Vera Santos é natural de Alcobaça e, desde 2009, vive na Noruega. Foi aos 29 anos que ela e o marido tomaram a decisão de emigrar. Nesse mesmo ano, a irmã emigrou para a Suíça e o pai já estava emigrado, havia pouco tempo. Em Portugal, ficou a mãe e o irmão mais novo.

 

Fez seis anos que Vera e o marido pisaram pela primeira vez o solo norueguês. «Emigrei pois o meu marido teve uma oportunidade de emprego e veio primeiro, estando sozinho durante quatro meses.» Vera confessa que não foi fácil estar longe do marido, pois tinham casado havia um ano e, além disso, emigrar nunca foi opção para o casal. «Durante o mesmo ano, em 2008, construímos a nossa casa, sem nunca pensar que, um dia, iríamos emigrar». Em Portugal, Vera trabalhava num ATL, como Auxiliar de Ação Educativa, e o marido era operador de CNC, na produção de moldes. Mais tarde, tirou um curso técnico de Design de Moldes, cargo que exercia aquando da sua ida para o estrangeiro. Apesar de ter gosto no que fazia, era um trabalho cansativo, que se traduzia em muitas horas de trabalho. O tempo que restava para o casal era pouco ou nenhum. Esse foi um dos motivos que levou à emigração. «Foi uma decisão muito difícil, também porque iria para um país onde não existem muitos portugueses, um país muito frio, onde, no Inverno, há pouco sol e poucas horas de dia, com uma língua [difícil].»

 

Uma adaptação difícil

A mudança para outro país acarreta muito mais do que se possa pensar. É um começar de novo, deixando para trás tudo aquilo que fazia parte da vida quotidiana até ao dia da partida. A chegada a um país estrangeiro revela-se, quase sempre, complexa nos primeiros tempos: a língua, a cultura e o clima são, na maioria dos casos, as características apontadas como sendo as mais difíceis de ultrapassar. «Deixar tudo em Portugal foi muito complicado. Tínhamos muitos convívios, quer com a família, quer com amigos, e chegar aqui e passarmos a ser só nós os dois [foi difícil]. Chorei muitas lágrimas […], mas, por outro lado, pensava no meu futuro, no futuro que iria dar aos meus filhos um dia, que talvez teria sido uma boa opção, emigrar.»

 

A língua

O norueguês é apontado como sendo difícil de aprender, contudo, é a chave para a integração social e profissional, sendo um passaporte para conseguir trabalho. Consciente disso, mal chegou ao país, Vera começou logo aprender a língua. «Posso dizer que é uma língua muito, muito difícil, frequentei a escola durante um ano e meio». Para Vera, a dificuldade ainda era maior por não dominar a língua inglesa. «Não falava muito inglês (cá quem souber falar o inglês consegue ir-se “safando”. A maioria das pessoas, desde uma criança com 7/8 anos até uma pessoa com 80/90 anos fala inglês). Tinha mesmo que aprender a língua, para uma integração mais rápida, para ter um emprego», conta. Hoje, Vera já ultrapassou o problema da língua, pois já escreve e compreende bem o norueguês. «Claro que há sempre aquelas palavras mais técnicas ou mais “caras” que tenho que recorrer ao dicionário para perceber o seu significado, mas por muitos anos que aqui viva, nunca irei aprender tudo totalmente, tenho consciência disso».

 

A Cultura

E como a gastronomia faz um povo, na Noruega, também os hábitos alimentares são completamente diferentes dos nossos. «Eles comem muito à base de comidas instantâneas, salsichas, pizzas e pão, muito pão! Só fazem uma refeição quente por dia, por volta das 17/18 horas. A refeição das 12h é uma simples sandes. Ao fim-de-semana são refeições cheias de exageros, ou seja, pizzas, salsichas, snacks. No que diz respeito às crianças e aos doces, é uma cultura tão diferente da nossa; a maioria das crianças só tem autorização para comer doces ao sábado, mas quando digo comer, é sem limites, a quantidade que quiserem, o que quiserem», refere Vera.
Vera conta que o álcool e o sexo ainda são um tabu naquele país. «O álcool é muito restrito e a sua venda é muito controlada, apenas permitida a partir dos 21 anos». E acrescenta que é aos fins-de-semana que se comentem os excessos. «É apenas aos fins-de-semana que eles cometem os seus excessos. Durante a semana é raro o norueguês que beba álcool. Aos Sábados e às Sextas-Feiras à noite, muitos vão até aos bares/discotecas para se divertirem e beberem as suas cervejas/bebidas espirituosas até cair para o lado, sejam senhores ou senhoras.»

A Noruega é um país onde os ordenados são relativamente altos, comparando com outros países, mas onde o custo de vida é caro. Um ordenado médio dá para ter uma vida normal, para ter alguns excessos, para viajar, para ter/fazer hobbies, conta Vera. Em relação aos bens materiais, Vera diz que os noruegueses não dão a importância a uma casa como nós, portugueses, damos. «Eles mudam várias vezes de casa, carro, na vida. Acho que isto se deve ao facto de não terem de se esforçar muito para terem as suas próprias coisas, como nós temos».

