Do alto dos seus 1,58 de altura, Sofia Palma leva a sério a frase do poeta Fernando Pessoa que diz: “Não sou da altura que me veem, mas sim da altura que meus olhos podem ver”. Aos 27 anos, a leonina de personalidade forte, que já viveu em meia dúzia de países, e, agora, prepara se para desbravar um novo continente rumo ao Brasil.

 

Há três anos, a jornalista Sofia Da Palma Rodrigues deixou a sua terra natal para se aventurar por outros sítios. Insatisfeita com a rotina de trabalho da redacção e a sentir que já não estava a aprender nada de novo, encheu-se de coragem e, movida por um sentimento de urgência, resolveu que era chegada a hora de fazer travessias maiores do que aquelas a que estava habituada – entre o Barreiro e Lisboa. Desde então, tem andado a desbravar cidades e a conhecer pessoas por países como Itália, Inglaterra, Espanha, Guiné Bissau e Bélgica.

Apelidada por um amigo de “frenética” por conta de sua ansiedade produtiva, é dona de um espírito livre e questionador. “A Sofia é uma pulguinha que não pode parar no mesmo lugar. Ela é intensa em todos os momentos, e essa intensidade benéfica faz com que todos à sua volta também vivenciem os seus dramas e alegrias, suas hesitações e certezas… mas sempre de um modo autêntico, como ela é”, conta o amigo Gustavo Jaime.

“Sou uma saudosista da liberdade, da curiosidade, da rebeldia, da novidade, sobretudo da novidade da adolescência”, confessa Sofia.

O desejo de novos desafios, somado à falta de oportunidades de trabalho em Portugal, desenhou o cenário ideal para que ela emigrasse. “A primeira vez que saí do país, em 2011, estava a cair numa monotonia que me revolvia, com a qual não me sentia nada confortável. Lembro-me de estar sempre a pensar: mas o que é que tu andas aqui a fazer? É só isto?”, recorda ela.

A jornalista diz que a crise ajudou a sustentar a opção por um padrão de vida fora dos cânones tradicionais. “Aos meus pais, digo que a culpa é da crise, uma desculpa facilmente aceite, que não precisa de grandes explicações. Mas eles também sabem que os motivos que me levaram a sair de Portugal foram a minha ânsia de conhecer, de experimentar e porque tinha (e tenho) muitas perguntas às quais não posso responder na rotina casa-trabalho-fim-de-semana-férias”, confidencia.

 

A paixão pelo jornalismo

Sofia iniciou a carreira de jornalista em Lisboa, onde atuou como traineer na revista Time Out Lisboa e no jornal Público. Trabalhou também como freelancer em revistas de âmbito nacional como Meio e Publicidade, Sábado, Playboy e Jornal de Negócios.

A escolha pelo Jornalismo foi um percurso natural de alguém que, desde muito cedo, sempre foi apaixonada pelas letras. “Lembro-me de gostar muito de ler. De sublinhar os livros, retirar as passagens que mais me marcavam e de escrever diários que contavam desabafos de amores não correspondidos, quezílias com a minha mãe, aventuras com amigos e tudo aquilo que, na altura, considerava serem as incompreensões dos adultos para com o meu mundo adolescente”, conta.

“A inaptidão natural para a Matemática e a Físico-Química também facilitaram a escolha”, acrescenta. Sofia diz que o que mais lhe encanta na profissão de jornalista é a possibilidade de mergulhar no universo do outro. “Gosto de ouvir boas histórias, digeri-las e, depois, contá-las. Contá-las de uma forma que todos possam compreender, que faça rir e chorar a empregada do café e o professor universitário”.

Porém, nos sítios por onde passou em sua vida saltimbanco de emigrante, nunca pôde trabalhar apenas como jornalista. “Sempre tive de ter outras profissões paralelas (gestora de conteúdos, tradutora, consultora de Comunicação). O que se ganha no Jornalismo é miserável”, desabafa.

“Quando entrego textos gigantes, que me levam semanas de investigação, me roubam os fins de semana e as noites (porque, durante o dia, estou a trabalhar noutra área) e vejo o recibo ao final do mês, não tenho qualquer dúvida de que estou a ser explorada”, queixa-se.

No entanto, a constatação nunca foi o suficiente para afastá-la da profissão. “Escrever reportagens me faz feliz, me torna uma pessoa melhor, mais tolerante. Há quem vá ao cinema, beba cervejas com amigos, passe as tardes de domingo no parque. Eu gosto de fazer isso tudo, claro, mas abdico de muito por esta teimosia de não querer deixar o jornalismo. Abdico sem grande esforço, para dizer a verdade, mas um dia sou capaz de me cansar”, pondera.

