Enquanto ainda estava na escola secundária, Valério já fazia pequenas reparações e atualizações de software. Mais tarde, no âmbito de uma cadeira na universidade, um dos seus professores lançou-lhe o desafio de criar uma aplicação para telemóveis. Esse projeto levou-o a conferências em Espanha, Holanda, Bélgica e Estados Unidos. Em 2008 foi escolhido para participar no Google Summer of Code. Depois disto, um «empurrão» para a Nokia. Hoje, vive em Helsínquia e trabalha para a empresa.

 

Valério sempre teve a ambição de trabalhar em algo inovador, onde pudesse marcar a diferença. Em Portugal, as «oportunidades de trabalhar em algo assim são poucas. Excetuando o ramo da investigação, não existem muitas empresas em Portugal a produzir inovação e produtos que sejam utilizados por milhões de pessoas», refere. Assim, depois dos primeiros anos na universidade, Valério já tinha nos seus planos trabalhar no estrangeiro, numa grande empresa.

Durante o mestrado, Valério fez alguns projetos para a Nokia. Então recebeu um convite desta empresa para uma entrevista. «Fiz uma entrevista por telefone, depois fui convidado para vir a Helsínquia para uma série de entrevistas. Mais tarde, fizeram-me uma oferta de trabalho, quando estava quase a acabar o curso. Aceitei e já cá estou há dois anos».

O processo de recrutamento foi rápido, mas Valério ainda teve de esperar pela aprovação da polícia finlandesa. «No fim dessa semana recebi uma proposta, mas tudo iria depender do aval da polícia finlandesa. Muitas empresas aqui não contratam sem o aval deles, que fazem um background check ao candidato», conta Valério.

A mudança para a Finlândia foi um processo simples, tanto a nível logístico como burocrático, sendo que a empresa se ocupa de resolver todas as questões necessárias. «A empresa contrata outra empresa que nos trata de tudo, desde mudanças, registos necessários na diversas entidades finlandesas ou encontrar casa para alugar. Até nos explicam com as coisas funcionam para atividades do dia-a-dia. Pode parecer que não, mas torna tudo muito mais fácil quando se muda para um país muito diferente de Portugal.»

 

As principais dificuldades

O clima é a principal dificuldade apontada por Valério. «Acho que me adaptei bem ao frio. Sinto mais falta da luz no inverno. Ser quase sempre de dia no verão também é estranho, mas já me adaptei a essa diferença.» Em termos da sociedade finlandesa, a adaptação não foi difícil. «Os Finlandeses são muito reservados por natureza. No início não era muito fácil interagir com eles, mas com o tempo apreendi a relacionar-me com eles nas diferentes situações. Não é difícil fazer amizades quando eles nos conhecem melhor.»

 

O bom

«Já vivi aqui muitos bons momentos. Há uma história engraçada. Quando cheguei, cumprimentava as pessoas como em Portugal, um aperto de mão aos rapazes e dois beijos às raparigas. Comecei a notar que elas ficavam muito envergonhadas. Até que um amigo finlandês me explicou que nem com os amigos muito chegados eles trocam beijos ou dão um abraço, então a quem acabam de conhecer é sempre um aperto de mão. Uma diferença cultural que conhecia de outros países, mas que não me passou pela cabeça na altura.»

 

O menos bom

Em termos de experiências menos boas, Valério destaca uma relacionada com o trabalho. «Foi quando a empresa mudou de estratégia e eu soube que muitos dos meus colegas iriam sair. Mas a vida continua. Numa indústria que se move tão depressa temos de estar sempre a contar com grandes mudanças para manter a empresa competitiva, mudanças essas que não são nada fáceis quando implicam mudanças também na vida dos empregados.»

 

Portugal e as saudades

«Tenho saudades da família, amigos, comida e do sol. A comida finlandesa não é a melhor; de vez em quanto a minha família manda-me produtos portugueses. Também temos aqui uma pequena comunidade portuguesa que organiza eventos e jantares. Sempre dá para matar saudades dos petiscos portugueses.»

 

Valério Valério, uma pessoa diferente

Esta experiência fez de Valério uma pessoa diferente. «Sim, aprendi muito em diversas áreas. Viver fora do país e numa sociedade muito diferente da nossa é uma experiência muito enriquecedora. Apesar de já ter vivido fora nos tempos da universidade, é sempre diferente viver tão longe da família. Aprende-se a tratar de tudo na nossa vida.»

 

Uma nova visão de Portugal

«Tenho muito orgulho em ser português, mas depois de ver como funciona e sentir a sociedade aqui, tenho muita pena de como as coisas são em Portugal. Nós não temos uma sociedade justa. A corrupção é altíssima, as oportunidades muitas vezes não são concedidas com base no mérito, mas sim em fatores externos. Fico triste, porque o nosso país é lindo e acredito que até temos recursos para ser melhores que os países nórdicos. Mas a nossa sociedade simplesmente não funciona. Enquanto isso não mudar, infelizmente não prevejo grande futuro para o país. A mentalidade das pessoas é que tem de mudar, nenhum político conseguirá melhorar o país substancialmente sem esta mudança na mentalidade das pessoas.

 

Regressar a Portugal, fora dos planos

«Pretendo ficar pela Finlândia mais algum tempo.» Se continuar a fazer o que gosta, Valério não tenciona mudar-se. A não ser que algo se altere. Aí, pensará em mudar-se para outro país no norte ou centro da Europa.

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Sou um português orgulhoso do meu país. Tento divulgar Portugal o mais que posso, pois sei que temos um país fantástico. Já consegui convencer alguns amigos a visitar Portugal e eles adoraram. Penso que é algo que todos os emigrantes devem fazer, devemos ser embaixadores do nosso país.

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Mara Alves
É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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