 

Sete semanas sem sol

Como país nórdico que é, a duração dos dias e das noites é muito diferente daquilo a que estamos habituados no sul da Europa. «Aquando da mudança do horário de Verão para o horário de Inverno (último fim-de-semana de Outubro) é a altura pior para se viver nos países nórdicos. Os dias são muito pequenos, amanhece por volta das 9/10h da manhã, isto se não estiver a nevar, senão quase não há luz do dia, e por volta das 15/16h horas fica de noite. As tardes e noites são muito longas. É um tempo triste, enfadonho, ora chove, ora neva, o sol aparece de vez em quando (recordo-me que, há uns dois anos, tivemos sete semanas sem sol».

No início do horário de Verão, fins de Março a Outubro, a luz do sol predomina. «Passamos a ter poucas horas de escuro e passamos a ter mais horas de luz. O pico maior é o mês de Maio/Junho, onde chegamos a ter apenas 3/4 horas de noite (das 00:30h/1h da manhã até às 3/4 h da manhã). Nós até nos esquecemos das horas».

 

O trabalho e a integração

Enquanto frequentava a escola durante a manhã, à tarde, Vera tinha um pequeno part-time numa empresa de limpezas. Em 2010, nasceu o filho Kevin. Vera ficou um ano em casa a desfrutar da licença de maternidade. Terminada a licença, conseguiu um emprego numa pizzaria e foi neste emprego que se adaptou à língua. «Todos os dias aprendia uma palavra nova, conheci muitas pessoas, integrei-me melhor na sociedade.» Em 2013, Vera começava um novo desafio profissional. Ingressou numa fábrica onde se fazem mangueiras (a mesma onde trabalha o marido). Vera trabalha na secção das máquinas onde se faz a tecelagem, embora de momento esteja em casa, pois espera o segundo filho.

 

Portugueses e a xenofobia

Nos últimos anos, a Noruega tem sido um destino da emigração portuguesa, sobretudo para licenciados, engenheiros, enfermeiros, médicos. Contudo, os portugueses ainda têm pouca expressão no mapa da emigração. Normalmente, não é um país para onde se vá à aventura, sem contrato de trabalho. «Este não é um país onde podemos chegar, sem nada, e estar à procura de um emprego. Sem um contracto de trabalho, pode-se estar cá, no máximo, três meses, como turista».
Vera conta que era objetivo fazer amizade com noruegueses, já que não existem muitos portugueses na cidade onde vive, mas não foi tarefa fácil. «Queríamos fazer amigos noruegueses, conhecer pessoas, conhecer locais. De uma maneira geral, queríamos que fôssemos vistos como emigrantes integrados na sociedade onde vivemos». Aos poucos, começaram a fazer amigos e a conhecer pessoas novas e, hoje, consideram-se bem integrados. Embora Vera ressalve que o povo norueguês é um povo um pouco difícil de perceber. «São um povo que pensa muito nele próprio. Por exemplo, quando se casam, a família – os pais, avós, irmãos -, “deixam” de ser família. São também um povo muito frio, nada sentimental».
A Noruega é um país patriota que dá valor a tudo o que é norueguês. Vera conta que se celebram as datas mais importantes sempre com grande orgulho. As casas são decoradas com a bandeira e até trajam com as vestes tradicionais nessas ocasiões. Mas, por outro lado, Vera conta que se sente alguma xenofobia. «Para a maioria, pessoas que não sejam louras, de olhos azuis e com um tamanho médio-alto como o deles, são olhadas de lado. Sim, são racistas».

 

As saudades

Reunir a família toda em Portugal não é fácil, por isso os contactos via internet são essenciais para esta família que vive separada pela emigração. «O nosso encontro em Portugal é difícil, porque podemos viajar em alturas diferentes, por algum motivo. Então, para nos encontrarmos, costumamos viajar até à Suíça e eles até cá, à Noruega. Estamos todos assim, separados (o meu pai e a minha irmã, estando no mesmo país, não vivem juntos, estão a duas horas e meia de distância um do outro). Assim, a minha mãe vive em Portugal com o meu irmão, longe de todos nós, o que não é nada fácil».

Entre as coisas que lhe fazem falta, Vera refere a sua casa, a família, alguns amigos, o sol, sim, porque o sol, os produtos tradicionais (enchidos, doces…) e o calor humano, «o facto de irmos ao café, de irmos a uma festa (cá as festas que se fazem são no Verão e não são nada como as nossas festas), pequenas coisas que, se calhar antes, não dávamos tanta importância e que agora sentimos falta.»

 

As ambições

Continuar a pagar a casa que deixaram em Portugal e ir fazendo algumas obras de melhoria são objetivos que o casal tem vindo a cumprir. «Coisas que, nós vivendo em Portugal, tão depressa não iríamos conseguir fazer nos próximos anos. Tal como costumo dizer, peço a Deus (sou católica e crente) que nos dê saúde e trabalho para que, um dia, possamos desfrutar do nosso sacrifício, na nossa casa junto da nossa família.»

Desde que está na Noruega, o casal também tem aproveitado para viajar e conhecer outros países, como Inglaterra, Suíça, Dinamarca ou Suécia.

Mas os sonhos não acabam aqui. O casal gostaria ainda de abrir um negócio relacionado com crianças, área que Vera tanto gosta.

 

Um Coração Luso

Sem avançar uma data para um possível regresso a Portugal, Vera diz que Portugal está sempre no seu coração e no seu pensamento. «Tenho imenso orgulho em ser portuguesa e de o dizer. Somos um país pequeno, mas grande em muitas coisas», conclui.

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