Rodrigo Costa Félix é um dos fadistas percussores do novo fado e um dos cantores herdeiros da grande tradição masculina do fado de Lisboa. Já actuou a solo ou integrado em vários elencos, nos Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, França, Espanha, Benelux, Itália, Alemanha, Polónia, Tunísia, ou China. O novo CD de Rodrigo Costa Félix, “Fados de Amor”, é o primeiro CD da história do Fado onde a Guitarra Portuguesa é integralmente gravada por uma mulher, Marta Pereira da Costa, esposa de Rodrigo Costa Félix. Já este ano, Rodrigo actuou em Madrid, São Paulo, Rio de Janeiro, Toronto e Paris. Nos próximos meses tem agendados vários concertos em Portugal mas também nos Estados Unidos, Itália e Angola.

 

 

Como é que a música entrou na sua vida? E, quando é que se tornou sério?

A minha paixão pela música vem desde muito cedo. Desde pequeno que me lembro de cantar tudo e mais alguma coisa. Sempre tive muita facilidade em aprender músicas e decorar letras. Comecei a levar a música mais a sério quando me apaixonei pelo Fado. Até lá cheguei a cantar em bandas de covers e festas de amigos, mas nada muito profissional.

 

Como se fez fadista?

Eu convivo com o Fado desde muito novo, pois a minha mãe ouvia muito e tinha vários amigos que cantavam ou tocavam, principalmente porque o meu pai – que também cantava – chegou a ter uma casa de Fado em Cascais, o Arreda, onde paravam muitos dos grandes nomes do Fado de então. As festas de aniversário da minha mãe tinham recorrentemente fado ao vivo. Mas só aos 17 anos despertei realmente para a beleza do fado, começando por me apaixonar pelos poemas e depois pela música e pelo fascinante meio fadista. Sempre fui um apaixonado por boa poesia e felizmente, desde Amália Rodrigues, o fado canta muita da excepcional poesia que temos. Mais tarde resolvi arriscar um fado uma noite no restaurante Nove e Tal, do Nuno da Câmara Pereira, e nunca mais deixei de cantar. Aos 18 fui contratado para cantar no São Caetano, depois na Taverna do Embuçado e desde há cerca de 12 anos no Clube de Fado. Mas um fadista “faz-se” ao longo da vida, aprendendo e ouvindo os mais velhos…e por vezes os mais novos também.

 

Lembra-se da primeira vez que pisou o palco? Como foi?

O primeiro grande palco que pisei como cantor de Fado foi o do Teatro Garcia de Resende (Évora), em 1991, a convite do João Braga. Foi muito emocionante, estava muito nervoso, claro, mas acho que correu bem. Lembro-me que uma das convidadas do João foi a Teresa Salgueiro, que foi cantar os três fados que sabia de cor, e foi extraordinária!

 

Se não fosse fadista, o que teria sido?

Não sei bem. Em pequeno queria ser biólogo; mais tarde jornalista; entrei para o curso de Comunicação Social, mas saí no 3º ano; estudei línguas; trabalhei numa livraria; tirei um curso de jovem agricultor; quando fui estudar Engenharia de Som para Londres, servi à mesa no melhor restaurante do Harrod’s; trabalhei em pós-produção audio durante 14 anos. Ou seja, acho que se a música não fosse a minha profissão, poderia ser qualquer uma! Mas um dia hei-de ter um restaurante, isso é certo!

 

Se lhe pedíssemos para descrever a sua música, como seria?

Emotiva, genuína, honesta, profunda, portuguesa.

 

Dos tantos poetas que interpreta, qual o que lhe dá mais prazer?

O meu poeta fetiche é sem dúvida o Fernando Pessoa. Mas adoro cantar Pedro Homem de Melo, Manuel de Andrade ou Tiago Torres da Silva.

 

Qual o seu papel na música? 

