Cinco mil candidatos, 250 vagas disponíveis. Foi no último dia do prazo que Pedro Malta dos Santos se candidatou, por pressão dos amigos. Nunca teve intenção de sair de Portugal até aquela data, em que foi um dos escolhidos para integrar o programa de estágios Inov Contacto.

 

Foi assim que em 2012 a sua vida mudou. «Após muitos dos meus amigos me falarem sobre o programa Inov Contacto e me pressionarem a enviar a candidatura, nas últimas horas do último dia possível à candidatura faço-o. Fiz com o intuito de não me pressionarem mais do que pela oportunidade em si. Claro que muito do meu desinteresse devia-se ao desconhecimento completo sobre o cariz deste fantástico programa. Obviamente que se soubesse inicialmente todos os benefícios que o programa iria trazer para o meu futuro talvez fosse o primeiro a enviar a candidatura e a rezar diariamente para ser aceite», conta Pedro Malta dos Santos.

A oportunidade de estagiar fora do país acabou por lhe mudar a vida, a nível pessoal e a nível profissional. «O benefício de se sair para um país desconhecido e abandonar toda a nossa margem de segurança é que temos que aceitar tudo e criar novas ligações», conta.

A nível profissional, o estágio passava, sobretudo, por dar a conhecer alguns produtos portugueses no mercado externo, neste caso na Ásia. Pedro explica: «Estando fora de Portugal e tendo os conhecimentos sobre os produtos portugueses que possam ter interesse para países externos, faz com que certos nichos de mercado que ainda não tenham sido estudados e aproveitados sejam boas oportunidades […]. Aliando estas oportunidades à ainda visível entreajuda de empresas (sobretudo portuguesas), às redes de contactos que são formadas, criam-se assim raízes para coligações muito positivas».

 

Implementar um negócio em Macau

Já regressado de Macau há largos meses, Pedro tem um objetivo muito claro: sonha com o dia do regresso e a implementação um negócio. «Gostaria de um dia ter a possibilidade de voltar a Macau e implementar um negócio em que pudesse importar um ou outro produto e fazer a sua distribuição. Macau é a porta de acesso a alguns dos pontos fulcrais da China. Os produtos teriam de ser europeus e úteis no meio desta sociedade. Agora, que produto ou produtos… ainda penso nisso todos os dias», confidencia o português.

 

 As recordações de Macau

Numa cultura diferente daquela a que estava habituado, os primeiros dias em Macau marcaram Pedro, que recorda algumas das muitas histórias vividas em território asiático. «Lembro-me como se fosse hoje: no primeiro dia que caminho pela ilha da Taipa, uma das três ilhas de Macau, entro num local e, de repente, vejo uma cara que não me era nada estranha! Foco com atenção, e dou por mim a rever um amigo de Portugal com quem tinha estudado no secundário e que já não via há mais de dez anos, sentado, a beber uma Super Bock como se não estivéssemos a 11 mil km de casa! E num Macau do futuro voltámos a um Portugal do passado! Fantástico!», conta.

 

O Mercado Vermelho

A forma como em Macau são vendidos determinados produtos é uma característica da cultura asiática que não passou ao lado de Pedro. «O Mercado Vermelho, onde se encontra todo o tipo de bens indispensáveis para uma cozinha, desde legumes, peixe ou galinhas vivas, e em que a higiene dos mercadores, a limpeza, ou melhor, a falta dela, realça logo à vista que não estamos na Europa! Nitidamente, ASAE é algo que ainda demorará uns anos a ser implementada em Macau! E ainda bem, senão fechava tudo!! (Nem tudo, claro!) Óbvio que em Portugal também temos estes mercados! Mas quando os peixes, ainda vivos, saltam para o meio do chão ou para cima das pessoas e são apanhados ao estilo homem das cavernas e mortos na hora com possibilidade de sangue esborrifar para a cara de alguém como se nada se passasse é algo que… em Portugal… felizmente já não se vê tanto!».

