Orgulhosamente viseense, aos 32 anos Sara Figueiredo sai novamente de Portugal, desta vez para a sua primeira experiência na Ásia. Farmacêutica de profissão, é apaixonada por viagens menos convencionais, onde os turistas se misturam com os locais e «fazem como veem fazer». Sempre que possível faz workshops de cozinha, que rapidamente integra noutro dos seus passatempos favoritos: receber os amigos em casa!

 

Durante a primeira experiência fora do país, Sara Figueiredo teve a certeza de que essa não seria a última. O contacto com pessoas de nacionalidades e vivências diferentes deu a Sara a certeza que iria chamar «casa» a cidades geograficamente distantes de Portugal. Além-fronteiras, curiosamente, Barcelona foi a única cidade onde escolheu viver. Lyon, Rio de Janeiro e atualmente Singapura foram obra de felizes coincidências.

Todas as saídas de Portugal têm histórias. As saídas de Sara Figueiredo contam-se em dois Erasmus, o programa Inov Contato e a mais atual em março de 2012. Sara trabalha para uma multinacional farmacêutica há quatro anos. Foi essa empresa que lhe proporcionou a oportunidade que tanto desejava: continuar a trabalhar na área da oncologia num mercado emergente, no seu caso, na delegação da região Ásia-Pacífico. Entre candidatura, burocracias e passagem da pasta em Portugal, passou um ano: «Ter a empresa por trás diminuiu as preocupações com seguros de saúde ou vistos e deu-me a serenidade para procurar uma casa com calma», explica Sara.

 

Mais enriquecimento profissional

Das muitas experiências que teve por viver fora do país, Sara Figueiredo aponta a experiência profissional como a principal vantagem de não viver em Portugal. «A grande diferença é, sem dúvida, a nível profissional: nenhum dos projetos que estou a desenvolver seriam possíveis em Portugal neste momento e muito menos com esta escala, já que aqui a região Ásia-Pacífico compreende 16 países. Também não seria possível estar exposta diariamente a formas de trabalhar diferentes, reflexos de nacionalidades como Japão, Coreia, Índia, Tailândia, Taiwan, Hong Kong… Reuniões ou teleconferências a que me fui habituando com os meus colegas europeus são bem diferentes da realidade que agora tenho: as pessoas são muito menos participativas, não gostam de se expor e muito menos arriscar.»

A nível pessoal,  Sara Figueiredo não fala em saudades, porque são óbvias. Aproveita o tempo a registar cada momento vivido. «Esquecendo as saudades, já que vim para esta aventura sozinha, tem sido bom voltar a pegar na máquina fotográfica com assiduidade e ter num blog aquilo com que Singapura me vai surpreendendo.»

 

Uma história boa

«Seria muito injusta se não falasse na forma como variadíssimos portugueses a viver em Singapura, mesmo antes de eu chegar, se disponibilizaram para me responder a todas as minhas dúvidas e me receberam como se já nos conhecêssemos. Graças a eles foi bem mais fácil chamar casa a Singapura.»

 

Uma história menos boa

«A menos boa tem obrigatoriamente que passar pela forma como os locais executam regras e não deixam espaço para segundas interpretações. Aqui parece só haver branco e preto no que diz respeito a burocracias. A título de exemplo posso dizer que para ter o S-Pass (um dos tipos de visto de trabalho) tive que repetir a radiografia ao tórax e as análises à sida, apesar de um médico local ter validado os exames que trazia de Portugal. Os relatórios não podiam ser traduzidos… Outro exemplo caricato foi ter que repetir a fotografia tipo passe, porque o papel era mate e tinha que ser brilhante e eu estava de brincos e não podia! Outra história também muito boa aconteceu quando tentámos prolongar os meus seis meses de residência para nove e a resposta que me deram foi: 9 seria possível; 6 + 3 não!»

