Desde os tempos de universidade que Paulo Santos sentia uma vontade muito grande de viver no estrangeiro. Nessa altura, já imaginava como seria viver num país diferente, onde tudo seria uma constante descoberta. Da vontade à concretização, apenas o tempo necessário para concluir os estudos em Arquitetura.

 

O passaporte para a saída foi um estágio internacional. Através do programa INOV Contato, em 2010, Paulo Santos saiu para viver a experiência que tanto ambicionava: «a única certeza que tinha: o local de trabalho seria fora de Portugal. Aquela ideia de “Lotaria do Mundo” deixou-me com um sorriso de orelha a orelha e o programa pareceu-me uma hipótese que valia a pena tentar», explica Paulo.

 

«Lotaria do Mundo»

Argélia foi a lotaria que lhe saiu. Durante seis meses, Paulo Santos trabalhou numa empresa portuguesa. O choque cultural foi inevitável e marcante na experiência. «Viver na Argélia foi uma experiência e tanto e apesar de estar praticamente ao lado de casa, senti que o choque cultural foi tão grande como se tivesse ido para o outro lado do mundo, para a China ou para o Japão», conta.

Viver no estrangeiro foi uma experiência tão intensa que, quando regressou a Portugal, Paulo Santos não tardou a procurar outro destino, outro desafio. No entanto, aceitou a oferta da empresa onde tinha trabalhado na Argélia e ficou em Portugal durante alguns meses.

 

«Vocês são portugueses?»

Durante a estadia na Argélia, um dia, Paulo e mais cinco portugueses decidiram alugar um carro e ir passear durante o fim-de-semana. Contudo, ao entrarem numa cidade, num posto de controlo da polícia, perderam o controlo do carro e embateram num passeio. Sem falarem árabe nem os polícias francês, não foi fácil estabelecer comunicação.

Paulo conta a história: «Era de noite, estava frio e, por momentos, pensei que ia ser tramado sair daquele imbróglio. Entretanto um dos polícias diz que descobriu o problema: direção partida. Assim sendo, a única solução era ver se algum mecânico nos podia ajudar. Desdobraram-se em telefonemas para encontrar alguém e encontraram. O mecânico, apesar de no dia seguinte ser sexta feira (o equivalente ao nosso domingo), disse que nos ajudava e que ia tentar resolver o problema; outro dos presentes disse que ia ligar a um primo, taxista, para nos levar a um hotel onde pudéssemos passar a noite. Eu perguntei-lhe se por acaso conhecia um restaurante chamado “Lisboa”. Tinham-nos falado desse sítio e pelos vistos ficava nesta cidade. O senhor rasgou um sorriso na cara e disse-me: “Vocês são portugueses? O meu primo é casado com a filha do dono do ‘Lisboa’! Claro que ele vos leva lá!”. E assim conhecemos a família luso-argelina que nos acolheu e nos tratou mais que bem e que nos proporcionou um fim de semana impecável!»

 

Áustria

A segunda vez que saiu de Portugal foi através do Serviço Voluntário Europeu (SVE). Este programa de voluntariado é promovido pela União Europeia e tem como objetivo proporcionar a pessoas entre os 18 e os 30 anos uma experiência fora do seu país de origem, que pode durar entre um e doze meses. Desafiado pela namorada, ambos se candidataram a um projeto na Áustria, que procurava dois voluntários para os primeiros Jogos Olímpicos de Inverno da Juventude.

O Paulo foi selecionado, a namorada não. E assim, partiu para mais uma aventura por dois meses em Innsbruck. «Parti para a Áustria com a sensação que dois meses não seria tempo suficiente para ter uma experiência rica, mas não podia estar mais enganado. Quando cheguei a Innsbruck descobri que seríamos 33 voluntários a viver na mesma casa, um total de 16 nacionalidades representadas debaixo do mesmo teto».

A experiência superou as expectativas: «Foi bastante forte, emocionalmente. E o facto de estar a participar num evento do tamanho de uns Jogos Olímpicos, numa cidade linda, num ambiente de festa, tratou do resto. Foram, sem dúvida, dois meses muito intensos», confessa Paulo.