 

Um emigrante sem definição

Pedro Santos não se define como emigrante. «Nunca me senti mesmo emigrante. Sei que no passado o emigrante saía do país de origem em prol de uma remuneração mais elevada, de forma a poupar o salário numa perspetiva de futuro retorno ao país de origem com o saldo da conta bancária muito mais elevado. Hoje em dia, sinto que a população sai do país, mas nunca com a perspetiva de ir e voltar com mais dinheiro. Sai, sim, em prol de uma vida melhor, obviamente com um salário melhor. Mas agora vivem por completo no país que emigram, sentem-se bem, conhecem novos destinos, criam família, amigos. E quando tudo isto acontece saudavelmente sem grandes ligações ao país de origem (como apego familiar, esposa, namorada, amigos…), suponho que o retorno ao país de origem fica mesmo em segundo plano».

 

 «Macau é das comunidades perfeitas para se estar fora»

A nível social são notórias as diferenças que existem entre a maneira de viver, também a nível familiar, como maneiras de agir. No entanto, sendo Macau uma ex-colónia portuguesa, existem muitos portugueses residentes. Neste ponto, Pedro realça a entreajuda, tanto a nível profissional como social. Quanto ao contacto com pessoas de origem macaense ou chinesa, o português refere-se a alguma complexidade numa cultura diferente, em que os espaços frequentados não são os mesmos.

Contudo, em Macau Pedro vivia em família. «A verdade é que em Macau fui um felizardo. E aqui realço o felizardo que fui, pois criei mesmo uma segunda família. Além de muitos portugueses que já lá habitavam há muito tempo, fui recebido de braços abertos por um grupo de sete pessoas, também estagiários Inov, que viviam juntos no mesmo apartamento e se reuniam para jantar e dividir as mais básicas tarefas domésticas. Assim, diariamente, oito pessoas que trabalhavam em locais e profissões distintas se juntavam para jantar e confraternizar. União que dura até hoje. Uma família para a vida. Sem esta união, Macau não teria o mesmo encanto», confessa Pedro.

 

Trabalhar no Mercado Asiático: uma experiência sem igual

«Profissionalmente, trabalhar no Mercado Asiático foi uma experiência e um aumento de conhecimentos que não se aprende em nenhuma escola. São mercados e formas de agir completamente diferentes dos ocidentais. Uma maneira de agir muito direcionada ao negócio, lucro, e com objetivos muito bem definidos. É muito bom estar num meio em que a palavra crise é poucas vezes pronunciada. É rejuvenescedor não ouvir falar de crise. Engrandece a alma e a vontade de trabalhar.»

 

 O objectivo: trabalhar em Portugal

Pedro acredita que Portugal ainda tem muita potencialidade e é em Portugal que pretende desenvolver a sua atividade profissional. «Portugal tem ainda muitos nichos a ser explorados! Embora falar seja fácil, existem muitas oportunidades que ainda estão alcançáveis! Não falo em ficar milionário, mas sim em trabalhar e fazer parte do progresso. Claro que neste momento existe uma mentalidade derrotista e é completamente compreensível, é quase impossível esquecer. Mas para os que ainda desejam tentar deixar a sua marca, ainda é possível. Com custo, claro, mas possível», garante.

 

 O que levava de Portugal para Macau

«A simpatia e a boa educação da nossa grande pátria. É algo que na maior parte da China se nota, o povo chinês é muito rude.»

 

De Macau para Portugal

«De Macau, levava apenas o costume de se servir gratuitamente chá às refeições na maioria da restauração tradicional! Penso que seria uma cortesia que todos agradeceríamos. Porque muito do que Macau tem de bom, fomos nós Portugueses que já o trouxemos.»

 

 Uma frase para definir esta experiência

«Cada um tem o seu Macau, a experiência é diferente para toda a gente. Eu levo Macau no coração, porque “o meu Macau” faz-se devido aos portugueses fantásticos que lá habitam e o fazem bonito, sem eles “o meu Macau” nunca seria tão bom.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Orgulhoso no país que me criou. Portugal, de facto, é o melhor país do mundo.

Artigo anteriorJoana Ricou
Próximo artigoJoana Carvalho Costa
Mara Alves
É a mentora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.