Para o jornalista Gustavo Jaime, Sofia, além de uma amiga valiosa, é também uma jornalista perfeita. “Ela está sempre buscando respostas para as suas dúvidas e as dúvidas do mundo, desde as respostas mais profundas às mais cotidianas. Além disso, é muito justa e sincera, tanto no âmbito pessoal quanto no profissional”, elogia.

O pesquisador e amigo Daniel Meirinho diz que o que mais lhe chama atenção na postura profissional de Sofia é a forma ética e compromissada de lidar com o trabalho. “Quando escreve tem sempre o cuidado de apresentar todos os fatos e seria incapaz de usar uma mentira para engrandecer uma história”, ressalta.

 

Os encontros desenhados pela vida

Em Lisboa, Barcelona, Florença, Bruxelas, Londres e Bissau foram muitos os encontros desenhados pela vida que, aos poucos, foram se entranhando à vida de Sofia. Foi assim com Daniel, apresentado a ela por um amigo em comum, com o qual se estabeleceu logo uma empatia recíproca e, aos poucos uma amizade sem fronteiras. “Sofia é uma amiga prestativa e dedicada, daquelas que, quando se conquista a amizade, tem-se a certeza de que nunca se será esquecido”, destaca.

Foi por intermédio dele que Sofia recebeu a proposta que a levaria a sete meses de trabalho na África.  “Em 2012, tinha ido fazer um intercâmbio em Barcelona, onde a Sofia estava vivendo há quase um ano. Ela sempre me disse que queria ter a chance de ir trabalhar na África. Por isso, quando recebi o e-mail com a proposta de emprego em Guiné-Bissau, lhe enviei”, recorda.

Segundo ela, a experiência é, até o momento, a mais marcante dos três anos de aventuras pelo mundo. “Eu estava a definhar num escritório em Barcelona (a pior coisa que me podem fazer é fechar num gabinete com hora de soltura) quando surgiu a vaga de técnica de comunicação em Guiné-Bissau”, conta.

Daniel Meirinho lembra que, inicialmente, Sofia disse achar não ter as competências necessárias à vaga. “No entanto, no dia seguinte, já tinha um plano de Comunicação Estratégica para a organização de 10 páginas, com pesquisas e dados fundamentados”, diverte-se.

De repente, num intervalo de um mês, a vida muda completamente e Sofia vê-se a realizar o sonho de viver na África. “Foi como se me tivessem trocado o chip. Há algo de genuíno naquela terra difícil de explicar. O ritmo é outro. As pessoas não se movem de acordo com a velocidade dos ponteiros do relógio, é o tempo que está dependente do teu ritmo. Como se, apesar da pobreza, apesar da falta de condições básicas – como o acesso a água potável ou eletricidade -, a forma como vivem o dia-a-dia faça tão mais sentido”, relata.

Foi nesta época que cruzou o caminho de Susana Gomes. “Conhecemo-nos em novembro de 2012, quando Sofia veio trabalhar na SNV. Um colega disse-me que ela estava à procura de casa. Como na altura estava fora do país, pedi-lhe para dar o meu contacto”, conta Susana.

Para sua supresa, nem 24 horas passadas, Sofia já perguntava se podia comprar o colchão para se mudar no dia seguinte. “Não se escolhe com quem se partilha casa por e-mail (se bem que a miúda escreve bem!). Por isso, apesar da ansiedade dela em resolver tudo na hora, achei melhor que nos conhecêssemos primeiro. Assim foi que, passados dois dias, estávamos a beber uma Mini na mercearia da nossa rua, a primeira de muitas. E, no dia seguinte, Sofia já tinha comprado o colchão e se mudado lá para casa”, recorda.

Os amigos dizem que espontaneidade, determinação e inquietação são marcas da personalidade de Sofia. “Lembro-me que, depois de estar vivendo em Bissau, após algumas vacinas, boas tardes de dramas e a pensar que os mosquitos tropicais iriam carregá-la de volta a Lisboa, ela estava a formular perguntas sobre aquela terra que nem os guineenses tinham a capacidade de responder”, brinca Daniel.

“Ela tem sempre o coração aberto e adora experimentar e se aventurar. Além disso, com ela vivi os episódios mais cômicos que se pode esperar de uma pessoa”, conta Joana Tavares, amiga da temporada em Barcelona.

 

O legado das andanças

Para Sofia, entre os ganhos desta experiência, estão os amigos que conquistou e as histórias que teceu. “Tive a sorte de poder construir um lar em quase todos os sítios por onde passei, tive a sorte de ter vontade de chorar em todas as despedidas – com medo de deixar para trás pessoas importantes”, revela.

Segundo ela, a opção por esta vida nômada é apenas mais uma entre as tantas possibilidades que a vida oferece. “Não é preciso ser louco para ir em busca do que se quer. Podemos tentar, pelo menos tentar, ser aquilo que quisermos. É apenas mais uma opção: abdicas de algumas coisas para ganhar outras”, acrescenta.

