“Sou uma cidadã do Mundo.”

“Sair de Portugal não estava nos nossos planos, mas quando tivemos de começar a apertar o cinto, principalmente com dois filhos pequenos, e vivendo também da ajuda familiar, resolvemos começar a apontar em todas as direções para podermos solucionar a situação em que nos encontrávamos, e a oportunidade de virmos para a Noruega surgiu.”

Susana Lopes tem 40 anos, deixou Portugal há três. Professora de Yoga reside hoje em Alesund, na Noruega. Casada e atualmente com três filhos, abandonou Portugal por iniciativa do marido em busca de uma vida melhor.

Deixar para trás o seu país nunca fez parte dos planos, mas em tempos difíceis e com filhos para criar esta foi a melhor opção.

Desde muito cedo que o desporto está presente na vida de Susana, filha de dois grandes desportistas, campeões de atletismo nos anos 60. Susana é formada em Música Clássica, mas a sua vida foi sempre ligada ao desporto. Primeiro porque ser filha de campeões marcou um período da sua vida “ toda a gente conhecia os meus pais”. Em segundo lugar porque foram largos os anos que trabalhou com os pais e com a irmã na empresa da família, um negócio ligado ao desporto e que durou 20 anos. Por último e, mais uma vez o desporto cruzou a vida de Susana, embora numa outra vertente, o Yoga. Em Portugal foi professora, pertence à Confederação Portuguesa do Yoga e esteve ligada a diversas iniciativas, nomeadamente, à oficialização do dia Mundial do Yoga. Nem sempre era bem recompensada a nível financeiro e mas “era feliz no que fazia em Portugal”.

A emigração já fazia parte da história da família, quando na década de 60, os pais de Susana tinham tentando a sua sorte fora de Portugal, “Os meus pais também tinham sido emigrantes na década de 60 na Suécia (durante 6 anos e antes da revolução de Abril) e apenas regressaram a Portugal após a revolução, para viver o sonho de Abril e, pensavam eles, construir a nova Suécia em Portugal. Hoje vêm com tristeza o estado social do nosso país e a ida de uma das suas filhas para fora”.

 

Ser emigrante

A adaptação a um novo país não foi difícil “foi fácil para mim pois já tinha estado dois anos e meio a viver em Boston nos Estados Unidos e depois, porque devido ao trabalho desenvolvido pelo Yoga já tinha viajado por todo o Mundo e conhecido várias realidades. Difícil era a minha adaptação a Portugal, ao meu próprio país”, conta.

“Sou uma cidadã do Mundo” é assim que Susana se define. Não se sente “presa” a nenhum lugar “estarei onde for útil e puder ajudar a espalhar a antiga e nobre filosofia do yoga tradicional, é isso que me completa e me faz feliz.”

A experiência dos pais como emigrantes sempre esteve muito presente na vida de Susana, sempre conheceu muito bem a realidade e a cultura dos países escandinavos, e foi educada segundo esses valores, em Portugal, “sentia que remava contra a maré. Sempre tive uma visão mais positiva e otimista da vida.”.

 

Os sonhos

A trabalhar na Noruega como professora de Yoga, hoje Susana tem a sua própria empresa, escolhe o horário em que quer trabalhar de acordo com as necessidades dos seus filhos. Sente-se realizada e feliz, ainda mais agora com o nascimento do seu terceiro filho, um sonho que tinha sido deixado para trás quando vivia em Portugal.

Apesar de já ter concretizado alguns dos seus sonhos, Susana sonha ainda com a possibilidade de escrever alguns livros sobre o yoga com a finalidade de ajudar grávidas e mães que desejam aprofundar a sua ligação com os seus filhos antes e depois do nascimento

No que diz respeito à família, sente que a adaptação dos filhos foi muito boa, e hoje vivem todos com melhores condições de vida “atualmente estamos mais felizes, mais integrados e a nossa relação fortaleceu-se.”.

 

Curiosidades culturais

  • Os impostos e o combustível são dos mais altos no mundo, no entanto o estado social funciona e incentiva-se o uso do transporte público.
  • Aos domingos dificilmente encontramos uma loja aberta e nas alturas festivas fecham por 3 ou 4 dias, temos de planear mais. O domingo deve aproveitar-se para estar em família, passear ao ar livre.
  • Na Noruega podemos beber água da torneira em qualquer lugar, pois a água é das mais puras do mundo com baixo teor mineral e sódio.
  • As crianças na Noruega passam a pré-primária a brincar lá fora quer faça sol, chuva ou neve, existe uma roupa apropriada para cada tipo de temperatura. Explora-se mais a natureza e o contacto e interação com as outras crianças como um fator fundamental do seu desenvolvimento.

 

 

Como se matam as saudades


Quando decidiu sair do país, Susana nunca pensou muito como seria gerir as saudades, o bem-estar e a integração dos filhos num novo país era o mais importante. No entanto, quando tudo se tranquiliza é quando custa mais, é quando as saudades apertam. Faz os possíveis para todos os dias com a pessoa que considera a sua “âncora”, a mãe.

Mesmo longe, mantem-se ligada a Portugal, continua a ver televisão portuguesa e faz visitas a Portugal quando possível.

 

Regressar a Portugal

“Sinto que tenho lugar no meu país mas não me revejo nas escolhas sociais e políticas da maioria dos portugueses e dos seus governantes, por isso sair e encontrar a Noruega foi bom, pois muitos dos meus valores são partilhados pelo povo norueguês. A família, e o contacto com a natureza são primordiais, e não a luta frenética por uma posição social de sucesso aos olhos dos outros. Regressar a Portugal para já não, e talvez só mesmo de férias.”

 

O outro lado da emigração – Quem fica

Francelina Anacleto, mãe

“A Susana foi educada no sentido de ser uma mulher liberta, com verdade, liberdade e disciplina, ela é muito forte, é uma filha muito querida, uma mãe extraordinária, e hoje provavelmente é uma mulher mais feliz.

Sou uma mãe muito orgulhosa e fico muito feliz por ela, é muito lutadora e vai conseguir ser tudo o que idealizou. É capaz de ter tudo mais vai conseguir ainda mais!”

 

Acha que a Susana algum dia vai regressar?

“Não acredito, vem de férias, ela não esquece que é portuguesa, mas não a vejo voltar, a não ser que recebesse uma boa proposta.”

 

Saiba Mais

yogaalesund.no

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Mara Alves

É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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