 

Uma emigrante como tantos outros

«Sou igual à maioria dos atuais emigrantes portugueses: formação superior, pós-graduada, que já viveram fora do país no passado, orgulhosos no seu país, mas que conseguem chamar casa a outras paragens particularmente em momentos como o que vivemos em que o país está de costas voltadas para a minha geração. Tenho cada vez mais amigos próximos que saem não porque não gostam do país, mas porque neste momento não é fácil estar a trabalhar em Portugal e conciliar sonhos legítimos desta idade como querer ter uma família.»

 

Amigos de toda a parte

Sara Figueiredo tem amigos portugueses e também de outras nacionalidades com quem convive com alguma frequência. «Aqui, não só há portugueses como foram muito recetivos à minha chegada, mas procuro não estar só com eles. Tenho a sorte de já ter um bom grupo de amigos (da Coreia, Tailândia, Taiwan, Singapura, Índia e Espanha, entre outras nacionalidades) com quem combino jantares, concertos, barbecues, trekkings, fins de semana prolongados… tenho tido muita sorte!»

 

Uma cultura diferente

«Há imensos exemplos de situações diferentes que poderia dar. Geralmente diz-se, e com razão, que Singapura é a Ásia para principiantes. Uma espécie de Eurodisney para adultos em que tudo funciona, ou pelo menos parece funcionar. A frase mais usada nas t-shirts dos turistas é o trocadilho «Singapore Fine City», porque há multas para tudo… Vou dar apenas dois exemplos de choques culturais por que passei. Ouvir um “sim” (por exemplo numa reunião), não quer dizer sim. A melhor tradução seria “sim, estou a ouvir” e não “sim, concordo” ou “sim, eu trato disso”. Quanto à emoção, há uma ausência total. Nos contactos físicos, pura e simplesmente ausentes, e nas expressões corporais como dança ou entreajuda e compreensão face a um pedido.»

 

Portugal e as saudades

«Namorado, família e amigos. Da comida também… Sinto saudades da sardinha assada, das cerejas, dos percebes e dos clássicos como cabrito assado, leitão, pão alentejano, queijos, presunto e vinho.»

 

Metas alcançadas

«A nível profissional, estou a ter uma experiência fantástica, estou muito satisfeita. Sendo a primeira mulher na minha empresa em Portugal a fazer este tipo de rotação de funções, sinto uma responsabilidade acrescida. Quero que a ideia que fique dos portugueses seja excelente. A nível pessoal também, no sentido em que os laços que tinha com Portugal e com as pessoas mais importantes para mim saem ainda mais fortes.»

 

Um lugar em Portugal, adiado

«Eu sou claramente uma privilegiada: gosto do meu trabalho, da minha equipa e da cultura da empresa para a qual trabalho. Sim, tenho lugar no meu país e quero ver esta crise ultrapassada rapidamente. No entanto, ainda não estou cansada de estar fora de Portugal… Neste momento, não me é fácil responder a esta questão, porque, apesar de estar fora, continuo a trabalhar para Portugal. O que posso dizer é que gostaria muito de trabalhar em Portugal, mas não o vou fazer custe o que custar.»

 

Uma pessoa diferente

«Absolutamente! Esta experiência na Ásia impede-me de regressar igual; irei seguramente mais tolerante, graças à lição que é ver um país tão pequeno como este ter lado a lado hindus, muçulmanos, budistas ou cristãos. Nunca me senti excluída ou olhada como uma pessoa diferente. Também voltarei mais paciente, são as sete horas de diferença horária que me impedem de viver uma vida em direto com Portugal. E volto mais flexível, por lidar diariamente com culturas tão diferentes da europeia.»

 

Uma frase para definir

«O mundo é um imenso livro do qual aqueles que nunca saem de casa leem apenas uma página.»

— Agostinho de Hipona

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Sou claramente uma embaixadora orgulhosa de Portugal por todas as paragens por onde passei! Um coração apaixonado pelo mundo, pelas diferenças, pelas viagens… Só pode ser luso!

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É a mentora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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