laços será inevitável.»

 

Sem ambições de regresso

Um regresso definitivo a Portugal, não está nos planos de Paulo Franzini, tirando as férias e as datas comemorativas mais importantes. «Não tenho esse plano, mas nunca se sabe, até porque a minha companheira adorou Portugal. Irei regressar sempre a Portugal por motivos profissionais, dado que os meus clientes são maioritariamente empresas portuguesas e isso farei sempre questão de manter e tentar alargar. De resto, espero nunca falhar um Natal e de vez em quando umas férias de Verão», conta Paulo.

 

Uma frase para definir a experiência

«Em tempos de globalização, quem quiser conhecer os cantos à casa, deve tentar ter um pouco de “mundo”.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Sim, onde quer que esteja. Um português nascido em Vale de Cambra.

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Mara Alves
É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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