Não sei bem. Vou fazendo o meu caminho, tenho uma identidade muito própria e nunca procurei imitar ou seguir o estilo de ninguém. Procuro sempre inovar dentro do tradicionalismo a que o Fado obriga, prezo muito e respeito as palavras dos poetas, sou-lhes fiel. Acho que tenho facilidade em comunicar com as pessoas. Talvez o meu papel seja esse, aproximar ainda mais as pessoas do Fado, criar novos públicos. Mas sempre mantendo-me genuíno e coerente com os meus valores e ideais.

 

Já viveu no Brasil no passado e hoje se tivesse de emigrar para onde seria?

Apesar de amar o Brasil quase como se fosse o meu país e de lá me sentir em casa, acho que provavelmente emigraria para um outro país europeu. Talvez Itália ou França. Ou voltaria a Inglaterra. Seja como for, o melhor país para se viver, mesmo com todos os problemas que todos conhecemos, é sem dúvida nenhuma Portugal. Temos um conjunto de características únicas que fazem com aqui, com relativamente pouco, se possa ter uma qualidade de vida incrível.

 

Na música e no amor, o Rodrigo uniu-se à Marta, que toca guitarra portuguesa, como tem sido esta experiência? Como tem reagido o público ver uma mulher a tocar guitarra portuguesa?

Muito bem, com imensa curiosidade e admiração. A experiência tem sido óptima, quer em palco quer fora dele. A Marta tem sido, naturalmente, um enorme foco de atenção por parte dos media e do público em geral, mas acho que temos conseguido gerir esse protagonismo de uma forma inteligente e tranquila. Ela está também a seguir o seu caminho, crescendo como guitarrista e como música, e chegará seguramente muito, muito longe.

 

 

O fato de serem um casal torna a sua música num momento mais mágico?

No palco conseguimos, sem dúvida, criar um ambiente mais intimista e o público apercebe-se e gosta disso. Obviamente que quando canto as minhas letras, escritas para a Marta, emociono-me mais, a voz por vezes fica embargada…mas é verdadeiro e as pessoas também sentem e emocionam-se connosco. Temos tido momentos fabulosos em conjunto. Podermos viver os dois estas experiências dentro e fora do palco é uma sorte incrível.

 

O atual disco, descreva-nos porque os fãs de fado não o devem deixar de ouvir?

É um disco à minha imagem: emotivo, sincero, profundo, maduro. É um disco de Fado, com muitos tradicionais e alguns temas originais, mas com muito sabor a fado e a Portugal. É também e, sobretudo, um disco que fala de amor. Dediquei-o à Mulher porque sou um confesso admirador das mulheres. Não no sentido marialva, mas no sentido de considerá-las seres muito superiores a nós homens, mais inteligentes, mais emotivos, mais evoluídas. É dedicado à Mulher em geral, mas especialmente às mulheres da minha vida: a Marta, a minha mãe, avó, irmãs, enfim, mulheres extraordinárias com quem tenho tido a felicidade de viver e aprender.

 

A sua agenda, por onde vai andar em 2014?

Temos já uma agenda relativamente bem preenchida. Vamos estar na Suiça, em Israel, na Roménia, na Grécia, voltaremos aos Estados Unidos para repetir a experiência de Outubro passado – em que fizemos uma tour de concertos e workshops de Fado em universidades e escolas -, talvez voltar ao Brasil, enfim, vai ser um ano muito interessante. E também alguns projectos que poderão ver a luz do dia ainda este ano mas que, para já, são segredo.

 

Qual o seu maior sonho em relação a Portugal?

Como escreveu Pessoa na sua “Prece”: “e outra vez conquistemos a distância do mar, ou outra, mas que seja nossa!” Que consigamos ser realmente independentes, criativos, originais, justos. Como Pessoa também afirmou, “tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Mas precisamos de re-aprender a sonhar. E precisamos que nos deixem fazê-lo.

 

É um coração luso?

Sou e serei sempre, acima de qualquer coisa, português. Sou-o em tudo o que faço, inclusive na profissão que abracei. Amo este país e por isso sofro com o mal que lhe têm feito. Os portugueses precisam de voltar a apaixonar-se por Portugal, precisam talvez de saír mais, viajar mais para chegarem à mesma conclusão que eu: não há país como este!

 

Saiba Mais

rodrigocostafelix.com

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Mara Alves
É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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