José Maria, 31 anos. Diretamente de Vila Nova de S. Bento, Serpa, para o mundo. Depois de já ter passado por vários países, José Maria está novamente de viagem marcada. Desta vez, o destino é o Reino Unido.

 

Em 2009, José Maria era recém-licenciado e trabalhava na sua área de formação, marketing. A rotina diária e a vontade de conhecer outros países empurraram-no para um programa de voluntariado internacional.

No início, não havia certezas do destino da sua missão. Embora o objetivo inicial fosse a Índia, a escolha acabou por ser Moçambique.

A preparação foi longa. Antes de entrar em África, este voluntário ao acaso passou alguns meses a viajar pela Europa. Suécia, Dinamarca, Inglaterra e, por fim, seis meses de formação na Noruega.

Foi em 2010 que José Maria pisou pela primeira vez o continente africano. São muitas as histórias que o alentejano traz consigo. As pessoas, os lugares, as condições em que viveu. O continente africano foi o que mais o marcou na sua aventura.

 

Da Noruega para a África do Sul

«O primeiro país africano em que estive foi a África do Sul, porque viajei de Londres para Joanesburgo. A sensação foi muito estranha, primeiro por causa do calor, porque viajei no mês de Outubro, e depois por ser um país africano sobre os quais nós ouvimos coisas menos boas», lembra José Maria. E acrescenta: «ao passear nas ruas de Joanesburgo, as pessoas só nos advertiam para termos muito cuidado por causa da diferença de cor.»

 

Da África do Sul para Moçambique

«Quando chegámos à fronteira, no controlo de entrada para outro país, a sensação foi muito má. No lado da fronteira de Moçambique os africanos chamavam-nos, a gritar, para comprarmos coisas, trocar dinheiro, muita confusão. Nestes países, o que não gostei mesmo nada foi a quantidade de lixo que se vê na rua, muito lixo mesmo.»

Em Moçambique, José Maria tinha à sua espera um transporte, parecido com uma camioneta de caixa aberta, que partilhou com outras pessoas que se preparavam para escalar a montanha (Gurué). Neste trajeto, a solidariedade entre os viajantes e a subida da montanha foi marcante para José Maria. «Íamos em cima de sacos de farinha de milho. Foi engraçado, porque na viagem um dos passageiros comprou um grande balde de mangas e ofereceu a todos os passageiros. Estávamos todos a comer mangas, bem sujos, com pó, mas ao mesmo tempo a rir com aquele momento tão simples. O gesto da pessoa foi maravilhoso. Também foi maravilhoso escalar 40 km para subir à montanha, com paisagens lindas, populações no meio do nada, nas florestas, que nunca viram pessoas de cor diferente. Quando chegámos à última vila, antes de subir, houve um ritual por parte do chefe da aldeia. Foi maravilhoso.»

 

A missão de José Maria era, sobretudo, ajudar na comunidade. Em Moçambique, o português deu aulas, construiu uma horta escolar e ajudou na reabilitação de uma biblioteca. José Maria recorda com alegria o momento da chegada a uma das escolas, onde fez a supervisão dos professores estagiários: «foi engraçado, porque as crianças saíram todas a correr para me tocar, mas outras fugiam com medo.»
Numa região onde quase tudo falta, o português recorda a generosidade das pessoas: «quando estava de saída da escola, no fim da missão, o segurança chegou-se ao pé de mim, deu-me uma galinha e disse: “como não tenho dinheiro para comprar uma prenda, gostaria que aceitasse esta galinha como prenda para levar para a Europa, para se recordar de mim”».

No entanto, a missão de José Maria em África também ficou marcada por episódios menos bons. «Foi muito mau quando fiquei pela primeira vez gravemente doente, com disenteria.  Tive a sensação de que ia morrer ali. Fiquei a noite toda na rua com um cobertor, mas o mais humano foi o segurança da escola que ficou a noite toda ao meu lado até amanhecer, a cuidar de mim.»

As fracas condições de habitabilidade e de higiene foram algo a que José Maria teve de se habituar. «Nós, europeus, estamos habituados a ter sempre água potável, corrente. Quando cheguei a Moçambique, tomei banho de balde, como nos tempos antigos.»

 

De Moçambique para Angola

Terminada a missão em Moçambique, José Maria regressou à Noruega para terminar o curso de voluntariado. Neste período, o português foi convidado pela organização a dar aulas em Angola. No entanto, não foi um processo simples. José Maria teve de esperar cerca de seis meses, devido à burocracia, para poder entrar em Angola. «Nesta fase, foi um pouco complicado entrar em Angola, porque estive dois meses para entregar os documentos no consulado de Angola em Lisboa. Depois disso, ainda esperei mais quatro meses até ser entregue o visto de trabalho.»

No final de janeiro de 2011, José Maria entra finalmente em Angola. A escola que lhe foi destinada situava-se na província de Kwanza Sul. Era uma escola recente, financiada pela União Europeia, onde José Maria trabalhou oito meses como docente e líder de uma equipa de formação. Depois foi transferido para outra escola, na província do Zaire, no norte de Angola, para auxiliar a direção, com a função de diretor pedagógico da Escola de Professores.

 

Moçambique fica no coração

«Já conheci muitos lugares. O que me ficou mais no coração foi, sem dúvida, Moçambique, porque é um país que ainda preserva muitas características naturais, sem ter a intervenção do homem. A ilha é maravilhosa, ainda mantém muitas características portuguesas.»

Depois desta experiência, José Maria considera que houve algumas coisas que mudaram em si. «Fez de mim outra pessoa. Não digo uma pessoa melhor nem uma pessoa pior. Foi um conjunto de transformações. Sou mais tolerante com as pessoas, dou mais valor a pequenas coisas, não ligo a futilidades como, por exemplo, marcas, roupas caras, objetos sem necessidade, etc., porque vi a realidade de outro mundo e sobrevivi a muitas coisas que muita gente nem imagina. Tenho um coração mais humano e menos racional.»

 

Um dia, do Mundo para Portugal

O início de mais uma aventura começa já no final do mês. José Maria trocará o calor africano pelo gelo da Escócia, num programa de estágios no ramo da hotelaria. «Dia 26 de fevereiro estou de partida para terras de Sua Majestade, para iniciar um estágio num restaurante. Aguardo com muita expectativa.»

José Maria viveu outras culturas, conheceu outros povos, degustou outras comidas, admirou outras paisagens. Este coração luso vai continuar a descobrir o mundo. Um dia, o regresso. «Um dia mais tarde voltarei com certeza ao meu país, porque foi aqui que nasci, é aqui que tenho as pessoas que me amam, os meus amigos, família.»

 

Mais do que tudo é um Coração Luso

Sou um português igual aos outros portugueses. Um português que conhece diferentes países e com diferentes extremos, países mais ricos da Europa e países mais pobres do mundo, mas por mais que viaje, o meu coração será sempre português. Acho que estas viagens me fizeram dar mais valor ao nosso país, às nossas origens, o ouvir música portuguesa, o dizer às outras pessoas que sou de Portugal, o falar da minha terra, do meu país.

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Mara Alves
É a fundadora do Coração Luso. Licenciada em Jornalismo e Comunicação, pós-graduada em Jornalismo e mestranda em Jornalismo, Comunicação e Cultura. Foi na Rádio que começou, chegando a colaborar com a Rádio Renascença. Na televisão passou pela RTP2, TVI e, mais recentemente, RTP Internacional. É apaixonada por histórias, gosto que herdou do seu avô. É emigrante no Reino Unido.

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