A Grécia não estava nos seus planos. Nunca tinha pensado em sair do país por um período de tempo tão longo, mas as oportunidades de formação académica surgiram através do projecto Erasmus.
Decidiu “viver um sonho”, conta, e respirar ares mediterrânicos que não os de Portugal. Durante nove meses bebeu e comeu hábitos e costumes gregos. Por lá deixou a marca de uma cultura de Fado, Futebol e Fátima. Na bagagem trouxe um estágio profissional e uma dissertação de mestrado em fase de conclusão.
Sara Mendes é o retrato de uma jovem estudante com o sobrenome ambição.
Quando a oportunidade de uma vida nos bate à porta

Portugal não respondia afirmativamente às propostas de estágio, mas Sara não baixou os braços. Procurou vingar lá fora e conseguiu um estágio em Tessalónica, na Grécia, numa organização não governamental (ONG).
Não havia como recusar. Informou a família o quanto antes «para poder tomar uma decisão». Afinal, partir nove meses para um país desconhecido «não foi uma decisão muito fácil», ressalva.
Foi Lisboa que a viu partir. Foi no aeroporto dessa cidade que deixou para trás a família e uma grande paixão: Caramelo, o felino de quatro patas, o companheiro de uma vida.
Na altura do embarque, Sara não vacilou. O peito encheu-se-lhe de coragem e na hora da despedida pensou apenas que só era preciso «um passo de cada vez até lá chegar». O estágio era «uma oportunidade importante para a minha vida», diz Sara.
Viu-se grega… para chegar à Grécia
Os entraves de uma viagem de sonho surgiram cedo. «Apenas existem voos diretos até à cidade de Atenas», explica Sara. O problema é que o destino de estágio fica a «seis horas de comboio» da capital e apanhar um voo doméstico acaba por ser mais caro.
Sara decidiu-se por uma solução mais racional, mas igualmente perigosa. Partiu de Lisboa, num voo low cost, até Milão, Itália, onde acabou por pernoitar «no aeroporto, completamente sozinha, com malas e sacos, para, na manhã seguinte, apanhar um voo, também low cost, até Tessalónica», explica.
Quando a crise bate à porta, abre-se uma janela
Quando Sara Mendes decidiu abraçar esta experiência, ainda não se ouvia falar em crise na Grécia. Três meses depois de estar instalada, Sara assistiu ao eclodir de uma crise, que se havia de tornar mundial.
Afectou-a directamente. A Chios Institute for Mediterranean Affairs, ONG onde realizou o estágio, viu-se obrigada a encerrar portas, «devido a questões administrativas», diz a portuguesa. Nem Sara nem os restantes colegas de Erasmus esperavam um cenário com este desfecho. Afinal, «na semana anterior, tínhamos efetuado, com sucesso, o Fórum “Euro-Mediterranean Forum for Young Researchers”, na Universidade de Kadir Has, em Istambul, Turquia», conta Sara.

Não vacilou. Apressou-se a contactar outras organizações não governamentais e não tardou em receber feedback positivo. A United Societies of Balkans aceitou a candidatura e consentiu que o sonho de Sara continuasse durante mais seis meses. O ingresso nesta ONG permitiu-lhe «aprender muito sobre os Balcãs» (Albânia, Bósnia-Herzegovina, Bulgária, Grécia, Montenegro, República da Macedónia, Roménia, Sérvia, Turquia) e valeu-lhe uma participação «num projeto muito interessante desta organização “Ignoring the Past is Condemning the Future”, projeto sobre a Ocupação Nazi nos Balcãs», recorda Sara.
Grécia, um rosto diferente de Portugal?
Apesar de o mediterrâneo nos aproximar dos Gregos, por lá habitam costumes e hábitos bem díspares dos nossos. Os fatores sociopolíticos não diferem muito dos pressupostos lusos, visto que «a Grécia é como um mosaico cultural. Teve, em tempos, uma mistura de ortodoxos, muçulmanos, judeus e cristãos que definiram a cultura e características da própria cidade», relata Sara.
Já o setor do comércio revela tradições bem diferentes. Sara explica: «as lojas estavam abertas de manhã, durante a semana, mas à tarde fechavam por volta das 13h, 13h30. Por vezes, algumas abriam a partir das 18h até às 22h e outras simplesmente não abriam mais».
O carnaval é cheio de cores. As celebrações carnavalescas são vividas «com muita alegria, com muitas danças tradicionais gregas, carne de porco assada e vinho, que são distribuídos à população», continua a portuguesa.
A Páscoa é um período onde a religião mais se faz sentir. É tempo de reflexão. Pratica-se o jejum logo após o carnaval, que dura até ao dia efetivo da celebração pascal. «Na Páscoa, as pessoas cozem ovos de galinha e pintam-nos. Depois da missa da Páscoa partem-se os ovos ao bater com eles nos ovos do vizinho e a seguir comem-se», diz Sara. À semelhança de certas zonas de Portugal, também se degusta o tradicional carneiro.
Ficar por cá não é opção

Hoje, com a dissertação de mestrado concluída – e sobre a qual publicou uma sebenta intitulada A Importância das Organizações Não-Governamentais na Sociedade Civil – Estudo de caso de uma ONG na Grécia –, não vê o dia de partir novamente. Portugal não tem lugar para a sua ambição profissional. Sara ponderou voltar a sair: «uma vez que já terminei os meus estudos e não consigo encontrar emprego com as minhas habilitações», relata. Se pudesse gostava de ficar por cá, mas a atual conjuntura e a precaridade no seu setor de formação não o permitem.
Sou uma pessoa diferente
Saiu uma Sara. Regressou outra, mais completa e formada.
Viver noutro país abriu-lhe os horizontes. A partilha de casa com colegas de outras partes do mundo – Bulgária e Turquia – tornou-a, de certa forma, uma pessoa «mais tolerante e intercultural», confessa Sara.
Durante os nove meses em que esteve ausente de Portugal, Sara constatou que fora da zona de conforto «temos a possibilidade de perceber como o nosso país é visto, temos a oportunidade de dar a conhecer a nossa cultura, assim como de conviver, viver e aprender diversos hábitos».
Se o destino a voltar a colocar na rota da emigração, Sara não prescinde dos pampilhos de Santarém e dos tão portugueses pastéis de nata.
Mais do que tudo é um Coração Luso
Defino-me como uma cidadã do mundo, mas preciso de regressar à minha base e, por isso, sou, sem dúvida, um coração luso.