E, quando questionada sobre momentos difíceis, diz apenas que é preciso estar preparado para a solidão de alguns dias e para a saudade que nasce a cada partida. “O mais difícil é aquela solidão profunda de estar rodeado de pessoas conhecidas e pensar aquelas coisas parvas: se eu for parar ao hospital, quantas destas pessoas me vão ver?”, questiona-se.

Mas, por outro lado, há também as conquistas que a deixam de coração dividido, numa espécie de eterna companheira de viagem. “Vivo constantemente com saudade porque tenho pessoas queridas espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Talvez por isso seja tão difícil imaginar-me a viver num sítio fixo: hoje tenho planos para ir visitar um, amanhã faço planos para viver na terra do outro”, completa.

E nesta vida errante é que amizades foram sendo cunhadas. Amizades como a que se estabeleceu entre ela e o jornalista Gustavo Jaime, que nasceu da troca de impressões futebolísticas de dois aficionados pelo esporte, durante o mestrado de Jornalismo na Universidade Nova de Lisboa, em 2009, e que dura até hoje.

Gustavo diz que o vínculo se estabeleceu em tons de brincadeira e de “provocação”, em conversas transcendentais em Lisboa e, depois, em festas, viagens e risadas que desfrutaram ao longo desses anos de amizade. Mas, para ele, há um momento bem representativo da forma como Sofia se entrega aos amigos. “Talvez o momento mais marcante de nossa amizade tenha sido quando ela me acolheu na casa dos seus pais depois que estive uma semana internado por conta de uma pneumonia”, recorda Gustavo.

Para Susana Gomes, a lembrança mais forte da convivência em Bissau é um episódio cômico que viveu com Sofia quando ela resolveu encontrar o alfaiate dos sonhos e renovar seu guarda-roupa a baixo custo. “Ela comprou os tecidos no Bandim(o grande mercado de Bissau) e mandou aviar várias peças, mas depois de três semanas e várias provas o resultado eram calças enormes, dois vestidos que não entravam na cabeça e um terceiro, que resultaria se estivéssemos no séc. XVIII”, recorda Susana.

De acordo com a amiga, a história serviu para comprovar a obstinação de Sofia na realização de seus objetivos, mesmo diante de repetidos fracassos. “Ela não desistiu, foi em busca de um novo costureiro, até que encontrou o Iero, que lhe concretizou o sonho e ela pôde, enfim, desfilar com várias peças de fazer inveja a qualquer menina da capital”, revela Susana.

 

Apenas mais um coração luso

Nos últimos anos Sofia tem saltitado por vários sítios do mundo em busca de respostas para o seu “frenético” coração, mas faz planos de abrandá-lo na terrinha. “É em Portugal, a entediar uma mão cheia de netos, que me imagino daqui a 50 anos. Só não tenho é, rigorosamente, nenhum plano para o que vai acontecer até lá chegar”, admite.

Enquanto aguarda por este dia, aproveita o distanciamento das viagens para aprender um pouco mais sobre o mundo e também sobre si e sua gente. “Sou mais crítica de Portugal do que aquilo que era antes de sair. Mas também lhe reconheço muitas mais virtudes”, destaca.

Segundo ela, a oportunidade de conhecer outras culturas a deixaram mais atenta à síndrome de inferioridade dos portugueses. “Achamos sempre que os outros são melhores, menos corruptos, mais cívicos, mais evoluídos. Depois, na prática, não é nada assim. Há bom e mau em todo o lado e Portugal tem muito mais coisas boas do que as que os portugueses conseguem identificar numa autoanálise”, esclarece.

Nas suas incursões pelo mundo, nunca afastou-se da paixão por certos símbolos lusitanos, como a seleção nacional, o Cristiano Ronaldo, o Rui Veloso, o bacalhau com natas, a Super Bock e o café Delta. “Defendo-nos com unhas e dentes, daquela forma irracional com que as mães defendem os filhos: são as primeiras a criticá-los, mas não deixam que ninguém de fora o faça”, revela.

Agora, rumo ao início de uma nova aventura no Brasil, ressalta o que aprendeu sobre a força da cultura na formação das identidades. “Não sabia como isto de ser português é tão mais forte do que aquilo que as pessoas possam pensar. Gosto de me misturar, mas se pensar nos verdadeiros amigos que fiz, a maioria são portugueses ou brasileiros. É muito mais fácil fazê-lo com alguém que partilha o mesmo background cultural que tu”, admite.

E assim, plena daquilo que é, Sofia segue conquistando o mundo na melhor síntese de um coração luso “primeiro estranha-se e, depois, entranha-se”.

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Mara Alves
É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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