De cabelos e olhos trigueiros, Tânia Barreira radia assim a herança arabesca dos tons portugueses. Com 30 anos acabados de completar, começou em março de 2011 uma aventura digna também das epopeias lusas. Depois de quatro anos a trabalhar como psicóloga em projetos comunitários ao serviço da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, o contrato termina sem possibilidade de renovação. Fundo de desemprego, tempo para pensar. Uma inquietação suficiente para não querer ficar parada.
«Já não havia desculpas». Podia agora concretizar um sonho de há algum tempo: «Pôr a mochila às costas e ir por aí», diz Tânia. «Ainda pensei na América do Sul», conta, «mas como queria andar sozinha decidi ir para um lugar onde me sentisse mais segura, foi assim que surgiu a Oceania!» Foram dois meses a viajar. Primeiro Austrália, depois Nova Zelândia. «Não planeei grande coisa, ia disponível para tudo, o mais importante era estar a concretizar.»
Na terra dos cangurus começou por andar por Perth, Margareth River, Adelaide, Melbourne. De autocarro, às vezes de boleia, sempre de coração aberto. Mantendo apenas as «catedrais do surf» em agenda, continuou por Brisbane, Gold Coast, Biron Bay.

Seguiu-se Christchurch, um «até breve», e finalmente o regresso a Portugal. Com um sonho realizado fechava-se um ciclo, novas portas se abriam. Na pátria, pouco havia mudado, mas no espírito de Tânia tinha nascido um novo mundo. Douglas decidiu rumar a Portugal, também para experimentar. Da amizade floresceu uma relação. Os dois viajantes juntavam-se no amor, também junto ao mar, mas em terras de Peniche.
Três meses depois, partiram para a Nova Zelândia. «No dia em que conheci o Douglas deixei de tirar fotos, a máquina avariou, foi um sinal de que tinha que voltar», diz a portuguesa. A vida é feita de sinais, haja entrega e atenção.
Estabeleceu-se na Nova Zelândia, perto de Raglan. Primeiro, com um visto turístico, depois, com outro de trabalho válido por seis meses. «Há emprego em psicologia, nas comunidades de origem maori. É tudo bastante organizado, basta que a pessoa venha com uma situação profissional firmada para conseguir regularizar-se por aqui. Meios não faltam.» A juntar a isso, «o nível de vida é mais acessível e as remunerações ajudam.»
As diferenças em relação a Portugal também têm ajudado, porque fazem sentido para Tânia. «Não há prédios, toda a gente tem uma casa com quinta, uma consciência ecológica muito diferente, bastante avançada. A maior parte das casas tem a sua própria recolha de água e painéis solares. Há uma ligação muito forte com a natureza. As pessoas em si também são simpáticas, isso nota-se, por exemplo, no modo como atendem o telefone, perguntam sempre como estás, como está a correr o teu dia.»
A par do cenário social e cultural, também o clima, as vistas, a «natureza estonteante», «toda uma vibração», vão justificando cada vez mais a continuação da aventura. «Chove muito, o ar é mais puro, o país é verde.»
Se as saudades apertam? «Por vezes. Saudades dos amigos, da família, da noite de Peniche, pois aqui não se convive tanto socialmente em bares, as pessoas são mais comedidas do que em Portugal.»

Tânia é carinhosamente apelidada de «coddy» pela sua família neozelandesa, é o «diminutivo de “cod fish”, ou seja, “bacalhau”, em homenagem a esse grande ex-libris português», explica.
Assim se conta a estória de Tânia, Douglas e Manger, o labrador preto que os acompanha. Da Atouguia da Baleia para Whale Bay. Um salto de um ponto do globo para outro, mas que no final de contas também se chama «baleia». «Mais sinais!?» A vida só faz sentido se acontecer em movimento e para isso é preciso arriscar rumo ao desconhecido. A energia e a expressão de Tânia provam-no.














