Ser mãe fora do nosso país é fazer as compras e decorar o quarto do bebé, sem alguém para nos ajudar a concluir a tarefa ao pormenor (sim porque para o marido, rosa é rosa e um body é um body).
É ter medo que na altura em que as águas rebentarem o marido esteja a trabalhar e não temos mais ninguém para nos socorrer. É ter pânico, de com o stress na altura do parto não perceber o que dizem, por ser em outra língua e não saber o que fazer. É, na altura em que o efeito da epidural começa a passar, não perceber que lhe disseram para esperar pela cadeira de rodas e cair estatelada no chão por ainda ter as pernas tipo esparguete. Raio do francês que demorou para entrar! É ter quatro amas devido aos horários de trabalho, sofrer por ter que deixar as filhas com várias pessoas diferentes sem as conhecer bem, mas ficar orgulhosa por conseguirmos dar conta do recado.
É ter a consciência pesada por ver a escola a aproximar-se e saber que vão ter que lidar com o facto de não falarem francês, mas ao mesmo tempo ter orgulho de poder ir de férias e falarem com os avós na sua língua.
É ir passear com as duas filhas pequenas e ouvir que emigrei só para receber os abonos e ficar em casa sem fazer nenhum (eu até gostava de saber como se faz nenhum com duas filhas). É ter medo de passar metade da nossa vida longe dos nossos pais e outra metade longe dos filhos, por estes quando forem grandes não quererem voltar de vez para Portugal como nós planeámos.
É ser mãe longe das nossas mães, longe dos nossos, das nossas raízes, logo não ter o colo da mãe quando nós também precisamos de colo. É ir para o nosso país e levar as férias todas para as minhas filhas se habituarem à família e quando finalmente se habituam, ter que voltar. É ensinar as minhas filhas que os avós estão dentro de telemóveis, nas vídeo chamadas. É ter que explicar porque choramos sempre que deixamos o nosso país depois das férias.
 É ter os nossos filhos a ouvirem os nossos planos, de um dia voltar para onde pertencemos. É impingir às nossas filhas viagens de carro França-Portugal, de ida e volta duas vezes ao ano. É poder ter uma casa com jardim para brincarmos nos dias de sol juntos, é podermos ter os animais que elas e nós tanto gostamos pois o preço da ração ao fim do mês não nos obriga a tirar comida do nosso prato. É não termos que fazer ginástica para que os dias do mês sejam maiores que o ordenado. É podermos comprar um monovolume de 7 lugares para viajarmos confortavelmente. É sermos emigrantes aqui e emigrantes lá, ter estabilidade emocional num país e estabilidade financeira noutro.
Esta é a minha história, com muito mais para escrever lado a lado com o meu marido e duas filhas, com lápis coloridos, pois emigrar foi o pior que me aconteceu, mas também foi o melhor, um doce amargo. Tenho muito a agradecer ao país que me deu o equilíbrio necessário para começar a ser feliz. As minhas filhas vão crescer a ouvir as nossas histórias, vão crescer a saber que podemos replantar as nossas raízes onde bem nos apetecer, e que mesmo que não tenhamos o sol igual ao nosso país, pudemos ter as flores mais bonitas do mundo.
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8 COMENTÁRIOS

  1. “É ter medo que na altura em que as águas rebentarem o marido esteja a trabalhar e não temos mais ninguém para nos socorrer. É ter pânico, de com o stress na altura do parto não perceber o que dizem, por ser em outra língua e não saber o que fazer.“

    Ainda não sou mãe fora de Portugal, mas vou ser, em breve. E num país com muitos aspectos diferentes do nosso, particularmente na atitude em relação à gravidez e ao parto. Exige muita adaptação! Como tal… essas palavras acertaram “na mouche”. Quantas vezes já não pensei nisto…! É bom saber que há outras na mesma situação, e ler as suas histórias e vivências.

    Obrigada por este artigo!

  2. Susana Morais. Desculpe mas a sua situacao nao e grave. Esta a 2 horas de viagem de Portugal, vive num pais aonde existe Portugueses e a cultura Portuguesa por todo o lado, aonde pode comprar todos os artigos portugueses e a facilidade de visitar Portugal mesmo num fim de semana para matar as saudades e visitar a familia. Imagine voce viver na Australia aonde nao existe algo supporte, poucos Portugueses, meus filhos a 4 horas e 2 horas de distancia de aviao vivendo eles no mesmo pais. Voce ainda acha como mae que esta sofrendo? Ha maiores sacrificios no mundo do que um emigrante na Franca hoje em dia.

    • Obrigado pelo seu comentário! É verdade cada um tem a sua experiência e por isso é que todas contam. Seja em França, Austrália ou noutro país qualquer, ser mãe é um desafio independentemente das distâncias.

    • Boa tarde 😊, obrigada pelo seu comentário, a solidão nem se mede pela distância, existe solidão em pessoas a morar porta com porta, ou até a morarem na mesma casa 😔

  3. Grata pela partilha.
    Já vivi fora e embora não tenha lá tido filhos entendi tudo como se fosse comigo. Emocionou- me. Obrigada e muitos sucesso.

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