 

Suíça

Ainda durante a sua estadia na Áustria, Paulo começou a desenhar um novo plano para continuar a caminhada pelo mundo, quando o voluntariado na Áustria terminasse. Durante algumas semanas enviou candidaturas via e-mail e, em Junho de 2012, mudou-se para Lausanne, Suíça. Onde vive neste momento com a namorada.

Quando chegou, Paulo ainda trabalhou num ateliê de arquitetura durante dois meses. Depois, a luta para encontrar outro sítio para onde ir foi constante, mas em arquitetura não foi possível. «Como não encontrei solução na arquitetura virei-me para o mercado em geral. Estive a trabalhar num bar, depois numa loja e finalmente num hotel».

Depois dessas experiências, Paulo conseguiu voltar a trabalhar em arquitetura. «É engraçado ver as voltas que a vida dá, porque foi no hotel que conheci o meu patrão e que a oportunidade que eu andava à procura surgiu. Sinto que depois de um período mais ou menos atribulado estou finalmente no bom caminho e que o futuro nos reserva coisas muito boas», diz Paulo Santos.

 

De Portugal para a Suíça

Se pudesse levar alguma coisa de Portugal para o país onde vive e vice-versa, o que seria? «Além da família e dos amigos, se pudesse trazia para cá uns dois ou três cafés e restaurantes onde gostava de ir e passar bons momentos e trazia para cá o Andanças e o Outjazz [festivais de música].»

 

Da Suíça para Portugal

«De cá para lá levava o gosto pela natureza e pelos espaços exteriores. Seja inverno ou seja verão, há sempre pessoas na rua, há sempre alguém a correr ou a andar de bicicleta. Acho incrível a maneira como as pessoas conseguem tirar partido do que têm, faça calor ou faça frio.»

 

Projetos já realizados

Quando regressou a Portugal, depois de ter estado na Argélia, Paulo trouxe na mala uma ideia que conseguiu concretizar: fazer uma exposição de fotografia dedicada à Argélia, para partilhar com o maior número de pessoas o que viveu por lá. Fez ainda um slide-show onde contou a aventura argelina ao sabor das fotografias. Com um amigo que esteve em Moçambique criou o projeto Couscous com Feijão, com o mote «Dois amigos, dois países, um continente». A ideia principal continua a ser a partilha. Partilhar através da fotografia as experiências vividas nos dois países.

 

Não é emigrante

Paulo não se revê na definição de emigrante. «É uma definição da vida que estou a levar, porque saí do meu país para viver noutro, mas acho que por ter uma ideia de “emigrante” na qual não me revejo não consigo chamar-me emigrante. Vejo-me antes como alguém com vontade de ver o mundo e que decidiu, por tempo indeterminado, sair do país onde nasceu e ir viver noutro.»

 

Portugal, as saudades

Paulo refere a família, os amigos e os lugares como sendo aquilo de que mais sente falta. «Sinto falta dos meus pais e do meu irmão, era bom poder tê-los aqui perto sempre que me apetecesse estar com eles; e o mesmo vale para os amigos. E claro que gostava de ter aqui à mão uma data de sítios e de coisas de que gostava quando estava em Portugal. O que é engraçado é que depois de ter vivido e de ter visitado alguns países, gostava de ter aqui à mão não só coisas de Portugal, mas coisas de que fui gostando pelos sítios onde passei.»

 

Um regresso intermitente

«Pretendo regressar muitas vezes a Portugal, mas se alguma vez o vou fazer de forma definitiva, não sei dizer.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Sou um coração luso, pois claro, e vibro cada vez que vejo uma coisa que me lembra o meu país. Pode ser uma bandeira; um cachecol; uma t-shirt; um cartaz a anunciar um concerto de uma banda portuguesa na cidade onde estou; um restaurante com nome português. Não fico nada contente quando ouço alguém falar mal de Portugal e aproveito para falar das coisas boas que o nosso país tem sempre que posso. Acredito que nisto dos países cada um de nós tem uma ideia a priori deste ou daquele país e cada vez que encontro alguém que tem uma ideia de Portugal que não corresponde exatamente à realidade, aproveito a oportunidade para falar um bocadinho de nós.

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missaoargelia.blogspot.ch

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É a mentora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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